A crítica autêntica não destrói a fé e a fé autêntica não impede a crítica. Hans Küng


Um caso interessante de anacronismo

 

          No início de seu “Le problème de l’incroyance au XVI siècle” [O problema da incredulidade no século XVI], Lucien Febvre chama o anacronismo de “pecado irremissível”. Anacronismo: projeção, no passado, das ideias do presente; julgamento, do passado, a partir dos critérios do presente; expectativa de que o passado corresponda, mentalmente, epistemologicamente, eticamente, aos nossos parâmetros mentais, epistemológicos, éticos... Febvre, enquanto historiador, parece se dirigir mais especificamente a historiadores. Mas não seria demais que a rejeição desse “pecado irremissível” fizesse parte de nossa atitude frente aos elementos do passado.

            O preâmbulo acima serve para comentar um texto do Ricardo Gondim a mim repassado pelo irmão camarada André Carreiro, “Os venerandos da teologia falaram bobagem”. Em seu curto artigo, Gondim põe em prática o anacronismo rejeitado por Febvre. Para o historiador francês, autor também de “Martinho Lutero: um destino”, ainda que não cheguemos a saber com maior precisão como, por exemplo, os homens do XVI leram determinadas obras, podemos chegar com maior precisão a dizer como eles não leram. Em seu artigo, Gondim defende a ideia de que Agostinho, Lutero e Calvino falaram bobagens quando, em alguns de seus textos, apelaram à astrologia (Agostinho), ou fizeram uma diferenciação entre astrologia “natural” e “bastarda” (Calvino) e parecem ter aderido a crendices populares, ou ao que hoje dizemos que são crendices (Lutero). A partir disso, Gondim chega a uma advertência aos “austeros defensores da sã doutrina” atuais, a de que devem perceber que esses vultos teológicos “também falaram tolices”.

            Por que o texto de Gondim peca por anacronismo? Porque lança aos séculos IV e XVI um julgamento próprio do século XXI. Ora, quando Agostinho, Lutero e Calvino se pronunciaram sobre esses temas, não falaram tolices, simplesmente porque em sua época tais coisas não eram “tolices”, mas possibilidades epistemológicas disponíveis e levadas a sério. Podiam, como indica Calvino, ser combatidas, não propriamente como algo “tolo”, mas talvez falso, pernicioso, maligno etc. A maneira como Agostinho e Calvino lidaram com a astrologia e como Lutero parece ter encampado crenças populares fazia parte, para usar uma expressão de Peter Berger, das “estruturas de plausibilidade” de seu tempo (antes que se diga que o termo é anacrônico, cumpre dizer que, de fato, ele não foi cunhado no passado, mas pode ser tomado como ferramenta para compreendê-lo, atitude diferente do julgamento do passado a partir de um critério de valor do presente). Teria Gondim tomado outro tipo de fala como exemplo – algo como “o mal é ausência de bem”? Certamente não, porque essa fala estaria mais concorde com seu pensamento teológico. “Tolice”, assim, é, no fim das contas, o que seu critério teológico – ou epistemológico, vá lá – rejeita.

            Quer dizer então que, nesse sentido, o passado não é criticável? Sim, pode ser. Mas, para que a crítica tenha valor, é preciso recuperar, tanto quanto possível, as “estruturas de plausibilidade” dele, para julgá-lo dentro do sistema valorativo (ou cultural, científico, epistemológico etc) em que o que está em vista é criticado. É assim que uma crítica à dominação espanhola contra os indígenas americanos se reveste de maior valor quando feita a partir da argumentação de Bartolomeu de Las Casas, frade dominicano contrário à dominação indígena por parte dos católicos espanhóis que primeiro catequizaram a América. No mesmo sentido, Dietrich Bonhoeffer traz um elemento de crítica dos mais incisivos contra a passividade da Igreja Luterana diante do crescente nacional-socialismo na Alemanha nazista. Finalmente, Sébastien Castellion invalida a tese de que Calvino não pode ser criticado pela condenação de Servetus à morte porque “fazia parte de seu tempo” condenar a heresia com a fogueira. Ao criticar Calvino, Castellion oferece os parâmetros de uma crítica não anacrônica.


            Se há que se criticar Agostinho, Lutero e Calvino – e acho que devemos fazê-lo, caso contrário estamos fadados a repeti-los – deve-se procurar perceber o sentido de suas palavras no ambiente em que foram proferidas; mas não tomar um ou outro elemento, que, por esdrúxulo que nos pareça hoje, torne-se uma excrescência a ser julgada pelos nossos padrões epistêmicos. 



Escrito por Leandro T. Almeida às 17:14:41
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