A crítica autêntica não destrói a fé e a fé autêntica não impede a crítica. Hans Küng


Fé no espaço público?

           

A reflexão aqui proposta tem caráter de exercício de pensamento, quase que “pensamento em voz alta”. A advertência se faz necessária porque o próprio título dela carece de um aprofundamento impossível neste ambiente: espaço público não é um conceito simples e há quem se pergunte em que medida ele existe no Brasil. Isso não impede, contudo, que se proponha aqui uma problematização da conclusão de Jürgen Habermas em seu “Fundamentos pré-políticos do Estado de direito democrático?” O texto foi publicado, sob o título “Dialética da secularização”, em conjunto com o texto do então prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé Joseph Ratzinger.

            Afirma Habermas na conclusão: “Em seu papel de cidadãos do Estado, os cidadãos secularizados não podem nem contestar em princípio o potencial de verdade das visões religiosas do mundo, nem negar aos concidadãos religiosos o direito de contribuir para os debates públicos servindo-se de uma linguagem religiosa”. A problematização que proponho é a seguinte: em que medida a ideia de verdade do religioso é partilhável com o não religioso? Qual seria o “poder de verdade” de uma visão religiosa de mundo? Parece-me que a aceitação da conclusão de Habermas só pode valer a partir do momento em que o não religioso estiver apto a abraçar a fé do religioso. Qual argumento estritamente religioso deveria ser válido para o não religioso? Não consigo vislumbrar nenhum.

            Lembro-me do brilhante pronunciamento de Barack Obama certa vez, quando disse que, aos olhos do não religioso, o gesto de Abrãao não era demonstração de fé, mas iminência de incorrer em prática de assassinato, e por isso deveria ser contido. Em que área pode se imiscuir o religioso a partir exclusivamente de sua verdade proveniente de fé? Deveria legislar sobre biologia (e dizer que o mundo tem 6 mil anos ou o aborto proibido porque é pecado?), história (e alegar que o Estado de Israel pertence aos judeus), política (e defender intervenções militares na base do mandato divino?)?

            A menos que possa ser sustentado publicamente, em uma arena que congregue o que todos têm em comum, e aí estamos falando de razão e não de fé, o argumento do religioso deve permanecer válido unicamente para si. E, mesmo nesse caso, seu limite é aquele permitido pelas leis civis (WASP’s racistas devem restringir seu racismo aos pronunciamentos feitos à mesa de suas casas e não da porta de casa para fora). Parece-me que o próprio Habermas, um tanto contraditoriamente, chega a conclusão parecida: “Uma cultura política liberal pode até esperar dos cidadãos secularizados que participem de esforços de traduzir as contribuições relevantes em linguagem religiosa para uma linguagem que seja acessível publicamente”.

            Essa fala parece mais sensata que a primeira. Ela reconhece que a linguagem religiosa pode trazer contribuições gerais, não apenas aos fiéis de determinada religião. Mas vê a necessidade de tradução dessa contribuição para uma linguagem “acessível publicamente”. Ora, o próprio Habermas, não sei se a contragosto ou por conta da tradução do texto para o português – que é ruim – admite que a linguagem estritamente religiosa não é acessível ao público em geral. Ela deve se constituir em argumento público na medida em que passe por uma tradução: de linguagem originada, inspirada ou criada em instância de fé, para linguagem acessível em uma instância racional.

            Sem essa tradução, continuaremos a ver religiosos, às vezes com boas ideias (embora cada vez menos), tornando-as inválidas por não estarem dispostos a traduzi-las em termos racionais, logo universais. Ou, em um cenário pior, tentando fazer com que os não religiosos engulam à força suas mal-disfarçadas convicções de fé.  

 

               



Escrito por Leandro T. Almeida às 22:15:59
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