A crítica autêntica não destrói a fé e a fé autêntica não impede a crítica. Hans Küng


De por que os que se dizem não se conformar com este século estão, felizmente, conformados a ele

É praxe no meio cristão evangélico evocar Romanos 12 para se defender a ideia de que o cristão deve ser contracultural, avesso ao espírito da época, contestador do curso do mundo. Normalmente, esse discurso quer criticar padrões sexuais, linguísticos, epistemológicos diferentes dos considerados adequados aos cristãos. Não seria difícil mostrar que o recorte distintivo entre o permitido e o proibido é, na verdade, bastante contido, posto que pouco eficiente para propor alguma prática distinta dos não cristãos que se possa considerar significativa. Que se pense, por exemplo, em uma marca típica “deste século”, que é o fascínio exercido pelas mercadorias capazes de atribuir prestígio ou distinção aos consumidores que as possuem (cristãos têm tanto desejo por essas mercadorias quanto não cristãos – basta olhar os carros dos crentes abastados).

O que me parece digno de nota, no entanto, é o fato de que uma espiada na História vai mostrar que o discurso evangélico, por mais apelo que encontre intramuros, não se sustenta. E acho que essa “insustentabilidade” é extremamente benéfica à sociedade como um todo. Observe-se, por exemplo, o espírito da época vigente no século XVI, o mesmo que viu nascer o único santo reformado, João Calvino. Fazia parte desse espírito acusar alguém de heresia e poder, no limite, queimá-lo por causa dela. O fato de que tenha havido oposição a essas mortes não anula o fato de que esses acontecimentos não eram impensáveis na cultura do período. Aliás, a contracultura, lá e então, estava visível justamente em quem se opunha às condenações. A ortodoxia estava em paz com elas, mesmo porque era delas promotora.

Os tempos, felizmente, mudaram. A duras penas estamos aperfeiçoando Democracias. Falamos em Declaração Universal dos Direitos do Homem. É parte do espírito da época atual a luta por respeito às minorias. Soa absurdo, na grande maioria dos países do planeta, que alguém seja queimado vivo por não mostrar concordância com um corpo doutrinário.

A que espírito de época seguem, portanto, os evangélicos? Vou afunilar um pouco o grupo, apenas para tentar ser justo com os poucos evangélicos que impedem a generalização e a redundância: a que espírito de época seguem os fundamentalistas cristãos? Caso não fossem impedidos pelo espírito “deste século”, patrocinariam autos-de-fé em nome da ortodoxia; aprisionariam os discordantes; impediriam todos os avanços que as mulheres conseguiram em décadas recentes; sabe-se lá que atitudes tomariam para impedir que homossexuais vissem seus direitos atendidos.

 

Por isso é possível dizer que os evangélicos seguem, felizmente, o espírito da época. É ele, com maior ou menor anuência de sua disposição íntima, que impede que sua fé determine os artigos da constituição; é ele que obriga a uma tolerância capaz de preservar a existência de outras religiões; é ele que promove uma diversidade de manifestações humanas que seria duramente reprimida caso os evangélicos tivessem livre curso para impor sua agenda. Podemos dizer, então, em uma fórmula: os fundamentalistas só não são pessoas piores porque o espírito da época impede que isso aconteça.



Escrito por Leandro T. Almeida às 21:21:57
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