A crítica autêntica não destrói a fé e a fé autêntica não impede a crítica. Hans Küng


Uns mais iguais que os outros           

 

Não é preciso ser adepto da fé cristã para perceber que na Bíblia, para o bem ou para o mal, o que mais importa são pessoas. Mandamentos, regras, parábolas, narrativas, poemas, elogios, punições, tudo isso tem, como alvo, gente. Uma das passagens que indicam isso com mais clareza é aquela em que o Cristo diz que “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”. Se não é preciso ser cristão para se perceber isso, nenhum cristão é escusado de procurar colocar essas palavras em prática – e não há dúvida quanto à proeminência dada por elas nesse trecho.

              Como minha vivência religiosa se deu em um ambiente teológico reformado conservador (se é que não há aí um pleonasmo), constantemente me vejo pensando nele, conquanto dele não faça mais parte, embora, oficialmente, meu nome provavelmente esteja arrolado em um livro de membresia de algum canto por aí. E meu pensamento se volta às comunidades que, nesse âmbito, têm procurado se afinar à contemporaneidade, almejando transmitir uma mensagem mais contextualizada com as perguntas lançadas pelos atuais desafios existenciais.

            Vejo que, de fato, várias mudanças foram feitas. Essas, no entanto, têm como foco principal a área litúrgica. Novos estilos de pregação, novos arranjos decorativos, músicas diferentes, utilização constante de tecnologia de ponta na comunicação. Em termos doutrinários, contudo, o que se vê é um pouco mais do mesmo; um mesmo com nova linguagem, com nova roupagem ou embalagem, mas com um mesmo conteúdo. Desenvolver esse tema envolveria algumas considerações que demandariam mais tempo. Ele dá ensejo, contudo, ao que me parece a limitação mais flagrante e prejudicial dessa mudança, a qual, como alguém já disse, lembra a disposição de “mudar o que for necessário para que tudo permaneça como sempre foi”.

            Essa limitação aponta em duas direções: o lugar das mulheres e a visão a respeito dos homossexuais. Nessas novas comunidades, as mulheres continuam ocupando um papel secundário. Isso significa que, em última instância, elas não participam das tomadas de decisão mais importantes. Ainda estão presas ao padrão que diz que, no limite, “não podem exercer autoridade”. Quanto aos homossexuais, sua opção ou condição sexual é motivo para que não sejam recebidos como membros das igrejas, conquanto possam apresentar todos os requisitos exigidos das demais pessoas (fé, fidelidade conjugal, concordância doutrinária).

 

            Uma vez que são as pessoas o que mais importa em uma comunidade, até quando alguns limites continuarão fazendo separação entre homens e mulheres? Até quando a opção sexual continuará sendo responsável pela exclusão de milhões de pessoas dispostas e desejosas de compartilhar sua fé como se possuíssem os mesmos direitos de qualquer outra pessoa? É claro que mudanças em igrejas tradicionais são difíceis e demandam tempo. Mas as comunidades têm força para tentá-las. E não deveriam esperar tanto, para não acontecer, como diz o sempre provocante Paulo Brabo, que venham a tratar igualitariamente mulheres e homossexuais quando seu gesto não for mais que mera ação a reboque da sociedade, quando, portanto, ele já não fizer mais diferença. 



Escrito por Leandro T. Almeida às 06:07:50
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 



Meu perfil
BRASIL, Sudeste, Homem
Histórico
Outros sites
  carreiro
  crítica literária
  voto consciente cabreúva
  voto consciente
  " target="_blank">pedagiômetro São Paulo
Votação
  Dê uma nota para meu blog