A crítica autêntica não destrói a fé e a fé autêntica não impede a crítica. Hans Küng


Um pobre pra chamar de seu

 

            Quando confrontados com a crítica à sua resistência quanto a qualquer tipo de política pública afirmativa (ou seja, as que se dirigem a minorias ou a pessoas em algum tipo de risco social), cristãos conservadores geralmente apelam para uma saída “à la Bolsonaro”: “você tem ideia de como trato bem minha empregada?”, “tenho um parente gay”, “pergunta pro frentista lá do posto se eu o discrimino”. Em outras palavras, à crítica que se dirige a uma postura política é oferecida uma resposta que aponta para um comportamento privado. Nada mais confortável.

            Por, talvez, doar dinheiro para instituições de caridade, tratar a empregada “como se fosse da família” (por que, então, não incluí-la na mesma proporção recebida pelos filhos na partilha da herança?) ou cumprimentar serviçais do condomínio (embora a abolição do “elevador de serviço” só tenha vigorado na base da lei), tais conservadores fariam o suficiente para não incorrerem na crítica, e mais: a aparência que transmitem é a de que, se dependesse deles, não haveria a desigualdade e discriminação que reclamam políticas públicas para serem combatidas.

            Rick Warren, quando questionado a respeito de sua postura contrária aos direitos civis aos gays se saiu com a afirmação de que tinha “many, many, gay friends”. A questão é: em que medida essa alegada postura privada contribui para a mudança na situação real de pessoas em uma esfera ampla? São recorrentes acusações provenientes dos conservadores de que “esquerdistas” lutam pelo pobre apenas na arena teórica, porque na prática não fazem nada por eles. Eis nessa crítica a inversão do que poderia se constituir em ações concretas na direção de uma sociedade mais justa: a luta na esfera política é tachada de inoperante diante de posturas privadas de caridade.

Aparece aí aquele típico gesto que impede o tratamento do problema em sua raiz. Ele retém apenas a segunda parte da proposta, sensata a meu ver, de André-Comte Sponville:

 

“Pode-se pensar por exemplo, com Spinoza, que cabe ao Estado, não aos particulares, ocupar-se dos miseráveis; que, em consequência, contra a miséria, mais vale fazer política do que fazer caridade. Eu estaria de acordo. Ainda que desse tudo o que tenho, até tornar-me tão pobre quanto eles, em que isso alteraria a miséria, no fim das contas? Para problema social, solução social. [...] Isso não nos dispensa, por outro lado, de termos para com os pobres ou os excluídos uma atitude de proximidade fraterna, de respeito, de disponibilidade à ajuda, de simpatia, em suma de compaixão”.

 

            A maioria dos evangélicos se prende unicamente à segunda parte do artigo – ou afirma fazê-lo. Não que não façam política. Claro que fazem. Mas fazem mormente se filiando ao que há de mais conservador nesse campo, assumindo uma posição impeditiva de transformações efetivas na sociedade que ajudem a combater a desigualdade social e a discriminação reinantes no Brasil. Referem-se às páginas bíblicas para defender gestos de caridade sem se dar conta de que não havia opção política disponível na época de sua escrita, sobretudo para um marginal grupo judeu-cristão – com exceção dos zelotas, escolha não corroborada pelas comunidades cristãs e que causaria arrepios em qualquer evangélico contemporâneo. Ou seja, o incentivo à caridade aos pobres nas páginas bíblicas é o máximo que poderia ser feito aos pobres naquele tempo. Com outros instrumentos disponíveis, como aponta Sponville, de alcance e eficácia incomparavelmente maiores, evangélicos continuam apelando à caridade e rejeitando as soluções políticas efetivas. Tivesse sido o Evangelho escrito sob um regime democrático, e não imperial, continuaria ele falando de caridade como a atitude recomendada junto aos pobres?

 

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 22:17:50
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