A crítica autêntica não destrói a fé e a fé autêntica não impede a crítica. Hans Küng


Por causa de, com a ajuda de, apesar de

 

         Como toda síntese, esta também não envolve pormenores ou detalhes que poderiam ser úteis, mas se prende a grandes linhas, capazes, no entanto, de revelar determinado percurso.

         Inicialmente, acreditava que uma pessoa se tornava melhor por causa do cristianismo. Na adolescência e imediatamente a seguir a ela, estava convencido de que não-cristãos eram pessoas com menor capacidade de agir eticamente em alto nível, por acreditar que somente a fé cristã oferecia os elementos capazes de tornarem uma pessoa plenamente consciente de seus deveres, primeiro para com Deus e, em seguida, para com o próximo. Dentro dessa chave, meus esforços evangelísticos e o dos demais cristãos faziam sentido em duas instâncias: dever para com Deus e, no caso dos homens, possibilidade de torná-los melhores do que eram. Ainda nessa perspectiva, valores tais como mais desejo de justiça, mais facilidade de perdão, uma atitude mais receptiva e acolhedora, maior compreensão e mansidão, eram, todos, intimamente ligados ao cristianismo. Quem não estivesse contido em seus limites poderia até demonstrar tais valores, mas sempre de modo insuficiente e limitado.

         Após essa fase, com as experiências vivenciadas no SPS, com a leitura de autores mais progressistas, com a superação, em suma, do puritanismo que me marcara até então, passei a acreditar que os valores acima não estavam limitados à esfera do cristianismo, mas poderiam ser implantados com a ajuda dele. Ainda fazia sentido, portanto, militar no âmbito da fé cristã porque ela poderia propiciar a inculcação de valores tais como justiça, paz, fraternidade, hospitalidade. E, de fato, continuo achando que há bons autores cristãos capazes, em maior ou menor medida, de estimular uma experiência de alto nível de consciência sobre direitos e deveres aptos a refinar a vivência de nossa humanidade. Também não ignoro que, individualmente, muitas pessoas de fato podem se tornar melhores por conta da fé cristã. Pais e maridos violentos podem se tornar mais pacíficos, viciados podem vencer sua dependência química, egoístas contumazes podem se tornar mais liberais. Tais transformações, no entanto, não são monopólio da fé cristã, mas das religiões em geral – para não falar de movimentos os mais variados, sem viés religioso, que podem oferecer melhora de vida em muitos sentidos.

         Apesar disso, em minha fase atual acredito que as pessoas se tornam melhores apesar do cristianismo. Em que pesem os pontos positivos que podem advir da vivência cristã, minha observação, para não falar da miríade de dados históricos que poderiam ser evocados, leva-me a concluir que, em regra geral, a fé cristã tem tornado as pessoas piores. Sua postura diante dos direitos dos homossexuais, seu conservadorismo político, sua indisposição com a crítica, sua leitura canhestra da Bíblia, sua postura exclusivista diante das demais religiões, em suma, uma série de características que podem ser percebidas sem muito esforço nas comunidades cristãs me impede de conceber que nesse âmbito as pessoas se tornem de fato melhores do que eram antes de pertencer a ele. Como disse, há exceções do mais alto nível. Mas, para um Leonardo Boff, quantos Malafaias? Para um Frei Betto, quantos Bolsonaros? Empatia com as causas dos homossexuais (e minorias em geral), disposição política menos conservadora, leitura crítica da Bíblia, inclusivismo religioso etc, são posturas possíveis dentro do cristianismo, mas apenas em luta contra as hegemonias nele predominantes.

 

         Com isso, não estou afirmando que sou melhor do que qualquer cristão. Uma leitura atenta do texto admitirá que reconheço que há cristãos do mais alto nível humano, os quais admiro profundamente. Falo da floresta, consciente de que sua visão panorâmica impede a contemplação do exemplar raro da árvore. Mas, apesar de tudo, essa reflexão me parece necessária, para realizar um movimento que me parece urgente na sociedade brasileira: subsumir a religião à ética. Humana, bem entendido.    



Escrito por Leandro T. Almeida às 10:50:30
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