A crítica autêntica não destrói a fé e a fé autêntica não impede a crítica. Hans Küng


Nossos mitos

 

Lembro-me nitidamente daquele início de tarde em um restaurante na Av. Brasil, em Campinas. Recém sentado à mesa após ter me servido, vejo que um senhor, já com o prato em mãos, procura em lugar para se sentar, olha de um lado para outro e nada encontra. Eu espero que ele olhe para mim, torço, aliás, para que isso aconteça e, como se ele lesse meus pensamentos, vira-se para meu lado. Não hesito e ofereço-lhe uma das cadeiras vagas na mesa. Almocei, naquele dia, com o Rubem Alves.

Quanto mais o tempo passa, mais as experiências marcantes ganham aspecto de mito. Isso quer dizer que o menos importante é a exatidão do que se narra sobre elas, mas seu significado e possibilidade explicativa do que somos no presente. Os quatro anos no Seminário Presbiteriano do Sul são, nesse sentido, um tempo mítico. Rubem Alves é, nesse sentido, um mito.

Se há alguém marcante para minha “trajetória teológica”, aquela pessoa capaz de quebrar grilhão por grilhão as cadeias forjadas durante uma adolescência e parte da juventude vivida sob rédea puritânica, esse alguém foi Rubem Alves. Variações sobre a vida e a morte, Gestação do futuro, O enigma da religião, O suspiro dos oprimidos, Cenas da vida, Da esperança, Concerto para corpo e alma: que efeito sobre um jovem seminarista tais livros exerceram! Pouco importa se o Rubem dos últimos tempos e a maioria dos seus livros não despertavam mais o mesmo fascínio. O reconhecimento que lhe devo é por ter ocupado um lugar em minha vida que jamais será esquecido.

Ouvi-lo, a convite do prof. Oadi Salum – que, em belo gesto, vencia suas amarras teológicas em nome da velha amizade com o Rubem –, na sala de aula do SPS, foi uma daquelas experiências marcantes, como o foram o referido almoço, as tentativas de encontrá-lo, junto com os amigos, no Bar Dali, as vezes recebidas em seu escritório, a palestra com o Leonardo Boff no Instituto de Artes da Unicamp. A simpática figura do velho sexagenário era um símbolo de ousadia, irreverência e liberdade para quem buscava espaço para alçar novos voos. Não é incomum perder certo senso das proporções diante do que o Rubem significou: diante do Dicionário filosófico do Voltaire, lembro de ter dito ao amigo André Jorge que os verbetes ficariam mais interessantes se tivessem sido escritos pelo Rubem Alves...

            “Para os teólogos, herege; para os psicanalistas, irreverente; para os pedagogos, subversivo”. Assim o prof. Calvino Camargo definiu o Rubem em uma de suas aulas. Definição célebre, que descreve com maestria um pouco do significado da vida dessa pessoa inesquecível, que não poderia, de modo algum, ficar restrita às cada vez mais estreitas paredes dos castelos eclesiásticos. Agora que ele partiu, era hora de deixar essa homenagem.

Não sem antes lembrar de mais um episódio. Se não me engano, o amigo Josué Chaves perguntou ao saudosíssimo prof. Joás Dias de Araújo o que ele achava do Rubem Alves. Joás, teólogo conservador, mas cheio de ternura, surpreendeu a todos nós: “O Rubem? O Rubem é um vulcão teológico!” Salve Rubem!

 

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 19:12:59
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