A crítica autêntica não destrói a fé e a fé autêntica não impede a crítica. Hans Küng


Doloroso, mas necessário

 

            No início de La subversion du christianisme, Jacques Ellul expõe o problema principal que seu belo livro procurará abordar: “como o desenvolvimento da sociedade cristã e da Igreja tenha dado origem a uma sociedade, a uma civilização, a uma cultura em tudo inversas em relação àquilo que se lê na Bíblia”. E “Bíblia”, ele acrescenta, é sinônimo de “Torá, profetas, Jesus e Paulo”. A partir da colocação do problema, Ellul se encarregará de mostrar o que, em sua opinião, foi o responsável pela “subversão” que teria se alastrado por todo o cristianismo, de maneira que ele não é o que deveria ser.

            Essa proposta argumentativa é bem conhecida. Ela está presente, por exemplo, em Andrés Torres Queiruga e na prática dominical de todos os cristãos que acreditam que a fé cristã deveria fomentar posturas mais abertas à alteridade, mais preocupadas com a justiça social, mais aptas à liberdade de pensamento. O argumento pode ser resumido, de certa forma, na afirmação (acho que) de Chesterton: “o cristianismo não fracassou; ele sequer foi tentado”.

            Conquanto eu compreenda a boa intenção presente nesses argumentos e considere as consequências psicológicas deles muito melhores que os posicionamentos contrários (visíveis, por exemplo, nos fundamentalistas estadunidenses), não acredito que seja uma postura que deva ser mantida. Trata-se, a meu ver, de tapar os olhos para a História, recusando-se a enxergar o que ela mostra sobejamente e colocar, em seu lugar, um desejo eticamente motivado. Esse “desejo ético” é o que almeja associar o cristianismo ao que de melhor pudemos alcançar em termos de leis, hábitos e gestos que expressaram e expressam respeito à dignidade da vida humana, como se ele fosse a origem de tudo isso.

            Em uma palestra em que abordava o processo supostamente revolucionário nos Estados Unidos, o qual teria dado origem a uma sociedade dita liberal, o historiador Domenico Losurdo ofereceu um bom exemplo para o que está em questão nas palavras acima. Ele mostrou o quanto foram os cristãos os principais responsáveis pelo fim do regime de escravidão então em vigor. Todos os cristãos?, pude perguntar ao fim da palestra. Não, apenas uma parte deles, respondeu Losurdo.

            A partir do exemplo acima, diria que a estratégia de Ellul é a que se vê na tarefa de defender a ideia de que cristãos autênticos foram, somente, os que lutaram pela libertação dos negros, e não os donos de escravos. Propõem-se, assim, os mais variados subterfúgios interpretativos para tentar mostrar que a Bíblia não dá margem à posição escravocrata; todos os que teriam se baseado na Bíblia para defender a escravidão – e de fato o fizeram – estariam equivocados.

            Nesse momento sou obrigado a concordar com o professor Osvaldo Luis Ribeiro. Quem quiser defender, atualmente, o direito das mulheres, dos negros, dos homossexuais, não deveria se amparar na Bíblia, porque há muitos textos bíblicos que podem apoiar posturas contrárias a essa defesa. A Bíblia tem, sim, textos machistas, homofóbicos, discriminatórios (se não contra negros, contra palestinos, por exemplo, outra tradução possível para “filisteus”).

            Diante dessa sugestão, muitos alegarão, no entanto, que Jesus é o critério hermenêutico que julga todos os textos e permite que a Bíblia continue sendo a base da ética (Queiruga, por exemplo). Conquanto eu considere que, de fato, as páginas dos Evangelhos realmente contêm exemplos, digamos, “contraculturais” bastante aptos a uma ética do mais alto nível, é preciso lembrar que o mesmo Jesus dividiu a humanidade entre ovelhas e cabritos e disse claramente que quem não estivesse a seu lado seria, no final das contas, condenado. Os ditos atribuídos a Jesus também podem servir de base para atitudes eticamente questionáveis.

Portanto, cristãos movidos por esse “desejo ético” deveriam dar o passo doloroso, mas necessário, de reconhecer que são movidos não pela Bíblia, mas, no máximo, por uma leitura da Bíblia que deseja estar à altura do que alcançamos em termos de ética, uma ética humana, não divina (a qual, se existe, não está disponível ao nosso alcance). Por que então não ficar logo com a ética e afirmar claramente que ela julga nossa leitura da Bíblia?

            Em um post já antigo desde blog (15/12/2009) isso que digo acima já foi, de certo modo, defendido. Na ocasião, motivado justamente por um diálogo com um defensor da ideia de que a Bíblia não era machista, escrevi que não nos cabia ficar em disputa pela definição do que “Deus pensava” sobre casos particulares como o das mulheres, dos homossexuais, das minorias, se ele é de direita ou de esquerda etc, mas que deveríamos nos preocupar em compreender quais atitudes seriam mais próximas do que entendemos pela manifestação concreta do amor.

            Passado algum tempo, continuo achando a mesma coisa, mas agora de maneira mais clara e mais, talvez possa dizer, radical (e daí também as diferenças entre as ideias de hoje e as de então perceptíveis no post). É inócuo defender que o cristianismo é bom ou mal, machista ou não, liberal ou conservador a partir de textos bíblicos. A Bíblia tem textos para servir a qualquer gosto. O cristianismo pode ser tudo isso porque os homens podem ser tudo isso, os mesmos que lutam para definir sua visão como autenticamente cristã. Deveríamos, portanto, colocarmo-nos acima dessa disputa, reconhecer que o embate se dá no plano ético e julgarmos, a partir dele, os modos de manifestação da fé cristã.



Escrito por Leandro T. Almeida às 22:15:27
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