A crítica autêntica não destroi a fé e a fé autêntica não impede a crítica. Hans Küng


Segunda-feira , 23 de Janeiro de 2012


 

A terrível democracia doutrinária

 

                Foi nesses termos que uma dessas revistinhas de Escola Dominical se expressou ao falar do que considera ser um dos grandes males da igreja atualmente. Na sua visão, permitir que cada pessoa tenha uma leitura própria das Escrituras é um perigo a ser combatido, uma prática a ser sanada em nome da preservação da verdade única e irrefutável, a verdade expressa nos símbolos de fé adotados por essa mesma igreja.

                Alguém já disse que onde se queimam livros, em breve se queimarão homens. Todo o poder (não apenas eclesiástico) seja concedido a quem considera que a democracia possa ser algo terrível e não demorará para que a instauração do totalitarismo esteja em vias de se realizar. Totalitarismo, aliás, é o que defende quem nega a democracia: as pessoas não têm a permissão para o livre pensamento, não podem expressar o que de fato defendem suas consciências, não podem discordar do que já está estabelecido. Esse é o resultado de 500 anos de Reforma Protestante, erigida, dentre outros, sob o pilar do livre exame das Escrituras. Nem Sócrates pensaria em tal ironia.

                A contramão da História não poderia ser mais evidente: num momento em que as minorias não se deixam mais esmagar pelo silêncio a elas imposto, em que países árabes antes fadados ao peso da mão de ditadores clamam por libertação, em que pobres saem às ruas para lutar até o sangue pela preservação de direitos básicos, momento em que, em suma, está cada mais difícil para que as desigualdades e opressões sejam mantidas como se fossem coisas naturais, os presbiterianos se reúnem aos domingos pela manhã e ouvem falar do quão terrível é a democracia (doutrinária). Coloco entre parênteses a especificidade dessa democracia porque a questão, conquanto possa inicialmente parecer somente doutrinária (e isso já não é pouco), na verdade se relaciona a qualquer tipo de democracia verdadeira. Difícil errar o lado que a igreja tomaria levando-se em consideração um hipotético prognóstico de instauração de uma nova ditadura militar no Brasil em nome da família, da moral e do combate à corrupção: ela a apoiaria sem qualquer hesitação.

                Na base da condenação da democracia doutrinária está a condenação da livre expressão de ideias. A partir de autores como Habermas e Rorty, no entanto, percebemos que o que de melhor se pode almejar na atual situação histórica é que todos sejam livres para expressar suas opiniões e que acordos de boa convivência sejam feitos nessa base, sem coerções, sem ameaças. Ganha quem tiver o melhor argumento. Essa “utopia” poderia estar na base do estabelecimento do modo de ser das igrejas cristãs: espaços de livre pensamento em que as pessoas se associam ao qual considerarem melhor. Não aceita isso quem, (1) considera-se proprietário de uma verdade que os outros não possuem e não podem alcançar por si mesmos, (2) insiste em impor sobre os outros sua verdade, mormente considerando-a a única existente, (3) não acredita na capacidade dos demais, considerando-os como sempre carentes de um guia que impeça seus desvios. Um pastor que lança mão de uma lição medíocre como a dessa revistinha com que tive contato normalmente preencherá os três requisitos acima. Um quarto requisito ainda pode ser acrescentado como adendo: (4) esse pastor usará do poder de que dispõe para compensar sua pobreza intelectual e humana e poder, assim, exercer, sub-repticiamente, uma coerção que garanta a adesão dos fieis.

                Certa vez, na igreja, expus um pensamento que contou com algumas prontas discordâncias por parte do auditório. Não os convenci com meus argumentos. Nenhuma crise, contudo, foi instalada. A amizade continuou a mesma. Sentamos e comemos à mesma mesa. Esse é o terror da democracia doutrinária?     

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 10:17:46
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Terça-feira , 13 de Dezembro de 2011


Quem tem razão?

 

            É de uma força avassaladora o episódio do Grande Inquisidor, em Os irmãos Karamazov, do escritor russo Dostoievski. Lembro-me – ainda que sem poder conferir as minúcias do relato, posto que não tenho o romance em mãos – da ameaça que a figura do Cristo significa às pretensões do inquisidor de manter, pela via da supressão da liberdade, o poder sobre a multidão de fieis. Alega o sacerdote que o Cristo estragaria todo o edifício construído durante séculos, responsável por aliviar os ombros dos homens desobrigando-os do fardo da liberdade, oferecendo, dessa forma, uma via mais fácil e atraente de vida, pautada pela obediência cega ao sistema de pensamento eclesiástico. Deixar os homens à mercê de suas próprias escolhas livres, alega o inquisidor, seria obrigá-los a seguir um caminho insuportável, que faria da pregação do Cristo um retumbante fracasso. A Igreja, assim, teria sido responsável por uma obra monumental prontamente ameaçada pela aparição repentina do Cristo em pleno século de fogueiras acesas – Os irmãos Karamazov oferece uma espécie de “mise en abime” que imagina o encontro entre o Cordeiro e o Sacerdote lá pelo século XVI. O romance de Dostoievski apresenta, assim, uma visão da fé cristã das mais significativas. Seguir a Cristo seria assumir os riscos da liberdade, uma vez que esse seguimento abdica das certezas, seguranças e previsões advindas do tripé milagre, mistério e autoridade (agora subordinado à administração da Igreja), e faz com que cada um assuma as responsabilidades pelas próprias escolhas. A Igreja amenizaria deveras esse caminho, monopolizando a liberdade dos homens, dando-lhes em troca o conforto da certeza, da verdade, da garantia proporcionada pelo controle desse mesmo tripé (“para dispor da liberdade dos homens, é necessário dar-lhes a paz da consciência”).

            Um grande fã de Dostoievski, no entanto, tem uma visão bastante distinta dessa mesma fé cristã. Nietzsche chamará os cristãos de “burros de carga”, fracos que travestem seu ressentimento em forma de conceitos morais que impedem a predominância dos espíritos livres. O cristianismo, esse “platonismo para os pobres”, seria o discurso daqueles que aspiram ao que não podem alcançar e se ressentem pelos que alcançam uma vida mais plena, realizada, livre. A fé, assim, é coisa de fracos e espíritos frouxos. O apóstolo Paulo teria traído o ideal do Cristo (“o único cristão verdadeiro que já existiu morreu na cruz”), subvertendo-o a partir de uma série de regras amparadoras de discursos castradores do potencial humano.

            Quem, pois, tem razão, Dostoievski ou Nietzsche?

            Acho que os dois. Cada um parece olhar a fé cristã por um viés distinto. Dostoievski foca na mensagem do Cristo, em seu chamado ao discipulado que é convite à liberdade, sem legalismos, métodos, garantias, tem em vista seu chamado radical ao amor, à gratuidade da aceitação incondicional. A partir dessa perspectiva, a fé cristã não é mesmo para os fracos. Mas é essencial lembrar, aqui, que fracos são aqueles que precisam justamente de um amparo, seja ele metafísico, doutrinário, eclesiástico, aqueles que, na carta aos Romanos, serão os que comem somente legumes e fazem distinção entre dia e dia. Nietzsche, por sua vez, parece não ter sido capaz de abstrair a fé cristã de sua manifestação institucional – e não acho que deva ser excessivamente criticado por isso. A partir do discurso eclesiástico, alegadamente baseado nas palavras do Cristo, a fé não passa muito mesmo de uma “muleta” para viver a vida, sempre carente de uma intervenção milagrosa, sempre pretendente a uma verdade definitiva, sempre defensora dos mais canhestros moralismos. A partir desta perspectiva, as críticas do filósofo alemão não só não devem ser menosprezadas – como sói acontecer entre os cristãos – como devem ser percebidas como uma contribuição profética contra os piores momentos do cristianismo eclesiástico.

            Menos mal, portanto, que ambos tenham razão. Não seria muito alentador perder a companhia de Dostoievski ou Nietzsche na caminhada.      

Escrito por Leandro T. Almeida às 16:17:23
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Sexta-feira , 04 de Novembro de 2011


Da subversão à manutenção

 

Então é preciso que o cristianismo, que conheceu começos incrivelmente revolucionários, seja em nosso tempo tão conservador?

Dietrich Bonhoeffer

 

            O tempo exerce uma ação implacável sobre o dinamismo das ideias libertárias. Inicialmente elaboradas em um sentido crítico e com alto poder subversivo, não é raro que as gerações subsequentes já as empreguem para impedir o fluxo das mudanças por elas próprias sugerido. Quando, por exemplo, o apóstolo Paulo elabora o conceito de predestinação em sua carta aos Romanos, tem em vista solapar a jactância judaica do “povo eleito”, a arrogância do “povo escolhido de Deus”. A predestinação, assim, deslegitima o discurso religioso típico, que advoga a posse exclusiva da divindade. Os que se orgulham de sua origem étnica, geográfica, religiosa e política devem saber que não há critério capaz de constranger a Deus, pois seu povo foi constituído antes da fundação do mundo. Na elaboração calvinista, no entanto, a predestinação é posta a serviço exatamente daquilo que procurou combater. O mesmo discurso a respeito da exclusividade muda apenas de endereço: seus portadores não são mais os judeus, mas os reformados. Continuam a existir os “escolhidos” e os “preteridos”, os “eleitos” e os “rejeitados”. A “doutrina” da predestinação sedimenta o caminho para a distinção em bases religiosas que a ideia de predestinação almejava solapar.

            Na ante-reforma calvinista, Wyclif, professor em Oxford, pensou de forma mais detida o conceito de “igreja invisível”, que, se tomado em relação ao contexto em que foi elaborado, é de uma força subversiva impressionante, pois sugere que a Igreja Católica não detém o monopólio da legitimidade, podendo haver igreja onde não há catolicismo e existir catolicismo onde não há igreja. Não é à toa que John Huss será condenado à morte por defender, dentre outras ideias, a da existência da “igreja invisível”: ela cria uma cisão entre igreja-instituição e igreja-povo de Deus que não existia sob os auspícios da divisa “fora da igreja não há salvação”. Atualmente, no entanto, qual o poder crítico contido no conceito? Ele é mais do que uma doutrina estéril, defendida por essa mesma instituição que, em certo sentido, era seu alvo inicial? Hoje em dia, aliás, os critérios de julgamento da igreja visível mostram que a igreja invisível lhe é subordinada: esta só terá sua existência reconhecida se cumprir as expectativas mensuráveis proporcionadas por aquela.

            O próprio movimento da Reforma Protestante, que pregou o livre exame das Escrituras, logo se encarregaria de punir, até mesmo com a morte, os acusados de heresia que não fizeram outra coisa senão pôr em prática o princípio reformado do livre exame das Escrituras... O dado apontado por Richard Niehbur em seu belo livro “A origem social das denominações cristãs”, de que terceiras e quartas gerações apresentam sinais claros de enrijecimento se comparadas com as primeiras gerações que deram origem a movimentos dinâmicos e ações contestadoras, parece ser uma constante na história do cristianismo.

            O fator complicador é que é muito difícil imaginar um seguimento do “movimento de Jesus” que não acabe por se institucionalizar. Daí, portanto, a necessidade de que as instituições erigidas sob o signo do Cristo tomem medidas claras que dificultem essa tendência ao conformismo e consequente abrandamento da chama inicial que as originou. Talvez pudéssemos chamar essas medidas de “mecanismos de preservação” (não confundir com “mecanismos de auto-preservação”!). Seriam leis, ordens, formas organizacionais que existiriam para tentar preservar o espírito crítico presente no Evangelho, que dificultariam o enrijecimento da mensagem quando associada à mera reprodução da tradição, que procurariam não apenas proteger mas também fomentar pensamentos que estivessem dispostos a atualizar a mensagem evangélica para as mutáveis realidades das culturas humanas, sempre vivas e dinâmicas. Um desses “mecanismos de preservação” poderia ser a adoção de não apenas uma, mas várias confissões de fé, passíveis de discussão, aptas a abrigar proposições paradoxais entre si, como se vê, aliás, na própria Bíblia, o que facilitaria a convivência mútua entre opiniões teológicas divergentes, condição indispensável para o amadurecimento constante de instituições que se querem cristãs. Outro desses “mecanismos” poderia ser a elaboração de uma lei que garantisse, nos órgãos de informação da instituição, a presença de colunistas, apresentadores, palestrantes de variadas opiniões teológicas, para que a identidade dela fosse marcada justamente pela pluralidade, tolerância, convivência mútua e harmônica entre os diferentes (que se lembre do que já disse Gianni Vattimo: “Não digamos que entramos de acordo quando encontramos a verdade, mas que encontramos a verdade quando entramos em acordo”). A “verdade” da instituição não seria prioritariamente proposicional, mas existencial ou vivencial (como indubitavelmente aparece na Bíblia). Tais medidas não garantiriam uma paridade total entre a instituição e a radicalidade da mensagem de Jesus, e nem esse é o alvo a ser buscado, porque a mensagem deve ser encarnada por pessoas, não instituições. Mas seria muito melhor que tais pessoas pudessem encontrar nelas um amparo para sua militância. Se tal instituição não pode existir porque as medidas sugeridas significariam sua própria destruição, que ao menos não arrogue para si o nome de Cristo.       

 

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 18:25:31
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Segunda-feira , 10 de Outubro de 2011


 

“Liberalismo”, coveiro de igrejas?

 

            É praxe entre os conservadores afirmar que as igrejas evangélicas na Europa foram arrasadas pelo advento do liberalismo teológico. Mas uma simples observação no cenário evangélico europeu lança dúvidas sobre essa afirmação. Visitei algumas igrejas evangélicas em Paris. A maior delas tinha um culto mais avivado, conquanto não pentecostal, e a menor um culto mais tradicional, de grande simplicidade. Também visitei uma que inovou, ao menos nesse dia, na prática da pregação, dividindo entre os membros várias trechos da mensagem, e uma outra bastante tradicional, no famoso bairro do Marais, cujo templo, aliás, é ponto turístico. Em todas elas, em que pesem as diferenças litúrgicas, um ponto em comum: uma teologia que não chega sequer perto do que os conservadores consideram ser o liberalismo teológico (apenas um parêntese: “liberalismo”, para os conservadores, é tudo o que foi dito pela teologia reformada no século XX – grande parte em tom de crítica ao liberalismo teológico clássico – que não está de acordo com sua opinião). Assim como na igreja evangélica que visitei em Estocolmo, a teologia pregada nesses cultos mostrou uma leitura literal da Bíblia, a firme crença na intervenção de Deus evidenciada nos pedidos de oração, defesa do dízimo como prática bíblica e todas essas práticas e ideias que não são em nada diferentes do que pode ser visto nas igrejas tradicionais brasileiras. Numa delas, inclusive, perguntei se eles liam todas as narrativas do AT de maneira literal. O pregador, um tanto quanto assustado, respondeu sem pestanejar que sim, e que “quem não lia assim não conhecia ao Senhor”. Ah sim: essas opiniões todas são subscritas pelo Xavier, missionário “independente” francês que aborda pessoas na rua propondo um estudo da Bíblia em grupo. Um desses grupos foi constituído por ele e... eu. Por que o conservadorismo do Xavier não atrai os franceses?   

            Portanto, a partir desse cenário surgem algumas perguntas: se o liberalismo teológico foi o responsável pela morte das igrejas evangélicas na Europa, como se explica que não haja sequer resquício dele nessas mesmas igrejas atualmente? A resposta pode ser que ele chegou “tão de repente, com seu jeito de sempre chegar” e fez um estrago tão grande que não restou ninguém pra contar história. Muito bem, mas nesse caso outra pergunta pode ser feita: se as igrejas com teologia tradicional reocuparam seu espaço após a vaga liberal, o que explica seu fraquíssimo apelo junto às sociedades europeias? Se o problema era o liberalismo, porque seu substituto não corrigiu o problema? Outra questão: se o liberalismo afastou as pessoas das igrejas, por que muitas dessas pessoas justificam seu afastamento apontando para os aspectos mais conservadores delas, tão perceptíveis na leitura literal da Bíblia e nas posturas tradicionalistas, quando não retrógradas e reacionárias, em matéria de moralidade? Você já ouviu alguém dizer que não vai à igreja por causa da concepção barthiana da Palavra de Deus, do método da correlação de Paul Tillich ou do cristianismo não-religioso de Dietrich Bonhoeffer? Dificilmente, por um motivo simples: essa teologia dita liberal não chegou às igrejas. Ela pode ter chegado às salas de aula de seminários, mas não passou daí para os púlpitos dominicais. Meus amigos de adolescência e juventude que hoje não estão na igreja saíram dela achando que a serpente não rastejava antes da queda...

            Há, portanto, uma pergunta mais importante a ser feita: tivesse a teologia de homens como Barth, Brunner, Tillich, Bonhoeffer, Pannemberg, Metz, Moltmann etc tomado as igrejas reformadas, ainda assim contemplaríamos o cenário atual das igrejas evangélicas europeias? Não tenho a resposta, desconfio de que pior que está não estaria, mas intuo que as coisas seriam bem melhores, baseado em alguns indícios: a teologia por eles esposada, em que pese suas diferenças, foram esforços para responder às perguntas do homem contemporâneo; ela trata com seriedade e não apenas na base da condenação inapelável as mudanças culturais trazidas pela modernidade; e não se aferra a moralismos estreitos que andam de mãos dadas com posturas políticas elitistas. Assim, se a queixa de muitos “desigrejados” tem a ver com discursos que julgam totalmente ultrapassados, com vigilância moral que ameaça sua liberdade de escolha e com a conivência das igrejas na manutenção do status quo, não poderíamos pensar que as coisas seriam diferentes se essas mesmas igrejas estivessem na vanguarda da sociedade e não sendo a âncora que impede tantas mudanças necessárias nela? 

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 16:06:44
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Domingo , 25 de Setembro de 2011


 

Na era da gestão II

 

          Certa vez um presbítero me disse que o que mais esperava de um pastor é que ele fosse um “empreendedor”. Essa expectativa se coaduna bem com certa mentalidade que parece estar conquistando cada vez mais os estudantes de teologia, e que aproxima cada vez mais o pastor de um papel em evidência na sociedade contemporânea, a do “gestor”. O problema é que ao incorporar termos como “gestão” e “empreendedorismo” em seu vocabulário, muitas pessoas estão fazendo mais do que utilizar palavras da moda: estão lançando sobre o pastor da igreja, e esses sobre si mesmos, as mesmas expectativas que têm sobre diretores e gerentes do mundo corporativo.

          Há todo um contexto que ajuda a compreender o que se passa. Fica evidente, por exemplo, que a tendência tecnicista e mercadológica da sociedade contemporânea penetrou sem muita resistência no meio eclesiástico. Se tudo na sociedade é medido em termos de desempenho, por que só a igreja se livraria desse “fardo”? Se o que se espera dos profissionais é que saibam executar bem seus serviços sem necessariamente ter uma consciência reflexiva a respeito do seu significado na vida social, por que pastores estariam livres dessa mesma cobrança? Se cada vez mais as pessoas se lançam como mercadoria esperando serem valorizadas como uma espécie de “melhor produto” disponível no mercado (que se pense no título de uma revista: “Você S/A”), qual a motivação para que a igreja se livre de semelhante comportamento? A resposta a essas questões aponta para um estudo detido sobre o ideal cristão que deve ser vivenciado em uma comunidade de fé. Não é o que se pretende fazer aqui. Lanço, antes, a seguinte hipótese: em que pese o fato de que o pastor sofra atualmente uma pressão gigantesca baseada sobretudo em desempenho, acredito que ele mesmo tem grande responsabilidade na configuração desse cenário. Ainda que incorrendo em aspectos que demandariam um aprofundamento maior, assumo a simplificação própria desse espaço e sugiro alguns pontos que devem no mínimo suscitar a reflexão de quem acompanha estas mal-traçadas. Essa responsabilidade do pastor se baseia nos seguintes aspectos:

 

- ele reforça o estereótipo de ser um ser humano diferenciado, capaz portanto, em certo sentido, de atender a demandas inumanas. Desde a roupa que usa no domingo (cujo exemplo emblemático são as togas utilizadas na Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro, que exercem sobre os membros um efeito psicológico significativo, mas numa direção que só faz reforçar a ideia de um típico sacerdote ocupando o lugar de intermediário entre Deus e os homens, mas que também pode ser visto no terno em um ambiente em que somente o pastor o veste), até a forma de falar (como um que, no púlpito, fala “cousa” e não “coisa”) e o tratamento que espera receber das pessoas (“reverendo”), o pastor alimenta o estereótipo de ser um tipo diferente de gente. Suas orações são triunfalistas, sua pregação imagina um mundo em que a pior tragédia tem sentido, seu ritmo de vida é régua que mede o das demais pessoas. Enquanto a maioria delas enfrenta o dia a dia pesado do trabalho, o pastor se fecha em uma redoma de vidro e, dali de dentro, cobra das demais como se todas tivessem as mesmas facilidades que ele – daí sua prontidão para reclamar dos que se ausentam das programações semanais da igreja;

- na busca por esses congressos de “revitalização” de igreja, que reforçam a ideia de que não só presbíteros veem o pastor como gestor: o próprio pastor comprou essa ideia. A marca dessas “revitalizações” se encontra em propostas de mudanças formais, seja em relação à organização da igreja, à liturgia posta em prática e, quando muito, à linguagem utilizada na mensagem. Em outras palavras: o próprio pastor não entende que precisa de atualização teológica, só funcional. Pode parecer que o quadro aqui pintado é exagerado, mas ele se ampara em evidências: congressos de “revitalização” estão em alta e congressos de teologia frequentados pela maioria dos pastores são uma oportunidade para ouvir de pessoas de renome tudo aquilo que já se diz desde pelo menos o século XVII (não espanta, portanto, que um congresso “heterodoxo” como um “Theologando” receba muito menos inscrições que um nos moldes da “Conferência Fiel para pastores e líderes”, de ortodoxia inquestionável);

- num aspecto perceptível a partir de simples observação: muitos pastores são preguiçosos intelectualmente. Você ouve um sermão atrás do outro e o que muda é a entonação de voz, uma ou outra ilustração, um pouco mais ou um pouco menos de ousadia na aplicação de uma mensagem, mas você se convence de que o que está ouvindo é a concepção de um cristianismo domesticado, que reforça a apreensão da fé cristã como a melhor das religiões existentes, mas ainda como mera religião, sem falar de que o substrato que dá sentido a tudo não muda: você está na terra por um período de provas que determinará se seu destino final é o céu ou o inferno. É muito pouco convincente a ligação entre a mensagem de Jesus, que em certo sentido é uma violência, e em sentido específico uma violência contra essa sensaboria anestesiante que se propicia sob a tutela de uma religião, e aquilo que se ouve comumente na boca de ministros evangélicos. O que faço aqui é uma drástica redução, que, no entanto, é o que ampara o discurso predominante.

 

Nesse estado de coisas, pastores estão se tornando reféns de conselhos de igreja. Com poucas exceções, eles são uma massa homogênea a partir da qual tanto faz ter esse quanto aquele em termos de aprendizado. Se o que dizem é quase sempre a mesma coisa, o destaque será dado ao que produzem em termos quantificáveis. Aí se justifica tanto a cobrança em termos de gestão (vai se observar a organização da agenda, o estilo litúrgico, a promoção e condução dos eventos) quanto de desempenho (se ele não se faz perceber pelo que diz, terá que fazê-lo pelo que gera em termos de número de pessoas agregadas e dinheiro arrecadado). Como seu discurso é esse enfadonho-senso-comum-reproduzido-ano-após-ano-domingo-após-domingo e ele não vê nada de errado nisso, o pastor se lança na busca por “relevância” atrás do que pode ser mostrado em termos quantificáveis, “relatorizáveis”. Assim, o círculo vicioso está instaurado, porque não é estudando teologia, mas lançando mão de “estratégias” e “revitalizações” que o pastor alcançará mais rapidamente as metas pelas quais é cobrado. Vai reclamar de quê?

       Por tudo isso, acredito que algumas atitudes são urgentes. Os pastores devem ousar mais. Ler mais, estudar mais, não se acomodar em meramente reproduzir esse estado de coisas. Jogar fora sua revistinha de Escola Dominical e preparar suas próprias aulas. Ler autores que questionam, não os que meramente confirmam concepções já existentes. Assumir o papel de despertar as pessoas para a radicalidade do seguir a Cristo. Essas atitudes podem atrair a antipatia de muitos, mas marcará indelevelmente a vida dos que estarão dispostos a abrir mão das certezas e confortos da vida religiosa. É certo que a necessidade de estar em uma igreja é um fator de grande preocupação atualmente, mas é por isso mesmo que vale a afirmação: se você tiver algo a dizer se distinguirá dessa massa medíocre que atualmente determina essa mentalidade predominante. O conselho talvez não queira pessoas não enquadradas, mas a maior parte da igreja agirá de forma diferente. Há que se interessar mais por vidas que pela fachada do templo, pela eficiência da liturgia ou a programação do data-show. É importante desacostumar as pessoas a pensarem em termos de quantidade, de programações mirabolantes, de eventos grandiosos. Semear a simplicidade, estimular a participação e a criatividade do grupo: atitudes ainda possíveis, antes que, pela proeminência de gestores, não haja mais espaço para pastores.

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 14:23:20
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Terça-feira , 13 de Setembro de 2011


(Histórias de) Leitura(s)

 

            A discussão sobre o local onde reside o sentido de um texto rendeu e rende muitas páginas até hoje. O conforto de se acreditar na estabilidade de sentido garantida por um autor cujas intenções estão expressas de forma mais ou menos claras em um texto se esvaiu de forma talvez definitiva. O marxismo e a psicanálise desferiram um golpe fatal sobre essa pretensão de total autonomia do sujeito. Mas dizer que ela se esvaiu significa afirmar que ela existiu alguma vez, o que é verdade em relação às leituras praticadas por fundamentalistas religiosos ingleses do século XVII, mas nem tão verdade assim para leitores anteriores a eles, como Agostinho ou Spinoza. O que Spinoza iniciou, ou seja, um estudo mais detido e ousado das condições de atribuição de sentido ao texto bíblico foi aprofundado e alargado a outros textos pelos estudos hermenêuticos subsequentes, com autores como Dilthey, Schleirmacher, Gadamer e Ricoeur. Mas o que se destaca em comum de toda essa gama de estudos é que as leituras são históricas, ou seja, práticas cujo modo varia de época a época a partir de variados fatores. Essa “história da leitura” vem sendo empreendida por autores como Roger Chartier e Robert Darnton (no exterior) e Márcia Abreu e Marisa Lajolo (no Brasil), confirmando a ideia de que a apreensão de textos é uma prática que não pode ser naturalizada, sob pena de acreditarmos em uma espécie de metafísica imutável mediando a relação entre autores, textos e leitores, o que nos levaria a acreditar que um leitor do primeiro século tinha uma relação com o livro semelhante à que temos hoje, embora aqui já devamos ter o cuidado de definir de que leitor falamos lá e então e aqui e agora.

            Levar essas preocupações para a área da leitura da Bíblia traria para os estudos bíblicos um ganho talvez ainda insuspeito. Alguns esforços nesse sentido já foram empreendidos, mas, salvo engano, não de forma tão difundida a um público não especializado e voltado de forma mais explícita à figura do leitor cristão no I século. Há estudos sobre manuscritos, sobre as variantes textuais, a respeito das características orais dos textos bíblicos, mas não tenho conhecimento de um estudo nos moldes de “História da leitura no mundo ocidental” (Chartier e Cavallo) aplicado à Bíblia, embora essa obra ofereça informações preciosas sobre o assunto, mas com pouca ênfase em épocas importantíssimas para a formação da Bíbla, como o I século e anteriores. Um livro como “Deus, um itinerário”, de Régis Debray, fornece informações valiosas sobre a relação entre a fé e sua “deposição” em livros, mas não contempla a figura do leitor propriamente. E “História da leitura e protestantismo”, de João Leonel, trata de casos pontuais da contemporaneidade.

            Seria muito proveitoso, por exemplo, um estudo detido sobre a afirmação de Tércio de que foi ele o escriba da Carta aos Romanos, para falar de um caso que me parece prenhe de esclarecimentos a oferecer sobre a ideia de autoria no momento de elaboração dos textos que comporiam o cânone do NT (se o leitor conhece algum texto nesse sentido, favor informar). Se Tércio e não Paulo escreveu o texto de Romanos, como falar da intenção autoral do apóstolo se é muito provável que ele não tenha tido controle sobre as palavras utilizadas por seu escriba? (Aliás, um sacerdote medieval já se queixava da inexatidão das escolhas lexicais do responsável por transcrever suas ideias no papel, como mostra o livro de Chartier e Cavallo). E mais: essa dúvida quanto às relações estabelecidas entre autor e escriba torna muito duvidosa a validade de se fazer das minúcias textuais cavalo de batalha em torno de doutrinas e questiúnculas teológicas. Se Paulo não tinha controle total das palavras que utilizou, como os que colocam em sua intenção o sentido do texto podem garantir que o que se lê em sua carta sejam as palavras que ele mesmo usaria? Que elementos foram inseridos ou extraídos de um texto que se saberia mais ouvido que lido, realidade do I século radicalmente diferente das práticas de leitura da Bíblia predominantes a partir de certo momento da Idade Média?

            Talvez seja ir longe demais falar da “morte do autor”, como fez Roland Barthes, ou defender tantos sentidos para um texto quantos sejam seus leitores, como querem teorias vulgares escondidas sob o signo do “pós-modernismo”, mas acreditar em um único modo de relação com o texto, uma única forma de apreensão de seu sentido ou projetar sobre autores e leitores do passado o que experimentamos na contemporaneidade é esquecer a incontornável historicidade que marca todas as nossas práticas. Se, como disse Bourdieu, “um livro muda porque não muda enquanto o mundo muda”, estudar essas mudanças pode ter mais proveito do que se fechar unicamente no estudo do livro ignorando que também ele tem uma história. Uma história que pode ser fundamental para uma melhor apropriação desse objeto fascinante na história da cultura ocidental. 

Escrito por Leandro T. Almeida às 18:03:38
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Segunda-feira , 29 de Agosto de 2011


 

Fidelidades históricas

 

Uma das questões mais controversas no âmbito teológico entre conservadores e progressistas (o termo não é bom, mas há um melhor?) está relacionada à leitura que se faz da Bíblia. É recorrente que interpretações progressistas que signifiquem uma diferença em relação à interpretação “inspirada” dos conservadores sejam tomadas como concessão que se faz ao “espírito da época”, no caso, da modernidade. Assim, uma leitura não-literal de Gênesis, a proposição de três autores para um livro como Isaías, a interpretação simbólica dos milagres de Jesus seriam tentativas de agradar ao espírito moderno, que não pode aceitar a ideia de uma origem humana que remonte a um único casal, de uma inspiração que permita a um autor prever acontecimentos futuros ou de que ocorram eventos sobrenaturais. As leituras progressistas, dessa forma, recebem a pecha de serem coniventes com uma época que, em sua quase totalidade, é hostil a Deus; ao invés de confrontarem essa época, amoldam-se a ela.

Em sua defesa, os conservadores dizem que a leitura que propagam é fruto de fidelidade à Bíblia e, sobretudo, ao próprio Deus: se na Bíblia está escrito que Adão e Eva foram gente de carne e osso, se não há uma indicação explícita de que o livro de Isaías teve mais de um autor, se há relatos de milagres, isso tudo (e muito mais, posto que os exemplos aqui são apenas alguns entre tantos outros possíveis) deve ser lido como relato factual do mundo que descrevem; deve-se encontrar nos nomes que ela veicula correspondentes precisos em uma determinada época e lugar, que deveriam poder ser verificados ipsis literis se uma máquina do tempo pudesse nos transformar em testemunhas oculares do que a letra do texto afirma. Essa atitude, dizem, por mais inaceitável que seja ao “espírito da época”, deve ser defendida porque significa fidelidade às Escrituras, e consequentemente a Deus mesmo, como dito acima.

Sobre esse cenário, é preciso dizer que não se encontrará entre os progressistas quem diga estar meramente fazendo concessões à modernidade ao empreender uma leitura da Bíblia diferente da que se cristalizou entre os conservadores. O que se percebe, antes, é a aceitação do resultado de mudanças no modo de se encarar a Bíblia provenientes dos estudos relacionados ao texto (Crítica das formas, Crítica das fontes), dos estudos hermenêuticos, das novas possibilidades de compreensão da relação entre o texto e a realidade e tantos outros ganhos que anos e anos de estudos, pesquisas e resultados ora incorporados, ora rejeitados significaram para essa complexa relação que se estabelece entre texto e leitor. Não há, nessa atitude, concessão ao “espírito da época”, mas fidelidade às possibilidades racionais que essa mesma época permite e convida a ter: “sapere aude!” (ousa saber!), já dizia Kant, é a divisa que caracteriza homens emancipados que se desamarraram (ou ao menos deveriam) da tutoria de autoridades (inclusive religiosas) que determinavam seu comportamento. A “concessão ao espírito da época” que deveria ser denunciada se relaciona, antes, com o apego a cargos de prestígio em instituições, com a própria preservação de instituições auto-centradas e não voltadas radicalmente ao serviço à sociedade, com o exercício do poder eclesiástico na censura velada ou explícita a pensamentos diferentes, com a defesa de um monopólio da verdade que praticamente criminaliza quem não se submete a ele. Isso para não falar do costumeiro conservadorismo político que via de regra está associado ao conservadorismo teológico, o qual tanto atravanca mudanças essenciais na sociedade brasileira. Há exemplos mais eloquentes que esses de concessão ao “espírito da época?” Desconfio do motivo que leva os conservadores a se calarem solenemente sobre esses aspectos...

Além disso, se não se concede ao século XX o aval para determinar o modo de leitura da Bíblia, por que essa concessão pode ser ofertada, digamos, ao século XVII? Sim, porque essa história de que os autores bíblicos estavam priorizando a leitura literal, de que estavam preocupados em narrar a história como se seu texto fosse historiográfico ou de que os milagres deveriam ser lidos literalmente não passa de projeção ao século I e anteriores de uma leitura que se estabeleceu sobretudo no século XVII. Quais as evidências de que os autores e leitores do AT e do NT liam tudo literalmente? A leitura literal, em que pese sua aparência de normalidade, também é construção histórica. Ninguém tem em seu DNA um gene com a inscrição: “os textos devem ser lidos literalmente”. Postos originalmente sob a rubrica de “Proféticos”, livros como os de Samuel e Reis mostram bem o interesse da “história” que relatam: se tivesse que apostar, jamais lançaria minhas fichas na hipótese de que autores e leitores esperavam ler nesses livros relatos factuais. Se livros tais como o de Jó e Jonas se calam sobre a exigência de literalidade, das duas uma: ou ela está absolutamente pressuposta pelo texto ou é radicalmente indiferente para ele: que a característica dos seus relatos nos deixe a pista sobre qual alternativa perseguir. E se leitores dos Evangelhos eram ávidos por fidelidade histórica na descrição dos relatos devem ter se decepcionado sobremaneira com o parco conhecimento geográfico de Marcos, que pouco se importa em falar de abismos onde eles não existem. Sobretudo: se esses autores bíblicos exigiam mesmo uma leitura literal, do que duvido, por que têm que ser seguidos? Quem é autoridade: o autor ou o texto?

Em suma, a tal alegada fidelidade ao texto bíblico por parte dos conservadores é fidelidade a uma época, a um modo histórico de apropriação do texto bíblico. Modo que dista por volta de 400 anos de nossa época e 1500 da época do texto mais recente da Bíblia. Determinação histórica por determinação histórica (porque ninguém se livra dela) fico com as possibilidades de leitura inauguradas pela modernidade. “Mas o homem, e não Deus, tem a centralidade na modernidade!”, bradarão os conservadores. Bem, além da matança proporcionada por épocas “teocráticas” (talvez o pior dos totalitarismos), poderia bem aludir à percepção de Karl Barth: “depois que Jesus Cristo se encarnou, o homem passou, sim, a ser a medida de todas as coisas”. Sejamos modernos, pois.    

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 09:22:10
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Quarta-feira , 10 de Agosto de 2011


ABíblia e a Metafísica

 

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

[...]

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).

Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.

 

Tabacaria

Fernando Pessoa

 

            Pensemos em um texto específico: Gênesis capítulo 3, episódio em que Adão e Eva comem do fruto proibido, aquele da “árvore do bem e do mal”. Essa é uma das passagens bíblicas mais discutidas em todos os tempos. E a maior parte das leituras, durante a maior parte da história interpretativa de viés cristão desse texto, disse que o ensino da passagem remete a uma espécie de ontologia do ser humano: ao comer o fruto, Adão e Eva decaíram do estado de perfeição em que se encontravam. A partir de então, sustenta essa leitura, só se pode falar do ser humano de forma correta tendo como premissa sua “Queda”. Todos os homens e mulheres nascidos em todos os tempos, negros, amarelos, pardos, brancos, são decaídos. Até os corinthianos são. Uma pergunta, contudo, deve ser feita: há amparo no célebre texto para que se defenda uma espécie de antropologia metafísica universal?

            Sim, se desprezarmos todos os conhecimentos adquiridos no correr da história em relação tanto à formação da Bíblia quanto a suas possibilidades de apreensão. Ao ler a Bíblia e propor, a partir dela, afirmações de validade universal e imutável, homens como Agostinho e Calvino se moviam dentro das possibilidades de seu universo conceitual. Isso, por si só, em nada desabona o que produziram, mesmo porque muita coisa daquilo que disseram permanece de uma atualidade impressionante (isso vale mais para o primeiro que para o segundo), mas, hoje, é preciso que nos demos conta de que esse universo conceitual não é mais o mesmo (“universo conceitual” aqui pode encontrar sinônimos em expressões como “solo epistemológico” e “estruturas de plausibilidade”, por exemplo), o que convida – ou obriga? – a uma mudança de atitude frente aos textos bíblicos.

            Pessoalmente, e sigo aqui o que já sugeriu, por exemplo, Robert Alter em seu livro “A arte da narrativa bíblica”, não acredito que o texto de Gênesis sirva de amparo para afirmações ontológicas sobre o ser humano. O texto não diz que o ser humano foi criado perfeito, nem que deixou de ser perfeito; não diz que ele é totalmente depravado ou desesperadamente corrupto; sequer sugere que ele era imortal e passou a ser mortal após a “Queda”. O texto, aliás, sequer fala de “Queda”. Sua leitura deve conduzir a lições mais pontuais, que sugerem pistas para ações concretas e não explicações sobre a “essência” do ser humano (se é que ela existe).

            Assim, mesmo propostas de pensadores refinados da contemporaneidade não me parecem muito convincentes como ensinamentos que deveriam ser depreendidos de um texto como Gênesis 3. Seja Paul Tillich falando de uma espécie de “inocência sonhadora” antes da “Queda” ou de Paul Ricoeur sugerindo uma ideia de mal que sempre nos ultrapassa só podem utilizar o texto como ilustração para tais ideias, não como fonte para elas. Não acho que esse uso seja necessariamente ruim, mas seria melhor que fosse explicitado aí que conceitos como o de “Queda” ou de Mal são forjados seja por uma teologia especulativa seja pela filosofia, e só em um passo seguinte remetidas ao texto. Nesse sentido, acho mais convincente e apropriado leituras como a de Carlos Mesters, que vê na passagem em tela uma denúncia contra um caminho que deve ser negado por parte do seguidor de Javé, procurando relacionar a serpente à religião cananeia, a de Joseph Campbell e sua crítica por uma opção de “cosmovisão” que se resume a uma disputa entre o bem e o mal ou a que vê no texto uma crítica ao poder imperial, da qual a serpente, de novo ela, seria símbolo. Concorde-se ou não com tais leituras, é preciso reconhecer que têm o mérito de se apegar aos elementos fornecidos pelo texto sem procurar extrair dele – ou nele colocar – conceitos a-históricos de abrangência ontológica. Essa generalização não é muito familiar à Bíblia. Que se pense nos discursos conflitantes entre Provérbios, Jó e Eclesiastes, por exemplo, e mesmo na dificuldade em se defender que Romanos 1 e 2 fale de todos os homens indiscriminadamente. Em outras palavras, é cada vez mais difícil sustentar, a partir do texto bíblico, a elaboração de Teologias Sistemáticas; ele é muito mais afeito a Teologias Bíblicas. Adão e Eva também são encontrados defronte de tabacarias.

             

Escrito por Leandro T. Almeida às 22:50:36
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Sábado , 23 de Julho de 2011


O relativismo é relativo

 

            Normalmente, o relativismo é muito criticado. Ele supostamente significaria a adoção de uma atitude impeditiva de qualquer afirmação enfática, como se aquele que recebe a pecha de relativista fosse alguém sempre morno, sempre incapaz de tomar posições, sempre fraco para a crítica, sempre aberto para todos os tipos de pensamento e comportamento, sem que houvesse qualquer crivo diante do que lhe é exterior. Mas essa significação tem que ser relativizada. O relativista não é necessariamente este ser que faz jus a todas essas descrições que ao fim e ao cabo acabam por sugerir alguém sem convicções ou incapaz de posturas decididas ou firmes. Ele pode ser caracterizado, antes, e de forma mais justa, como alguém que, não obstante suas convicções pessoais, reconhece o direito do outro de ter as suas opiniões com a mesma pretensão à verdade. Uma postura diferente da do relativista, nesse sentido, só pode gerar imposição baseada em poder, nunca um debate de ideias em condições de igualdade. Além disso, a própria noção que quer fazer do relativista alguém incapaz de qualquer afirmação que se queira verdadeira é falsa: sempre se é relativista a partir de algum absoluto, nem que esse absoluto seja o de que a verdade é um acordo linguístico sem um “lastro” fundamental na realidade, como diz o pragmatismo. O relativista, portanto, tal como pintado por aqueles que o combatem, é uma caricatura. Como diz Gianni Vattimo: “Jamais conheci um relativista, da mesma forma que jamais ouvi alguém dizer: ‘todas as teorias, aí compreendida a minha, têm o mesmo valor’”[1] (p. 65).

            O relativismo tem a ver, antes, com uma atitude de respeito e caridade para com o diferente. Importante que se diga: as diferenças permanecem, os embates de ideias são reais, o acordo pode não acontecer, mas o outro será mantido em sua dignidade ao fazer afirmações diferentes da minha. Isso é, em outras palavras, tolerância. Às vezes há um certo efeito retórico em combater a tolerância a partir da frase de G. K. Chesterton, “a tolerância é a virtude do homem sem convicções”, mas a consequência prática disso, para além do massageamento de um ego inflado, é a perseguição, a exclusão, a punição do diferente. Vattimo novamente: “Suspeito então que hoje uma grande parte da polêmica contra o relativismo visa na realidade o liberalismo da sociedade: só uma sociedade liberal pode ser relativista, pois ela deve admitir diferentes tipos de opiniões” (p. 65). A Genebra calvinista é um bom exemplo de sociedade não relativista. As consequências disso podem ser testemunhadas pelas muitas pessoas que foram obrigadas a se exilar para não serem mortas. E houve, além de Servetus, outros que não tiveram como fugir ao exercício do absolutismo – que é, parece-me, o contrário do relativismo.

            Assim, não acho que seja possível uma postura cristã que não seja relativista. O absoluto cristão incentiva o relativismo, pois, segundo testemunho dos Evangelhos, ele não é uma ideia, mas uma atitude: amar a Deus e ao próximo. A partir desse absoluto, não há como erigir a fé ao redor de opiniões doutrinárias que devem ser tidas como expressão única da verdade cristã: “Mas o que me parece muito importante, é o que eu digo quando afirmo que Deus só pode ser relativista, pois não se deve fazer depender a salvação das almas do conteúdo de algumas proposições: pode-se salvar sua alma mesmo se não se conhece o dogma da trindade” (Vattimo, p. 66). A cristandade, para se aproximar do cristianismo, carece de uma transformação profunda, que mine as bases nas quais foi erigida até hoje, ao redor de confissões, credos, catecismos, em suma, opiniões. Vattimo, finalmente: “Eu não estou muito convencido de que o relativismo seja uma teoria errônea, pois ele não é uma teoria, mas antes uma doutrina social: na sociedade, é necessário admitir, por razões de caridade, posições múltiplas; e de maneira geral estou convencido disto: não digamos que nos colocamos em acordo quando encontramos a verdade, mas que encontramos a verdade quando nos colocamos em acordo” (p. 65).     

             



[1] Gianni Vattimo e René Girard. Christianisme et modernité.

Escrito por Leandro T. Almeida às 18:21:32
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Terça-feira , 12 de Julho de 2011


Na era da gestão

 

            Recebo e-mail com a seguinte propaganda: “A revista DIDAQUÊ intitulada ‘Revitalizar para Frutificar’, traz 13 estudos bíblicos sobre a base bíblica para a revitalização da Igreja”. Não responderei favoravelmente a quem tão gentilmente me enviou a propaganda, primeiro porque custo a entender que pessoas cujo ofício é principalmente o de ensinar dependam das tais revistas para cumpri-lo; segundo, porque, embora não tenha lido os tais 13 estudos, desconfio fortemente do enfoque por eles privilegiado, motivo suficiente para não querer lê-los. Que enfoque é esse? O mesmo que já se tornou moda no nicho reformado das igrejas evangélicas: tendo se dado conta do descompasso em relação aos reclames da modernidade (ou “pós-modernidade”, esse conceito onipresente nas palestras daqueles que se apresentam como “contemporâneos”), as igrejas buscam avidamente uma “revitalização”, na intenção de melhor responderem às prementes questões que os tempos atuais trazem. As igrejas reformadas que insistem em manter vigentes os antigos moldes estariam perdendo espaço (quer dizer, membros e dinheiro), razão mais que justificada para que se “revitalizem”.

            Qual é, no entanto, o foco dessa revitalização, motivo que me faz descrer que esse seja o caminho a ser adotado por igrejas que desejam se “sintonizar” em relação às demandas da contemporaneidade? Basicamente: uma mudança na forma, não no conteúdo. Quando se fala em “revitalização”, a conversa é sempre a mesma: pensa-se em novos formatos para a escola dominical, mudanças litúrgicas, uma nova estruturação administrativa, a adoção de “ministérios” e a extinção de sociedades internas, por exemplo. Normalmente, essa “revitalização” não prescinde de um data-show, da abolição do velho púlpito de madeira e da substituição do terno e gravata por trajes mais esportivos. Basta olhar para a coqueluche das “revitalizadas”, uma certa igreja que irradia sua influência a partir da cidade de Campinas.

            E por que minha descrença quanto a essas mudanças? Porque, mesmo alterando a forma, tais empreendimentos (o termo não é gratuito) mantêm intocado o conteúdo. É como se o descompasso em relação à modernidade fosse causado pelo hino, pelo formato do sermão, pela liturgia tradicional, pelo templo austero e não por aquilo que é dito nos lugares que abrigam esses formatos. Acho que esses modos tradicionais perdem mesmo cada vez mais espaço junto às novas gerações, mas acredito que uma mudança de conteúdo seria muito mais eficaz que uma mudança de forma. Até afirmaria: uma mudança de conteúdo acarretaria uma mudança na forma, mas essa mudança formal seria indicativa de uma transformação efetiva e necessária no âmbito da igreja; as mudanças atuais não passam de maquiagens superficiais, que atraem, é verdade, muitas pessoas, cuja mentalidade, no entanto, não se diferencia significativamente daquelas que não aderiram ao “choque de gestão” sugerido.

            A questão é longa e enseja vários desdobramentos, impossíveis aqui, por isso sintetizo muita coisa na seguinte imagem: uma dessas igrejas “revitalizadas” investiu fortemente na mudança formal. O culto tem uma liturgia “leve”, o data-show tem slides muito bem planejados, o púlpito deu lugar ao banquinho, o sermão trata de questões “do momento”. Quando, no entanto, a liderança dessa igreja vai à frente, lá só vemos homens (qual o lugar ocupado pelas mulheres?); quando o texto de Gênesis é lido, Adão e Eva são a origem de todo o mal do mundo (por terem, literalmente, comido um fruto proibido?); mesmo quando um livro como “A cabana” é abordado, adverte-se quanto às possíveis heresias nele contidas (não se concebe qualquer tipo de pluralidade teológica?). Ou seja: em que pese as transformações formais, o conteúdo remete ao século XVII, ainda é tributário de uma visão pré-moderna de mundo (e não duvido que se pense em um céu “lá em cima” e um inferno “lá embaixo”) e não incorpora nada do que disse a teologia reformada do século XX, o que seria mais coerente com igrejas que querem ser relevantes para o século XXI. Ele resta intocado.

            Seria, ainda, importante atentar para as consequências dessa “revitalização”. Quando começam a ser empreendidas, geram demandas inesgotáveis, porque pessoas que se acostumam com novidades precisam sempre de novidades; se a preocupação é com a manifestação de uma consciência cristã no mundo, por que acreditar que mudanças na forma, e não no conteúdo, transformarão o atual cenário?; finalmente, não seria um mal sinal que estudantes desdenhem – como vi – da teologia mais “teórica”, digamos assim, para se apegarem a técnicas de gestão e autores de manuais devocionais, o que parece ser uma tendência entre os que defendem as tais “revitalizações”? 

Escrito por Leandro T. Almeida às 05:36:29
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Sábado , 02 de Julho de 2011


Pecado estrutural

 

É grande o descrédito das igrejas cristãs aos olhos daqueles que, pelo mundo todo, militam em prol de uma sociedade mais justa. Embora haja um lado injusto nessa história, proveniente do desconhecimento de muitos quanto a ações de cristãos em prol dessa luta e da generalização excessiva do papel das variadas igrejas cristãs existentes, há que se reconhecer que esse descrédito, no fim das contas, é justificado. A Igreja normalmente defende o poder e desconfia dos que contra ele se rebelam. Foi assim nas grandes invasões europeias, na Alemanha nazista, na ditadura brasileira, para ficar em poucos exemplos (que contaram, sempre, com contra exemplos que não deveriam ser esquecidos, como Bartolomeu de las Casas, a Igreja Confessante e frades dominicanos).

            Mas pode acontecer que mesmo involuntariamente a Igreja alimente essa situação, por meio da teologia que adota. Tomo um exemplo bastante atual. Nas manifestações populares contra as medidas que seriam votadas pelo parlamento grego com o intuito de se adequar às exigências do FMI, a “jornalista” do Jornal Nacional chamou alguns dos manifestantes de “extremistas” que “começaram cedo a espalhar o medo na praça de Atenas”; eram “os encapuzados”, e a polícia se via acuada diante da “ação dessas pessoas violentas”. Uma teologia tradicional criticaria a ação dessas pessoas da mesma forma que a “jornalista” o fez, interpretando claramente a situação a partir de um ponto de vista conservador, útil somente aos bancos e especuladores financeiros, que fizeram com que a situação da Grécia chegasse ao caos atual, os mesmos que agora jogam sobre as costas da população os prejuízos de sua sanha pelo lucro.

             Por que uma teologia tradicional tenderia a criticar os manifestantes? Porque adota um conceito de pecado limitado a ações individuais. Pecado, assim, são os atos que cometemos, que vão de mentir a roubar, de adulterar a jogar futebol no domingo. E, claro, rebelar-se violentamente em praça pública. Ela não considera a situação mais ampla que envolve inescapavelmente as vidas de forma individual. Com essa individualização do pecado, as coisas se invertem: pecador acaba sendo o que luta contra uma situação que o esmaga, não quem a promove. Nenhum especulador da bolsa receberia um olhar enviesado dessa teologia por contribuir com o inchaço da bolha financeira, desde que fosse um religioso exemplar (bom pai, bom marido, frequentador da igreja, dizimista etc).

            Por isso é preciso falar, antes, de pecado estrutural, não meramente individual. O pecado deve ser visto como uma situação mais ampla, que ultrapassa as ações pontuais dos indivíduos e impede a manifestação da justiça na convivência humana. Seria salutar que as confissões de fé introduzissem artigos que lançassem sobre o pecado um olhar menos individualista e moralizante e que passassem a denunciar as estruturas pecaminosas da sociedade, que crescem, hoje em dia, sobretudo pela permissividade especulativa do sistema capitalista.

            Não há, aliás, nada heterodoxo nessa abordagem. O apóstolo Paulo fala de pecado como uma condição de vida, mais do que como praticar essa ou aquela falta individual. Há uma situação a envolver o ser humano, que o atravessa e o ultrapassa, e que deve ser vencida. Sem a superação dessa condição, o ser humano continuará “morto em seus delitos e pecados”. A aceitação acrítica de uma teologia norte-americana conservadora entre as igrejas protestantes brasileiras, que não questiona em nada as opções político-sociais do Tio Sam, baseia-se, em grande medida, nessa falta de abordagem do pecado enquanto estrutura, priorizando, assim, a crítica ao desvio individual. Ao mesmo tempo, contemplamos um desprezo quase generalizado nessas mesmas igrejas pela teologia latino-americana ou pela teologia político-ecológica de Moltmann, Boff ou Metz, aquelas que procuram justamente lançar luz sobre as consequências de opções no âmbito político e social. É por isso que um típico presbiteriano norte-americano parece viver a vida cristã exemplar, enquanto que o grego que lança coqueteis molotov contra policiais na praça de Atenas carece de conversão. Quem, no entanto, contribui mais incisivamente para a manutenção de um poder injusto? Não é por acaso que no Reino de Deus prostitutas precedem intérpretes da Escritura.

Escrito por Leandro T. Almeida às 18:08:40
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Quinta-feira , 16 de Junho de 2011


No espírito de Calvino

 

            João Calvino afirmou: “que se esqueça toda humanidade quando é questão de combater pela glória de Deus”. E, a despeito de todos os devotos que procuram relativizar (nesse momento o relativismo interessa) sua participação na condenação de Servetus, que o próprio reformador tenha a palavra: “Eu não dissimularia que ele [Servetus] foi posto em prisão por meu feitio e por minha instigação”. Isso está escrito em um livro que Calvino escreveu para defender a condenação de Servetus[1]. O que chama a atenção é o peso que a doutrina recebe na argumentação calvinista, maior, como ele explicitamente defende, que o da própria vida humana. A conclusão lógica é que queimar alguém para a defesa da doutrina é, em última instância, legítimo. Ainda Calvino: “Mas quando a religião é abalada em seus fundamentos mesmo, quando blasfêmias detestáveis são proferidas contra Deus, quando as almas são conduzidas à perda por dogmas pestilentos, quando, enfim, alguém se afasta abertamente do Deus único e de sua pura doutrina, é necessário descer ao remédio extremo, a fim de que o veneno mortal não se infiltre mais longe”.

            Felizmente muita coisa mudou do século XVI para cá. Não se tolera mais que autos-de-fé sejam erigidos para a preservação da sã doutrina. Curioso que a verdade enquanto monopólio da Igreja tenha gerado inquisições, o mesmo não acontecendo quando ela se tornou posse da Ciência. Ponto para os avanços iluministas – tão ferrenhamente criticados pelos religiosos – que parecem ter apreendido melhor a mensagem cristã que está na base da ideia de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Digo felizmente porque não apenas este que vos escreve não mais estaria aqui para compor estas mal-traçadas, mas também porque veríamos novos gravetos trepidarem no altar da ortodoxia: Ricardo Gondim não escaparia ileso, hoje, da sanha persecutória.

            É óbvio que os ortodoxos de hoje não admitem isso. Dizem apenas que defendem a verdade contra o erro, intentam corrigir as más influências que possam advir sobre a Igreja, aconselham mentes incautas, advertem corações manipuláveis. Difícil, no entanto, não chegar à conclusão de que são os herdeiros dos inquisidores de antanho, que proliferaram mesmo entre os protestantes. Contra Gondim foi lançada uma série de acusações “bíblicas”: “ele não era dos nossos”; “é o mentiroso e o anticristo”; “pratica o pecado e procede do diabo”; “espírito do anticristo”; “enganador”. Por que tudo isso? Teria Gondim apostatado da fé? Abriu ele uma “igreja de Satanás” a partir da qual profere blasfêmias contra Cristo? Lançou uma campanha de incentivo à queima de Bíblias? Não, Gondim não fez nada disso. Apenas foi “flagrado” em um vídeo dizendo que a volta de Cristo não deve ser interpretada literalmente, não obstante ter dito que esse “símbolo” tem lições preciosas a nos ensinar e não pode ser descartado do horizonte da fé cristã.

            O que justifica tamanha virulência contra alguém que meramente interpreta uma doutrina de forma considerada não ortodoxa? Como se pode absolutizar uma forma de compreensão da fé e considerar as divergentes como heréticas? O que Gondim diz não foi sequer criação sua. Não são poucos os teólogos que leem a Bíblia tal como ele expôs. Muitos reformados pelo mundo todo abandonaram o literalismo na leitura da Bíblia. São ortodoxos a seus próprios olhos. Dizem a verdade a partir de sua compreensão. São fieis às Escrituras segundo sua exegese e hermenêutica. Intentam interpretar a mensagem cristã para o mundo como todos os cristãos compromissados o fazem. São infieis por que não leem a Bíblia como eu e minha corrente teológica lemos? O que se pratica nesse momento é a colocação em prática de um “modus operandi” tipicamente inquisitorial, a partir do qual a alteridade inexiste.

Certa feita, um autor desses blogs que hoje condena o Gondim escreveu um texto muito sugestivo. Ele dizia ter ganhado uma garrafa de um precioso vinho do porto, mas estava em dúvida: com quem compartilhá-lo? Não poderia fazê-lo com os “liberais”, porque negam algumas doutrinas básicas. Também não poderia tomá-lo com os pentecostais, nem com os “neo-puritanos” porque não eram exatamente “bíblicos” em suas práticas (desnecessário dizer que cada um desses seguimentos acredita ser fiel e temente a Deus. Como, a não ser apenas tomando o lugar do próprio Deus para julgar os corações, poderíamos dizer que não o são?). A conclusão é que poderia dividi-lo com os reformados, com aqueles que, como ele, interpretam a Bíblia corretamente. Escrevei um comentário a esse texto. Dizia que ele era revelador, pois mostrava a ideia de comunhão cristã que predominava na mente deste senhor. Comunhão somente com os iguais, os semelhantes, os que pensam da mesma forma, quase que agradecendo – a inferência é minha – por “não ser como estes publicanos”. Eu dizia que a comunhão cristã era exatamente o contrário disso, porque significava acolher a todos que, a despeito das divergências na forma de compreensão e descrição da fé, podiam sentar à mesma mesa, na medida em que a fé que os unia estava acima das discordâncias doutrinárias. Assim, disse, chamaria à mesa da comunhão os pentecostais, os liberais, os puritanos, os neo-puritanos e diria: “Irmãos, divergimos, é verdade, sobre muitas questões, mas o Cristo no qual cremos é maior que tudo isso. Celebremos essa glória”. Meu comentário não foi postado, mesmo tendo sido respeitoso e dentro do tema da postagem. A conclusão não é outra: para esses caras, as doutrinas valem mais que as vidas, e julgam aqueles que não defendem as mesmas doutrinas que as deles. Sua atitude não difere da de Calvino mostrada no início deste texto. Assim, faço algumas perguntas aos que hoje desancam o Gondim, que, gostaria, fossem respondidas com a mais profunda sinceridade: em que a atitude de vocês difere da de Calvino em relação a Servetus? Se vocês fossem genebrinos do século XVI, vocês acham mesmo que não colaborariam para a morte do médico “herético”? Vocês realmente acreditam que, se ainda hoje, a punição para a “heresia” fosse a fogueira, vocês não mandariam o Gondim para lá no intento de defender a “sã doutrina”, caso tivessem poder para isso? Vocês realmente não se dão conta de que agem exatamente do mesmo modo como os fariseus agiram com Cristo, condenando-o à morte por acusação de blasfêmia e heresia? O que, na atitude de vocês, sugere que vocês não são os modernos fariseus? Por que eu deveria achar que vocês é que compreenderam a mensagem de Cristo e não aqueles que vocês acusam de heresia? Qual o sentido dessa atitude que hoje vocês tomam, senão o da recusa ao debate e a condenação sem mesmo direito à defesa?

Um desses blogs guardiões da sã doutrina lamentou: “Nossa época perdeu a virilidade teológica. Vivemos dias de frouxidão, onde proliferam os que tremem em frêmito diante de uma peleja teológica de maior monta, e saem gritando histéricos, ‘linchamento, linchamento’”. Pois o que não houve no caso do Gondim foi justamente uma “peleja teológica”. Houvesse maturidade nesse meio, o Gondim seria convidado para uma discussão, um debate público, uma troca de ideias em que cada um poderia expor suas convicções. Ainda melhor se essa discussão pudesse acabar amigavelmente ao redor de um chopp gelado no boteco da esquina, em que pese a manutenção das maiores divergências doutrinárias. Mas que. Partiu-se, antes, para condenações inapeláveis: anticristo, apóstata e filho do diabo. Calvino não faria diferente. A memória de Servetus que o diga.



[1] Intitulado, segundo livre tradução, “Defesa da fé ortodoxa sobre a santa Trindade, contra os monstruosos erros do espanhol Michel Servetus; na qual é mostrada que os heréticos devem ser constrangidos pelo direito da espada, e que o suplício, em Genebra, deste homem ímpio, que designamos por seu nome, era merecido”.

Escrito por Leandro T. Almeida às 18:06:45
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Sábado , 11 de Junho de 2011


Bibliolatria

 

            A ideia não é nova, alguém já a sugeriu no passado: os protestantes destronaram as imagens e entronizaram a Bíblia como ídolo digno da mais santa reverência. O barro cedeu lugar ao papel. As Escrituras viraram a quarta pessoa da Trindade, ocupando um lugar antes reservado ao Cristo: a mediação de toda a relação entre Deus e os homens.  

            Favorece essa situação a afirmação de que “a Bíblia é a Palavra de Deus”. Ideia confusa e carente de sustentação na própria Bíblia (se, por exemplo, as regras cerimoniais são Palavra de Deus, como explicar que elas tenham caído na obsolescência?). Mas em que sentido a Bíblia é a Palavra de Deus? Há algumas teorias, e um modo bastante difundido de ler as Escrituras revela a maneira como se entende a afirmação ortodoxa: cada sentença acompanhada da fórmula “assim diz o Senhor” é tomada como se tivesse saído diretamente da boca de Deus. A letra é a Palavra e a Palavra é a letra. Assim, cada uma dessas formulações não pode ser questionada, discutida, relativizada e muito menos negada, porque seria negar o que o próprio Deus disse. Os relatos narrativos, por sua vez, são tomados como históricos e absolutamente corretos e verídicos na interpretação que dão dos fatos (quer dizer, eles não interpretam os fatos, eles meramente os relatam!). Se o livro dos Reis, por exemplo, diz que Deus mandou Salomão construir o templo, é porque Deus mandou, lá pelo 10º século a.C., Salomão construir o templo. Não se pode ver aí uma teologia real, uma interpretação da história por um viés sacerdotal, uma apologia da monarquia: essa foi a vontade de Deus. Ignora-se, assim, ou não se consideram as devidas consequências de que a ideia da construção de um templo foi contraposta, inicialmente, pela recusa de Deus de que houvesse rei em Israel e pela mobilidade de um Deus que não habita em templos feitos por mãos humanas. Sim, também estamos aí diante de uma teologia, o que nos leva a considerar que a “Palavra de Deus” será percebida no resultado desses embates teológicos, não na superfície das frases, na letra do texto. Isso não é sinônimo de um relativismo que impediria qualquer afirmação a partir dos escritos bíblicos, mas a adoção de um princípio interpretativo que obriga ao estabelecimento de um critério de compreensão e valoração daquilo que neles é dito. No Antigo Testamento, a proeminência é dos profetas: Natã julga Davi, Jeremias combate os sacerdotes. A teologia profética julga a teologia real e sacerdotal, e estas só podem ser “Palavra de Deus” na medida em que resistem a esse julgamento. A partir disso, a afirmação de que Deus um dia quis um templo para si não passa de uma interpretação teológica de um momento da história de Israel, interpretação que não precisa ser sustentada por nós hoje. Além disso, teria Deus mudado de ideia? Depois de rejeitar a monarquia e o templo, agora estaria disposto a querer tanto um quanto o outro, para mais tarde rejeitá-los novamente?

            Esse princípio hermenêutico está bem exposto na carta aos Hebreus, que nos ensina que Cristo é o ápice da revelação de Deus. Se este, outrora, falou pelos profetas, de muitas maneiras, nos últimos tempos nos falou por meio do filho. Jesus Cristo é o critério último de leitura da Bíblia. Ele é maior que ela e a julga. Ninguém se interpõe entre o ser humano e Deus, incluído aí pastores, teólogos, teologias e mesmo a Bíblia. A fidelidade à mensagem bíblica exige que a Bíblia seja destronada do pedestal em que foi colocada pela ortodoxia: fonte de textos-prova para a defesa de um corpo doutrinário.

             Isso não quer diminuir o valor da Bíblia. Ela é testemunha da Revelação de Deus aos homens. Revelação, como diz Andrés Torres Queiruga, sempre plena e completa, que o homem foi captando em um processo penoso de aprendizado, com altos e baixos, erros e acertos, completada pelo exemplo maior de amor incondicional, Jesus Cristo morto e ressuscitado. Essa ideia de Bíblia como testemunha da Revelação é contrária à ortodoxia, mas não ao que a própria Bíblia diz. Jesus Cristo, a plenitude da Revelação, o Logos, a Palavra encarnada, não foi apreendido em sua plenitude pela Bíblia: “se tudo o que Jesus fez e ensinou fosse relatado, não caberiam no mundo os livros que teriam que ser escritos”. A Bíblia é um recorte da Revelação, uma adaptação à capacidade humana de apreensão, suficiente para mostrar ao homem que Deus o ama incondicionalmente e não há nada que deva mediar essa relação. A Palavra é muito maior que as palavras da Bíblia, em qualquer sentido que se queira entender essa superioridade.

            É importante que se diga isso por um outro motivo: a Bíblia tem se tornado a justificativa para atitudes menos amorosas. Muitos religiosos nutrem uma antipatia pelos homossexuais que não nutririam se não fossem cristãos. Toda uma corrente dentro do cristianismo sustenta uma antropologia absolutamente hostil e negativa para com o ser humano motivada por sua leitura da Bíblia (e certa interpretação que a sustenta). Não poucos tomam os não convertidos como pessoas menores, de um escalão inferior, ímpios que são de uma qualidade diferenciada até que cedam às investidas conversionistas dos crentes, atitude que inexistiria se não fossem leitores das Escrituras. Quantos se veem como os eleitos de Deus, o que, inevitavelmente, sugere que haja os não-eleitos (e você já notou, caro leitor, que nenhum dos predestinacionistas jamais se colocou entre os não predestinados?). Todas essas posturas se sustentam em uma leitura da Bíblia que desconsidera o princípio cristão de leitura do texto, ou seja, Cristo como critério interpretativo do todo. Deixo claro que o problema, a meu ver, não é com a Bíblia, que tenho na mais alta estima e referência absoluta de minha fé. Mas com um modo de a ler, de a encarar, de a conceitualizar. Um modo que não percebeu o princípio anti-idolátrico presente na própria Bíblia.

Escrito por Leandro T. Almeida às 16:35:59
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Terça-feira , 31 de Maio de 2011


Imaginations from the other side

 

            O apego ao literalismo é proporcional ao desprezo pela imaginação. Dogmáticos desconfiam de elaborações ficcionais, desdenham dos alcances da fantasia, aferram-se ao império do empírico. Há muito tempo os religiosos se encarregam de censurar o imaginário. Vigorou por muitos anos uma censura católico-romana a romances considerados licenciosos. Émile Zola teve toda sua obra lançada no index librorum prohibitorum. Um dos textos que está na base de toda a criação literária ocidental, a Bíblia, continua sendo lido como registro factual do acontecido.

            Daí a sensaboria com que se leem textos como o do caos reinante antes do cosmos, de monstros marinhos a disputar com a divindade o controle dos abismos, da mula falante, do homem cuja força está nos cabelos, do profeta fanfarrão vomitado por um peixe na praia, daquele em quem tendo sido postas as esperanças de libertação, morreu como um criminoso e ressuscitou. Todas essas passagens apelam fortemente à capacidade humana de pensar o não existente, de ir além do meramente dado, de romper as fronteiras da factualidade. Não teriam existindo se seus autores, ao invés da imaginação, tivessem respeitado apenas os limites da observação. Ao ousar ir além do que os olhos podiam ver, alcançaram mundos capazes de fazer vibrar as sensibilidades humanas por séculos ininterruptos. Nessas criações em maior ou menor medida ficcionais estão retratadas, comentadas, questionadas, desenvolvidas as múltiplas e ilimitadas possibilidades humanas em seu gesto de habitar o mundo. Sem a imaginação, a descrição dessa presença humana seria de uma pobreza jornalística incapaz de perdurar uma única geração sequer: não consta que alguém nutra apreço por páginas de jornais do século XIX – excetuando-se, claro, seu valor documental ou possivelmente sentimental –, o que não se pode dizer de muitos romances e poemas que lá foram produzidos.

            Na externalização criativa das possibilidades humanas há uma mistura de interpretação e anseio, de explicação do passado e projeção ao futuro, de denúncia do absurdo e esperança pela harmonia. Ilusão imperdoável, portanto, considerar que a ficção se preste somente ao lazer e à fugacidade – embora (outra de suas vantagens) sirva também para isso. Mas ela trata do que é mais caro ao ser humano, a expressão daquilo que está interditado à conceitualização racional, mesmo a mais refinada. Normalmente, a literatura está à frente da filosofia.

            Presos à valorização estreita do “mundo real”, os religiosos mostram uma inabilidade patética diante da imaginação. Um pastor afirmava, na celebração de um matrimônio, que o que dizia era sério, “não era poesia”. Outro, com uma sinceridade maior do que eu mesmo gostaria de acreditar, confessava que “se Deus tivesse dito que Jonas engolira um peixe, eu acreditava”. Houve um que disse “abominar a pornografia dos romances de Jorge Amado” e não faltou quem desancasse “Aquarela”, de Toquinho. Em suma, nada pode escapar à verificação empírica, à “verdade dos fatos”, como se eles existissem ao alcance fácil das mãos (ou dos olhos). Por isso assistimos à desoladora batalha dos leitores mais pobres que a Bíblia deve ter conhecido em toda sua história: tudo o que ela diz é posto na conta da descrição da realidade, e aí se lhe interdita a possibilidade de que ela engendre utopias, faça o ser humano sonhar com realidades não existentes, estimule a compra de campos arrasados esperando que neles ainda se plantem vinhas e se construam casas. Presas do literalismo, tais leitores acabam sendo meros reprodutores e legitimadores da realidade que aí está, embora pareçam se mostrar tão contrários a ela. Incapazes de apreciar a fabulação, investem todas suas fichas contra aqueles que ousam criar sobre a imaginação literária dos textos – sejam eles sagrados ou profanos. Coveiros da criatividade, são papagaios de frases feitas, mormente tão belas quanto seus próprios espíritos atrofiados. Em seu mundo ideal, poetas, romancistas, contistas e dramaturgos estariam a serviço de sua verdade. Se é que eles lá existiriam.

Escrito por Leandro T. Almeida às 11:59:44
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Sexta-feira , 20 de Maio de 2011


 

Preconceito às avessas

Texto publicado em outra ocasião, republicado agora por conta das polêmicas sobre o livro adotado pelo MEC.  

           

           Cena 1. Na aula sobre preconceito lingüístico, o professor pergunta: quem conhece alguém que fala “pobrema”? O aluno, atento, responde sem pestanejar: “eu conheço professor, a empregada lá de casa!” O professor concorda: “é bem possível mesmo, pois entre as empregadas domésticas haverá uma chance maior de encontrar pessoas não-escolarizadas ou falantes de uma variedade não-padrão do português. É necessário, no entanto, não nutrir preconceitos contra quem fala assim. Ela não fala errado, mas diferente da norma culta”.

            Cena 2. Em casa, uma aluna atenta à aula comenta com a mãe: “o professor falou que empregadas domésticas falam ‘pobrema’”. Indignada, a mãe liga imediatamente para a escola: “Quero denunciar o absurdo que andam dizendo nessa escola. Minha empregada não é ignorante. Nunca vi ela falando ‘pobrema’. Isso é preconceito!”.

           

            As cenas acima exemplificam bem a ignorância linguística que perpassa a mente dos brasileiros em geral. Melhor: daqueles que se acham “esclarecidos”. A mãe, na pretensão de se posicionar ao lado da empregada, indignada porque alguém pode ter sugerido que ela usa a variante “pobrema”, liga imediatamente para a escola para denunciar o professor como um semeador de preconceitos. A atitude é bem reveladora de quem é que na verdade nutre preconceitos; a quem pertence, no fundo, a ignorância. Para a mãe, seria uma ofensa acusar sua empregada de falar “pobrema”; mesmo que, sem perceber, tenha também escorregado na norma culta quando disse “nunca vi ela” e não “nunca a vi”. O motivo: isso é coisa de ignorante, gente burra, que “não sabe falar”. Onde já se viu falar assim da minha empregada? Dessa forma, no afã de parecer tão “politicamente correta”, a mãe acaba sendo linguisticamente preconceituosa; é bem provável que, se precisasse de uma nova empregada, não contratasse uma que falasse que precisa do emprego porque a falta de dinheiro tem lhe causado “muitos pobrema”. Para o professor, que tentou ao máximo desmistificar um preconceito que, mais que usado, é incentivado pelos principais meios de comunicação, não há problema no uso de “pobrema”. Ninguém é inferior, ou ignorante, ou burro, porque usa uma variante diferente da padrão. É claro que é melhor, desejável e necessário que todos adquiram a norma padrão. Mas não há ofensa quando se diz que uma variante não-padrão é mais facilmente perceptível em um determinado estrato da sociedade.  

            Em matéria de preconceito lingüístico, o funcionamento é às avessas: quem corrige a fala “errada” mostra, na verdade, ignorância. Uma outra forma de dizer isso é que, em matéria de língua, o problema normalmente está em quem ouve, não em quem fala.

 

PS: Abaixo, dois extratos da coluna no Terra do professor Sírio Possenti, que vale a pena ser lida na íntegra:

 

PS 1 - todos os comentaristas (colunistas de jornais, de blogs e de TVs) que eu ouvi leram errado uma página (sim, era só UMA página!) do livro que deu origem à celeuma na semana passada. Minha pergunta é: se eles defendem a língua culta como meio de comunicação, como explicam que leram tão mal um texto escrito em língua culta? É no teste PISA que o Brasil, sempre tem fracassado, não é? Pois é, este foi um teste de leitura. Nosso jornalismo seria reprovado.

PS 2 - Alexandre Garcia começou um comentário irado sobre o livro em questão assim, no Bom Dia, Brasil de terça-feira: "quando eu TAVA na escola...". Uma carta de leitor que criticava a forma "os livro" dizia "ensinam os alunos DE que se pode falar errado". Uma professora entrevistada que criticou a doutrina do livro disse "a língua é ONDE nos une" e Monforte perguntou "Onde FICA as leis de concordância?". Ou seja: eles abonaram a tese do livro que estavam criticando. Só que, provavelmente, acham que falam certinho! Não se dão conta do que acontece com a língua DELES mesmos!!

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 14:41:01
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Domingo , 15 de Maio de 2011


O mal que faz uma má teologia

 

            Você assiste a cenas de crianças obrigadas a fazer do hospital sua própria casa na espera de um transplante de coração; você vê crianças carecas por causa da quimioterapia que tenta combater seu câncer; você vê crianças com os membros decepados em terremotos e inundações; você sabe que crianças afegãs serão mortas por causa de uma suposta guerra ao terror. E, diante de tudo isso, seu pastor diz que tudo o que acontece é um decreto divino: o transplante não vem, o câncer não é curado, as crianças morrem por catástrofes e atentados porque tudo está previsto e determinado pela vontade de Deus. E aí você, que tem um mínimo de sensibilidade, que abriga um pingo de compaixão, que consegue ser um pouco mais que um poço de indiferença, não aguenta, e só pode dizer como Ivan, o irmão ateu de Aliocha de Os irmãos Karamazov: se esse é o preço necessário para perfazer a harmonia do mundo, devolvo meu bilhete, recuso-me a assistir ao espetáculo, seu preço é alto demais.

            Milhares de pessoas têm devolvido seus bilhetes. Isso se traduz em ateísmo, em ódio contra instituições religiosas, em indiferença pura e simples para com qualquer assunto que minimamente invoque o nome de Deus. Conversava com uma brilhante professora universitária brasileira que dizia que sua indiferença às questões religiosas se dava, em grande medida, por aquilo que considerava excessivas bobagens ditas pelo padre na catequese; um outro rapaz, estudante de História, falava de seu agnosticismo motivado pelas atitudes de um pai que desbravou o Brasil pregando o evangelho mas não fez o mínimo suficiente para servir de exemplo a seus próprios filhos; isso para não falar dos milhões de anônimos que padecem sob o fardo pesado de uma religiosidade que sufoca seu potencial crítico e mina suas capacidades criativas.

            À professora, pude falar um pouco sobre uma teologia que trata os dogmas não como verdades intemporais, mas como símbolos que devem ser preenchidos com significados existenciais cambiáveis, adaptáveis de forma a conferirem respostas às perguntas contemporâneas. Isso que aprendi com Paul Tillich não “converteu” a professora, mas permitiu que ela percebesse que fé não precisa ser, como mais se vê, sinônimo de sacrifício racional. Ao estudante de História, tive que dizer que seu pai se perdeu por conta de uma teologia da onipotência, decepcionado por ver seus esforços de evangelização frustrados, resultados incabíveis diante de um Deus que tudo pode. Impressionante como ele me ouviu atenciosamente, surpreso diante do que deveria ser seu primeiro contato com uma “heresia” proferida por um cristão. Junto às poucas pessoas com quem tenho tido contato ao longo desses anos tenho visto o efeito libertador de uma teologia arejada, capaz de ser mais que mera ponte de transmissão entre o século XVII e o XXI.

            Quantas vidas têm sido perdidas por causa de uma má teologia? Quantas mentes brilhantes têm obrigatoriamente sido afastadas de Deus porque não têm contato com outro discurso teológico senão esse que aí está, infelizmente ocupando toda visibilidade? Quanta gente tem sido sufocada por uma teologia barata, incapaz de dizer qualquer coisa que seja mais que a repetição do senso comum sobre Deus, esse discurso idolátrico incapaz de ir além dos dogmas criados em outras épocas e culturas? Quantas capacidades criativas têm sido abafadas pela estreiteza conceitual de pastores preguiçosos, acomodados, burros e, não obstante, arrogantes?

            Dia desses assistia a uma entrevista de Leonardo Boff (youtube – “Leonardo Boff sempre um papo”). Ele contava de seu convívio com um Darcy Ribeiro (cuja entrevista ao Roda Viva é imperdível) já moribundo, Darcy que, em seus últimos momentos, perguntou: “Boff, como é que eu vou chegar lá em cima?” Em resumo, Boff responde (após um breve comentário sobre o apreço do autor de O povo brasileiro por palavrões): “Darcy, Deus pra você tem que ser mulher, não pode ser um homem. Deus é mãe... você vai cair nos braços de Deus-mãe e ela vai dizer: Darcy Ribeiro, filho da puta, eu morri de saudade de você, finalmente você veio!” Após isso, Darcy diz: “Por que ninguém me falou assim de Deus... Essa ideia é tua ou é da igreja?” Boff responde: “É de Jesus Cristo...” Qual a grande questão presente na cena acima? Na minha opinião: “por que ninguém me falou assim de Deus?” Imagine uma mente como a de Darcy Ribeiro “cativa” à obediência de Cristo?

            Às vezes pode parecer que a militância nesse estreitinho mundo evangélico é coisa de somenos importância. E até acho que é, se se restringir somente a uma perspectiva “religiosa”. Contudo, sempre que há vidas envolvidas, as quais podem ser libertas da religião pelo evangelho ou passarem uma vida sob fardos pesados e demandas por desempenhos nunca satisfeitos, tudo isso entremeado por doutrinas etéreas, decretos fatalistas e discursos castradores, sim, quando há vidas envolvidas, o esforço nunca deverá ser considerado desperdício. Também temos que falar do bem que faz uma boa teologia.

Escrito por Leandro T. Almeida às 14:55:01
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Sexta-feira , 22 de Abril de 2011


 

Algumas poucas palavras sobre o Gondim

 

            Como é sabido, Ricardo Gondim tem levado pancada de todo lado. De todo lado no meio evangélico, melhor dizendo. Os conservadores das igrejas tradicionais o chamam de herege, os pentecostais não admitem sua irreverência, o outrora astro Caio Fábio o chamou de “bundão” (e foi mais um nome colocado em sua lista de “bundões”...). Pessoalmente, não tenho nada contra o Gondim, pelo contrário: é mais que comum de minha parte concordar com os textos que publica em seu site (e também com seus “tweets”, embora o microblog forçosamente condense ideias que valeriam a pena ser desenvolvidas, o que é uma pena), razão pela qual escrevo este texto.

            Acredito que os críticos do Gondim não se dão conta de uma série de coisas. Talvez uma das mais importantes é perceber que ele não está propondo uma nova “dogmática” em lugar da atual, uma nova “confissão de fé” a ser adotada pelas igrejas evangélicas, um novo corpo de doutrinas que ocupe o lugar do já existente. Em outras palavras, Gondim não me parece nem um pouco disposto a ser visto como fundador de qualquer movimento doutrinário na igreja, muito menos do chamado “teísmo aberto”, como alguns, aliás, sugeriram. Longe de ser mera reação, as intervenções gondinianas podem ser tomadas como uma voz de protesto contra a letargia do pensamento no mundo evangélico, contra o senso comum travestido de palavra de Deus que grassa entre as igrejas, contra uma recusa do raciocínio por atitudes de fé que não são outra coisa senão uma desonra à capacidade intelectual de que fomos dotados pelo Criador. Não me parece que o Gondim queira rasgar a dogmática do Louis Berkhoff para escrever a sua dogmática (se bem que...). Seus críticos, portanto, poderiam bem recebê-lo de forma menos defensiva e agressiva, atitudes típicas de quem quer guardar posição, de quem se acha no dever de defender sua propriedade, seu quinhão. A maturidade dos evangélicos se percebe em sua absoluta incapacidade para o diálogo e para a polêmica (por que não pensar que a polêmica pode ser uma excelente pedagogia?).

            As palavras do Gondim revelam, ainda, uma disparidade: a existente entre a profunda empatia com os seres humanos (sejam eles brasileiros, japoneses ou indonésios...) e a abissal indiferença e mesmo crueldade do discurso teológico tradicional. Escondido sob a rubrica de “Palavra de Deus” esse discurso, no fundo, não lamenta profundamente o sofrimento e o mal, simplesmente porque estes (manifestados em acidentes, catástrofes, ditaduras, doenças) são uma comprovação de que sua teologia é verdadeira: um mundo decaído e um homem totalmente depravado devem ser evidenciados pelas várias facetas do mal no mundo, razão pela qual podemos até lamentá-lo, mas contra o qual não devemos ficar profundamente indignados. Ao fim e ao cabo, ele é confirmação da maldição divina pelo pecado original (a pedra de toque da antropologia mais hostil ao ser humano já produzida até hoje). Percebo no Ricardo Gondim um coração transbordante de compaixão, uma alma que quase arrebenta o peito diante da dor alheia e, nessas condições, toda teologia quadradinha tem mesmo que ir pro espaço, virar fumaça, ser moída no cadinho da vida vivida, da experiência concreta. O que o Gondim tem feito é uma teologia de protesto contra a desumanização da teologia.

            Nesse sentido, é inevitável que conceitos caros aos guardiões da “sã doutrina” sejam abalados. Um deles é o que lhes confere mais segurança: a (maltratada) doutrina da Soberania de Deus. Soberania que implique em fatalismo não combina absolutamente com compaixão. Excessiva compaixão, aliás, pode sugerir, sub-repticiamente, um protesto contra os decretos divinos. Não espanta que os conservadores sejam tão contidos diante dos males que assolam a sociedade brasileira, por exemplo. Nesse ponto, acho que o Gondim concordaria plenamente com o que Jacques Ellul escreveu em um livro soberbo, La subversion du christianisme. Ao mostrar o quanto a ênfase no pecado conduziu o homem ao niilismo, e ao desdobrar sua argumentação no sentido de considerar as implicações da criação como um ato divino, Ellul escreve: “A história é habitada, ao mesmo tempo em que se faz, por uma relação que se desenvolve em um certo sentido, positivo mas não descritível, uma relação onde o criador assegura que o fim não é o caos ou o Nada, nem a repetição pura e simples do melhor dos mundos. Se o fim positivo nos é assegurado, o caminho atual que é deixado a nossa iniciativa é indefinido e aleatório. A obra final depende das realizações sucessivas da humanidade que Deus acolhe, salva e retoma, assumindo-as” (p.173). Como levar mais a sério a ideia de que somos cooperadores de Deus? Gondim nos faz pensar de forma mais séria em nossa responsabilidade, tantas vezes jogada nas costas de um Deus imutável e impassível.

        Diria que ele tem feito, portanto, uma "teologia de migalhas, ou seja: sem construir um sistema teológico, tem dado contribuições preciosas, pequenas pepitas, que nos permitem repensar a presença de Deus na vida, o seguimento de Jesus Cristo, a habitação pelo Espírito Santo. Não é pouca coisa. E no meio de tanto tiroteio, essa é minha expressão de solidariedade e profunda empatia. 

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 09:40:20
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Sexta-feira , 15 de Abril de 2011


Um convite aos desprendidos

 

Prevalece na IPB um sistema de “plantação de igrejas” mais ou menos nos seguintes moldes: envia-se um pastor a um campo de trabalho, que ou não conta com qualquer grupo presbiteriano ou somente com algumas famílias, e se espera que ele organize uma igreja e a faça crescer. Para que esse crescimento ocorra, a tolerância é de cinco anos, aproximadamente. Há lugares em que chega a quatro. Nesse tempo de trabalho, o pastor é intensamente cobrado com base em apenas um padrão de avaliação: numérico. Os relatórios a serem preenchidos não têm campos como: “plano de estudos pessoais”, “plano de ensino à igreja”, “comentários sobre o desenvolvimento espiritual das pessoas”, mas estão repletos de tabelas ávidas por quantidades: “batismos”, “visitas”, “sermões” e, sem qualquer ironia, mais importante que tudo, “arrecadação”. Espera-se, portanto, que em curto prazo de tempo esse obreiro reúna pessoas, discipule, batize e arrecade dinheiro suficiente não só para manter a estrutura do trabalho (aluguel do salão, água, luz e material de ensino), mas também para seu próprio sustento.

            Há, no entanto, um certo mal estar pairando no ar. Os dirigentes, responsáveis à distância por esses campos de trabalho, cobram insistentemente os resultados. Os pastores nos campos, por sua vez, encontram muitas dificuldades para conseguir o que se espera deles em tempo tão exíguo, convivem constantemente com a angústia do prazo que se esvai rapidamente e a lentidão no alcance das metas propostas pelos seus responsáveis.

            Quase que invariavelmente, uma única parte de todo esse processo é responsabilizada pela dificuldade de implantação desse campo: o pastor que lá está. Ele não trabalha direito, não gasta tempo suficiente, não faz trabalhos de evangelização, não distribui folhetos, não visita o quanto poderia etc. Parece não se levar em consideração outros fatores, tais como: as características culturais do lugar (uma coisa é a recepção do Evangelho no sudeste, outra no sul, outra no nordeste), a presença de outras religiões e/ou igrejas evangélicas nas proximidades, o histórico da presença do Evangelho na cidade, a viabilidade e mesmo necessidade de um trabalho com características presbiterianas no local etc. Essas variáveis deveriam ajudar a planejar o trabalho de forma a permitir que ele adquira contornos próprios, mais condizentes com as características de determinada região, poderiam aumentar o prazo estipulado para os primeiros resultados consistentes, oferecer recursos diferenciados aos pastores dependendo da região em que estão e adaptações afins, sabendo-se que o Brasil apresenta uma vasta gama cultural que diferencia os modos como os trabalhos devem ser executados. Parece estar escrito em algum livro bíblico que o culto deve ser à noite, que deva haver duas reuniões semanais ou que um sermão seja insubstituível por um estudo, por exemplo. Para não falar daquele conhecido texto que institui as sociedades internas... Mas o mais importante seria tomar a atitude de admitir que um trabalho possa cumprir com sua tarefa cristã ainda que não alcance as metas eclesiásticas propostas. Que se analise caso a caso e, em se confirmando a hipótese, que se mantenha o trabalho com o dinheiro das igrejas maiores. O dinheiro é servo, não senhor da igreja.

            Nota-se também que, geralmente, nessa culpabilização dos pastores, seus responsáveis, também pastores, apresentam um discurso pronto que os exime de responsabilidade e, ao mesmo tempo, supostamente os credencia para a crítica: “no meu tempo plantei muitas igrejas”, “atualmente minha igreja tem várias congregações”, “é necessário maior empenho dos obreiros”, “quando se trabalha o resultado aparece” e por aí vai. Ressalte-se, ainda, que cada um desses responsáveis (normalmente instalados em igrejas centrais) normalmente se apresenta como chamado por Deus para a pregação do Evangelho e diz estar pronto a ir para onde Deus o enviar.

            Pois bem: se muitos dos atuais obreiros têm sido incompetentes para plantar igrejas onde elas ainda não existem, por que os responsáveis, em um gesto de desprendimento e amor à obra não assumem, eles mesmos, campos incipientes, para que onde não há igreja passe a haver em apenas cinco anos? Se estabelecem esse prazo, devem acreditar que ele é suficiente. Poderiam deixar suas grandes igrejas sob a responsabilidade de outros pastores, uma vez que se trata de trabalhos já consolidados, que não correm o risco de fenecer, para dar origem a novos campos. Se são tão aptos a esse trabalho, como transparece em suas cobranças aos que não têm conseguido os resultados esperados, por que não o empreendem? Se suas vidas são devotadas ao Evangelho mais que tudo, como afirmam, por que não gastá-la para a salvação de pessoas perdidas? É o “chamado”, ou prestígio e conforto que determinam a agenda de trabalho? Se já foram plantadores no passado, por que não continuam com o mister, ainda em nome da salvação de pessoas que podem, a qualquer momento, morrer e passar a eternidade no inferno, como afirma sua teologia? 

             É fácil demais aos supervisores impor prazos, determinar condutas, estipular metas e meramente cobrá-las, à distância, no conforto de uma igreja já consolidada, que paga em dia salários nada desprezíveis, as quais assumiram, normalmente, depois que já estavam formadas, fruto do pioneirismo de pastores do passado. Igrejas que foram implantadas, diga-se, em processos históricos lentos e trabalhosos. No Presbitério de Indaiatuba, por exemplo, das doze igrejas existentes, simplesmente nenhuma delas se formou em cinco anos. É que há um detalhe: foram gestadas nos bons tempos em que a lógica do Mercado não determinava a agenda da Igreja.

Escrito por Leandro T. Almeida às 18:32:23
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Sábado , 09 de Abril de 2011


Não sei se vale a pena, mas…

 

            Fiquei pensando se valeria a pena gastar tempo escrevendo sobre o Caio Fábio. Como, no entanto, o que me motivou foram suas recentes palavras sobre o Ricardo Gondim, pessoa que admiro, resolvi expressar minha opinião, ciente de que ela não dará publicidade ao antigo astro da Vinde, condição que interditaria de todo meu pobre empreendimento.

            Para quem não tomou ciência, Caio Fábio expressou toda sua indignação diante das palavras do Gondim sobre o tsunami no Japão, que têm a mesma feição daquelas pronunciadas por ocasião do tsunami na Indonésia: é difícil, diante de tragédias como essas, continuar a pensar em Deus nos velhos moldes tradicionais de uma providência onisciente e onipotente que abriga todas as calamidades sob os recônditos de planos e decretos imutáveis. Caio se zangou. Chamou Gondim de “bundão” umas dez vezes em dez minutos, disse ter “perdido a paciência”, desafiou o antigo amigo para uma discussão intelectual e difundiu toda sua ira por meio desses áudios e vídeos que faz circular na internet.

            Passei a ter certa curiosidade sobre Caio Fábio depois de seus áureos tempos. Assisti a alguns vídeos e li algumas poucas coisas que ele escreveu em seu site. Chamou-me a atenção uma de suas afirmações, aliás recorrente, que dizia que não devemos dizer nada sobre Deus, razão pela qual, aliás, ele não lia os que os teólogos escrevem porque são todos discursos inúteis sobre aquilo que não podemos apreender. Sua afirmação era a de que “Deus é” e isso, pretensamente, seria tudo. Mas aí a coisa começa a ficar incoerente. “Deus é” é uma afirmação teológica e filosófica das mais densas, malgrado nosso costume com ela. Uma simples pergunta revela isso: por que não “Deus faz”, ao invés de “Deus é” (como, aliás, defende E. Wright em seu livro O Deus que age)? Ou “Deus sente”, “Deus fala”? A opção por “Deus é” já é teológica, conta com um pano de fundo filosófico que remete a Aristóteles e que recebeu, nos séculos subsequentes, tratamentos da mais alta densidade: que se pense em Heidegger (O ser e o tempo) ou Sartre (O ser e o nada), isso só no século XX. Caio, portanto, é muito simplista ao dizer que sua afirmação não porta já uma teologia. Além disso, ela omite o fato de que ela não é uma decorrência direta da leitura da Bíblia, em que Deus, aliás, nunca “é” pura e simplesmente, mas é sempre marcado por sua ação (por meio de sua Palavra) ou por um predicado: Deus “é” Amor, Luz, Espírito etc. Talvez de Zeus se possa dizer que ele simplesmente “é”, afirmação abstrata demais para o gosto de Javé...

            Essa postura de Caio Fábio é reveladora de uma fé que podemos chamar de gnóstica. Não eram os gnósticos que se diziam possuidores de um conhecimento especial, interditado aos demais, o que lhes conferia saberes exclusivos que lhes davam direitos sobre os pobres mortais? Caio é um gnóstico: de seu trono (mormente com dois ou três vassalos) julga a todos, condena todo o conhecimento teológico, diz ser inútil toda a filosofia, ofende gratuitamente quem pense de forma diferente da sua, tudo isso usando como justificativa seu conhecimento e relacionamento pessoal com Cristo. Ele fala como se fosse um dos únicos (às vezes dá a impressão que o único) a conhecerem verdadeiramente o Filho de Deus, saberem o que a fé nele significa e o que deve gerar. Os que não são concordes recebem a pecha de “bundões”, “covardes”, “carentes de conversão” e por aí vai. Uma das diferenças do cristianismo em relação a outras religiões é sua plasticidade, seu caráter amplo e variado que não quer fazer dos fieis meros símiles uns dos outros. A diversidade, a variedade de pensamento, a riqueza de expressões e interpretações são, ou ao menos deveriam ser marcas da fé cristã. É isso que Caio Fábio interdita com suas intervenções verborrágicas. Ele sonha com uma massa de cristãos que seja sua imagem e semelhança. Acho, na verdade, que tem saudade dos tempos de outrora. Falta-lhe também humildade para reconhecer que muito do que diz só pode ser dito por conta de estudos empreendidos por teólogos que se debruçaram sobre os meandros do texto bíblico e chegaram a conclusões que permitem relativizar as afirmações mais tradicionais sobre muitos pontos; sua argumentação a respeito do dízimo é um exemplo disso. Depois de ter usado uma escada para escalar o muro, agora, do alto dele, a despreza, como se dela nunca tivesse precisado.

O menos trágico disso tudo é que Caio Fábio só goza de certa ressonância no estreito mundinho evangélico, esse mesmo que se tornou sua obsessão desde sua “queda” (a qual, aliás, de forma patética, atribui às pessoas que o ouviam, como se fosse mera vítima dos que lotavam ginásios para ouvi-lo). Ao sair dele e basear-se nesse fideísmo gnóstico não encontrará interlocutores entre aqueles que não se deixarem seduzir por sua bela retórica.

 

P.S.: Caio Fábio escreveu o seguinte texto em seu site: “Amar moralmente significa amar enquanto a pessoa se comporta como a gente. Se ela for diferente ou se tornar diferente, ou mesmo tiver um comportamento diferente, mesmo que tal coisa seja apenas na área particular e privada ou envolva apenas uma decisão de foro intimo, nesse dia, tal pessoa perderá todos os seus “amados”, pois era amada apenas moralmente. Para esses, o irmão é o igual, e o próximo é apenas aquele que lhe é semelhante. Ora, Jesus mandou amar até o inimigo, quanto mais o diferente! Além disso, Ele disse que amar os que nos amam e tratar bem os que nos tratam bem é apenas um comportamento pagão, posto que é assim que qualquer pagão, minimamente, trata um ao outro”. Comentário meu: Caio não lê os próprios textos que escreve. A não ser que chamar alguém de “bundão”, com a raiva com que o fez, seja expressão de amor superior à dos pagãos...  

Escrito por Leandro T. Almeida às 17:15:53
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Quarta-feira , 06 de Abril de 2011


Um exercício fundamental no âmbito da fé cristã

 

            Como pode acontecer que coisas tão essenciais para a fé cristã sejam solenemente ignoradas na prática e na teoria cotidianas de seu exercício? Uma dessas coisas é muito bem dita por Edward Schillebeeckx no terceiro tomo de sua cristologia (algo como “A história dos homens, narrativa de Deus”). Ele mostra que essencial à fé cristã é seu empreendimento de apropriação da mensagem original do Evangelho e sua tradução para os horizontes das diferentes culturas e épocas em que esse mesmo Evangelho é recebido. Dessa forma, a verdade do Evangelho sempre se dará em uma mediação continuamente móvel, como móveis são as culturas e as formas e capacidades humanas de compreensão: “a autenticidade do sentido evangélico não é dada de antemão no nível da Bíblia e da tradição de fé do passado, ao menos não como tais. Ela não pode então consistir na repetição material desse passado”. Penso que ele se refere aqui às formulações linguísticas que deram materialidade ao sentido da fé, tanto no mundo bíblico quanto em suas diversas tradições posteriores. É claro que, ao afirmar isso, ele não está dizendo “que a verdade não existe”, essa formulação que parece ser a tara dos fundamentalistas. O nível de reflexão aqui é mais profundo e menos neurótico. Basta ler suas palavras com atenção: “Só se pode procurar a autenticidade de sentido no espaço intermediário, movente, no indo e vindo entre tradição e situação, portanto no nível da relação de correspondência entre a mensagem original (tradição onde a situação da época foi apreendida) e a situação sempre nova, hic et nunc [aqui e agora]”. “Relação de correspondência”: eis uma categoria que deveria sempre estar diante de nós na leitura da Bíblia. Ela nos levaria à seguinte conclusão: pode se dar que a repetição literal de alguma passagem bíblica seja totalmente contrária ao sentido da fé cristã depreendida do conjunto da mensagem bíblica. Como diz Schillebeeckx, a autenticidade da mensagem está no “espaço intermediário” de atualização da mensagem, que deve levar em consideração com toda seriedade as diferenças culturais entre o mundo bíblico e o nosso. Outro termo importante é dado a seguir: “A identidade cristã, sempre única e idêntica a ela mesma, não é jamais reprodução da mesma coisa mas igualdade proporcional”. Levar a sério essa “igualdade proporcional”, ou seja, fazer um esforço para apreender o sentido de uma formulação em seu primeiro momento de utilização para poder traduzir esse sentido em uma nova formulação se preciso for significa, por exemplo, perceber o sentido de abrangência utilizado por Paulo quando fala da predestinação (em conflito com judaizantes exclusivistas) e ver o quanto é impróprio utilizar esse termo hoje para defender uma restrição do alcance salvífico presente em Cristo (restrição que só faz repetir a atitude judaica contra a qual Paulo lutou). Essa mesma atualização, que procurará perceber a força de que um termo se revestiu no passado para tentar adaptá-lo às demandas contemporâneas, precisa ser feita simplesmente para o todo dos dogmas que constituem o conjunto descritivo da fé cristã, e isso em um movimento contínuo que não significa outra coisa senão apreensão e reverência diante da Verdade Encarnada em Jesus Cristo (que se pense, nesse sentido, no lugar atribuído à mulher pela igreja hoje, (pretensamente) baseado em textos bíblicos, para se perceber se realmente faz jus às justas lutas por emancipação e reconhecimento empreendido por elas e à imagem que delas se extrai nos Evangelhos; os exemplos, evidentemente, podem ser multiplicados).

                 Em um sentido mais prático, no entanto, a luta parece inglória. Ao ignorar essas questões, que podemos chamar de hermenêuticas, erigimos dogmas e doutrinas como verdades inquestionáveis, nas mesmas formulações com que a tradição as cristalizou, e que se tornam, por isso, imutáveis, sagradas, sequer discutíveis. O próprio Shillebeeckx atentou para isso e, ao final do capítulo em que discute essas questões, refere-se àqueles que dizem aos cristãos que têm críticas contra suas igrejas que deveriam simplesmente deixá-las: “se você não aceita as regras do jogo, as do futebol, por exemplo, vá jogar beisebol!” A questão, contudo, adverte o teólogo, é que uma igreja, embora tenha suas regras, não pode ser comparada a uma federação de esportes, porque é uma “comunidade de intérpretes”, o que pressupõe o direito à interpretação da mensagem cristã por parte dos seus membros. Lutar para que a igreja seja efetivamente uma “comunidade de intérpretes”: eis uma boa bandeira de luta.

Escrito por Leandro T. Almeida às 16:04:49
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Domingo , 27 de Março de 2011


Se é que é isso mesmo

 

            Verdade e método, de Hans-Georg Gadamer, é daqueles livros que parecem conferir prestígio tão logo são objeto de citação. Lembro-me, ainda calouro, de um seminarista do quarto ano (sempre tão avançados enquanto no Seminário; já depois que saem dele...) que fez referência ao curso de hermenêutica que tivera um ano antes dizendo que, nele, “lemos os textos que se leem na Unicamp”, e uma dessas leituras era o livro em questão. Mas digo isso porque, mesmo para ser atacado, Gadamer parece gozar de certa preferência. Um de Nossos Sábios[1] disse que “Gadamer escreveu um livro para dizer que a verdade não existe”. De forma diferente e bem mais honesta, vemos referências ao autor alemão nos escritos de Paul Ricoeur, por exemplo, para falar da “fusão de horizontes” no processo hermenêutico. Pois bem: achei que valeria a pena, aproveitando-me do tempo disponível e do custo de uma tradução em francês três vezes mais barata que sua correspondente em português, encarar a famigerada obra.

            De cara, uma surpresa: a tão falada “fusão de horizontes” ocupa uma parte diminuta das considerações do teórico da hermenêutica. Digo surpresa porque, sempre que ouvi falar desse livro, invariavelmente isso se deu para aludir a essa fusão. Mesmo em Ricoeur é assim. A questão posta por Gadamer, no entanto, é mais abrangente que essa. Seu interesse é o de investigar os limites do conhecimento possíveis pelas metodologias científicas. Há verdades manifestas nos domínios da arte e da própria história que não são necessariamente atingíveis pelos “meios metodológicos de que a ciência dispõe”. A arte, nesse sentido, ganha um estatuto heurístico (relativo ao conhecimento) bastante nobre: “Os estudos que seguem começam, por esta razão, por uma crítica da consciência estética, para defender a experiência de verdade que nos é comunicada pela obra de arte contra a teoria estética, que se deixa restringir pelo conceito de verdade que é aquele da ciência”. A partir dessa divisa presente na introdução, o livro se detém em grande medida na explicitação da “‘Subjetivação’ da estética pela crítica kantiana”. São páginas densas, das quais, se entendi 20%, é muito. Por isso mesmo me contentei em aproveitar os “lances” que me eram possíveis, algumas boas reflexões sobre, por exemplo, a importância da experiência para o processo do conhecimento (“Isso a que damos resolutamente o título de ‘experiência vivida’ é então qualquer coisa de inesquecível e insubstituível, de fundamentalmente inesgotável para a determinação de seu sentido na compreensão”), o valor da experimentação mimética na arte (“a relação mimética original que discutimos implica então não somente que o representado esteja presente mas também que sua vinda à presença tenha ganhado em verdade: imitação e representação não são somente repetição que copia mas conhecimento da essência”), ou o papel do autor empírico em relação à interpretação de sua própria obra (“Daí resulta também – isso que a hermenêutica não deveria jamais esquecer – que o artista que cria qualquer coisa não é seu intérprete qualificado. Na medida em que é intérprete, ele não goza em princípio de nenhuma vantagem de autoridade em relação aos simples receptores de sua obra. Na medida em que ele mesmo reflete, ele se torna seu próprio leitor. A opinião que ele tem enquanto reflete não se constitui em autoridade. O critério de interpretação se encontra unicamente no conteúdo de sentido de sua criação, naquilo que ela ‘quis dizer’”).

                  A “fusão de horizontes” está lá, claro, comparecendo como um esforço de conhecimento do passado pelo presente que, grosso modo, não captura um passado intacto tal como efetivamente se deu, mas que, por sua vez, não fica indiferente ao contato com aquilo que já passou. Passado e presente se fundem, de forma que ambos não são os mesmos nesse processo. O conhecimento, assim, não é algo neutro, algo que poderíamos meramente “pescar” no passado sem envolvimento pessoal com ele. O conhecimento gera algo diferente, transformado. Daí a “fusão” da “fusão de horizontes”.

             Dessa experiência de leitura, duas rápidas conclusões: a primeira é que é preciso desconfiar das generalizações excessivas. Verdade e método não é um livro sobre “fusão de horizontes”, mas relacionado aos meandros da epistemologia, ou, no mínimo, da possibilidade de verdade de discursos não científicos. Difícil encontrar um termo que englobe toda essa complexidade; a segunda conclusão é que quem diz que esse livro foi escrito para dizer “que a verdade não existe” é intelectualmente desonesto, porque reproduziu uma informação de terceiros e a difunde sem sequer se preocupar em conferir sua veracidade. “Mas quem disse isso poderá ter lido a obra”, retrucará o cioso leitor. Bom, nesse caso não é desonestidade. É burrice mesmo.



[1] Assim como o jornalista Paulo Henrique Amorim cunhou a expressão “Nunca Dantes” para se referir a Lula e “Padim Pade Cerra” para falar de José Serra, dentre outras, aproveito o ensejo para me referir aos iluminados mestres da IPB, encastelados no Mackenzie, como “Nossos Sábios”. Se há aí ironia ou não, deixo por conta do leitor...

Escrito por Leandro T. Almeida às 15:57:15
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Quinta-feira , 17 de Março de 2011


Quem é esse cara?

 

 

             “O homem não está destruindo o planeta. Há recursos suficientes para todos. Nenhuma ameaça paira sobre nosso sistema ecológico”; “a distribuição de renda não é uma boa forma de acabar com a pobreza. O que precisamos é que os ricos fiquem ainda mais ricos para que os pobres se tornem um pouco menos pobres”; “nenhum sistema é melhor que o capitalismo. Comprar, vender e produzir livremente é algo bom. O mercado livre é sempre a melhor solução. Os negócios, em uma sociedade capitalista, são para a glória de Deus”; “terras improdutivas não devem ser desapropriadas pelo governo, porque o dono da terra sempre saberá o que fazer com ela melhor do que qualquer governo”; “a propriedade privada de armas previne cem por cento mais crimes do que os causa. Em meu Estado o uso de armas por parte das pessoas é livre e eu me sinto mais seguro”.

            Quem você pensa que defende ideias como essas? Algum grande empresário voltado unicamente para seus negócios? Um político membro da direita mais retrógrada do planeta? Algum colunista da Veja? Não, caro leitor, nada disso. O autor desses e outros pensamentos é um tal de Wayne Grudem, autor de uma Teologia Sistemática que já vendeu mais de trezentas mil cópias em vários países do mundo, que saiu de seus país, os EUA, para dar uma palestra sobre política em um país a respeito do qual ele não conhece absolutamente nada e que se diz cristão.

            Não devemos julgar as pessoas, é certo, mas a pergunta que lanço não me parece inoportuna: alguém que defende as ideias acima pode ser chamado de cristão? Pois bem, concedamos que o tal de Grudem se confessa cristão, faz suas orações, lê a Bíblia, frequenta uma igreja cristã etc. Como dizia C.S. Lewis, se eu, sendo o que sou, me considero cristão, por que acharia que o outro não pode sê-lo? No mínimo, então, diria: alguém com esse tipo de pensamento – sinônimo do que há de mais conservador, elitista, reacionário – simplesmente não aprendeu nada em todo seu tempo de vida cristã. Depreender tais conceitos diretamente da Bíblia, como fez Grudem em sua palestra no Brasil – no Mackenzie, claro – é prova clara de que ele não entendeu nada – nada mesmo – da mensagem cristã.

            O mais lamentável de tudo reside, no entanto, em outro aspecto. Se Grudem veio ao Brasil (e, repito, um país sobre o qual ficou evidente que ele não sabe nada) para dar palestras é porque foi convidado. E o foi por uma universidade presbiteriana, no âmbito de um congresso cuja organização e palestrantes são em sua grande maioria presbiterianos. Daí a questão: como podem nossos doutores da lei, tão atentos na caça do que consideram heterodoxia, tão vigilantes quanto ao que se ensina nos seminários da denominação, a ponto de retirarem da grade de matérias a disciplina de Teologia Contemporânea e de cogitarem a demissão do diretor de um deles porque um dos palestrantes de sua semana teológica disse algumas bobagens que não chegam aos pés das ditas por Grudem, como podem, continuando, patrocinar uma sequência de besteiras e posicionamentos anti-cristãos por parte de um típico representante do pensamento pretensamente cristão mais conservador do planeta? O que dizer, ainda, dos aplausos recebidos após a palestra e da promessa de empenho na tradução do livro que lhe serviu de base por parte da editora da igreja? Que sinal se evidencia a partir desse Congresso? Para dizer pouco, que os que ora ditam as regras na igreja pouco se importam com o país em que vivem, que aceitam qualquer bobagem política dita nestas terras, que pouco se importam com a adoção de posições políticas as mais retrógradas e prejudiciais aos mais pobres, contanto que tudo isso seja feito sob o manto da ortodoxia. É absolutamente indignante. E, por isso, o post abaixo é um complemento deste

Escrito por Leandro T. Almeida às 19:07:04
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Conservadorismos

 

Qual o significado atual de uma posição política conservadora? Por pior que ele seja, não parece ser, no entanto, tão grave. Pode, ao menos, ser defendido sem criar grandes indignações (no Brasil, os conservadores no poder acabariam com o Bolsa Família, Prouni, Minha Casa Minha Vida, venderiam a Pretrobrás, lamberiam as botas dos americanos e coisas afins). É preciso, no entanto, colocar esse posicionamento em perspectiva histórica, para que seu significado atual seja apreendido ao menos em sua força simbólica, aquilo que representa à luz da lutas humanas de outrora e o que pode vir a significar em uma outra conjuntura social. Se Wayne Grudem e todos os que o aplaudiram e o patrocinaram são politicamente conservadores – ele mesmo fez questão de assumir que o era –, a situação histórica que ora ocupam talvez se esclareça um pouco a partir dos parágrafos seguintes.

Façamos um pequeno exercício escolhendo a esmo alguns momentos da história do Brasil e do mundo. Os teólogos conservadores, para manterem a coerência com seu conservadorismo político inspirado por sua cosmovisão bíblica, teriam se colocado claramente ao lado da Ditadura no Brasil. Aliás, o fizeram. É inegável que, em sua maioria, os pastores presbiterianos apoiaram a Ditadura e a instituição perseguiu os poucos que não o fizeram. O fato é documentado e de difícil refutação. O mesmo não acontece com o Brasil escravocrata do século XIX, ou seja, não temos documentos e mesmo a presença presbiteriana no país é incipiente. Mas fazemos aqui um exercício: reproduzindo a política conservadora decorrente de sua teologia, não é difícil acreditar que tais religiosos seriam defensores da escravidão e não lutariam para exterminá-la, porque essa luta pertencia a setores mais progressistas da sociedade. Não nos esqueçamos, além disso, da base supostamente bíblica invocada pelos norte-americanos para manter sua escravidão. Mais um passo atrás, agora em direção à Alemanha da primeira metade do século XX: a posição política conservadora aderiu ao nacional-socialismo de Hitler e mesmo a igreja luterana não fez oposição a ele. Nesse caso, a oposição veio de teólogos como Karl Barth e Dietrich Bonhoeffer e da Igreja Confessante, que certamente não representavam o espectro político conservador na época. Por que os teólogos que hoje são politicamente conservadores teriam uma prática diferente se tivessem vivido na Alemanha hitleriana? Continuemos nosso exercício e retrocedamos ao século XVI: tais teólogos teriam assinado a petição não só pela condenação de Servetus, mas de qualquer um que tenha sido morto sob a acusação de heresia. Era essa a prática da época, da qual os mais conservadores seguramente não escapariam (e antes que se diga que não se julga um homem fora de sua época, com o que concordo, lembro de Sébastian Castellion, autor de um Tratado dos heréticos lançado um ano após a morte de Servetus, no qual já dizia, dentre outras preciosidades, que “matar um homem, para defender uma doutrina, é matar um homem”). Poderíamos continuar nossa caminhada histórica e seríamos obrigados a ver os teológica e politicamente conservadores atirando pedras em Estevão, lançando Paulo em prisão e colaborando com a crucificação de Cristo (paira alguma dúvida de que a morte do próprio Cristo tenha surgido de um conluio entre judeus e romanos conservadores?).

Talvez a primeira coisa que se poderia dizer desse panorama é que ele é exagerado. É aí que digo: não, nele não há exagero, apenas um raciocínio coerente sendo posto em prática. Se aqueles que se dizem leitores da Bíblia e seguidores de Cristo defendem hoje posições políticas conservadoras, não há porque imaginar que seria diferente em qualquer outro momento da história. Todos esses fatos acima relatados não foram fruto de posições radicais, extremadas, impensáveis e absurdas aos seus contemporâneos, pelo contrário: foram posições razoáveis, argumentadas, defendidas biblicamente, com um detalhe: politicamente conservadoras. Não chocaram terrivelmente quem se opôs a elas como hoje chocariam a escravidão e a morte sob acusação de heresia, por exemplo. Daí que uma linha deve continuar a ser traçada e ela só ficará clara, evidentemente, daqui a algumas décadas: o conservadorismo político hoje em dia está tão ao lado de Cristo quanto estiveram cada um desses conservadorismos políticos de que demos exemplo acima. Amenizo essa associação lembrando que, em regimes democráticos (com todas as falhas e defeitos que apresentam), nem sempre a posição conservadora será sinônimo de grande mal à humanidade. Mas não posso deixar de considerar que ainda há tanta miséria, tanta desigualdade, tanta diferença de oportunidade entre as pessoas por conta de políticas conservadoras. O sr. Wayne Grudem e sua plateia, com sua defesa do capitalismo, do livre mercado, da propriedade privada – mesmo de terras improdutivas – que o diga.    

           

Escrito por Leandro T. Almeida às 19:03:53
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Sexta-feira , 11 de Março de 2011


Significados secundários de uma prática piedosa

 

            A prática é mais do que difundida, talvez universal entre as igrejas cristãs, mas fiquemos no âmbito das evangélicas: em todos os cultos pede-se perdão pelos pecados; é o momento litúrgico da “confissão”. Gostaria de fazer uma afirmação que pode parecer absurda à primeira vista, mas que explico a seguir: levados a sério, os pressupostos e significados implícitos dessa prática deveriam permitir que os homossexuais fizessem parte da igreja, inclusive como membros batizados.

Pensemos: ao pedir, no mínimo cinquenta e duas vezes por ano, perdão pelos pecados (e há aqui uma grande generosidade no número, uma vez que ele poderia, sem exagero, ser substituído por trezentos e sessenta e cinco), estamos dizendo:

- que pecamos;

- que repetimos os mesmos pecados pelos quais pedimos perdão, uma vez que seria difícil encontrar cinquenta e duas variações de pecados em uma lista que pode bem se resumir a dez, a dois ou mesmo a um, dependendo da “teologia do pecado” que se adote;

- que há alguns pecados dos quais não conseguimos nos livrar, não obstante nosso esforço (sempre nos dizemos arrependidos pelos pecados, mas voltamos a cometê-los);

- que acreditamos no perdão oferecido por Deus em Cristo apesar de continuarmos a ser pecadores.

- que achamos o culto a Deus aceitável mesmo sabendo que o pedido de perdão de pecados será repetido no culto seguinte.

            Qual o motivo, portanto, para não aceitar que casais homossexuais, que professam a fé em Cristo e sejam fieis e estáveis em seus relacionamentos (nem mais nem menos que os casais heterossexuais das igrejas), não sejam aceitos na igreja sob a acusação de estarem em pecado ou de não crerem em Cristo? Repitamos a lista, com alguns comentários aplicados à situação dos homossexuais:

- eles se confessam pecadores;

- repetem o pecado da homossexualidade (se é que homossexualismo é pecado, mas digamos que sim, apenas para efeito prático);

- não conseguem se livrar dele;

- acreditam no perdão de Deus;

- acreditam que o culto será aceitável a Deus a despeito de sua situação.

            Penso que as objeções possíveis a essa comparação se enfraquecem e se anulam a partir da prática dominical do pedido de perdão de pecados:

- se os homossexuais estão em pecado, todos os que pedem perdão de pecados também estão, caso contrário não precisariam pedir perdão;

- se o problema é que os homossexuais sabem de seu erro, mas, mesmo assim, continuam a praticá-lo, o mesmo ocorre com os membros das igrejas; como dissemos, não há um número tão grande de pecados disponíveis para que se possa cometer uma variedade diferente para cada dia do ano;

- se o problema é que os homossexuais pecam voluntariamente, o mesmo ato voluntário está na base da confissão de pecados tradicional: se peço perdão por pecados que não sei se cometi, essa confissão se aproxima muito de uma prática religiosa mecânica, tal como a que os evangélicos gostam de condenar nos católicos. Que se lembre, contudo, que esse desconhecimento não faz muito sentido na teoria evangélica: o hino que dizia “se sofrimento te causei ó Deus”, foi mudado para “sim sofrimento te causei ó Deus”, exatamente para que não paire qualquer dúvida sobre os reais pecados cometidos.

- talvez se objete que o pecado dos homossexuais é mais grave que os demais. Mas qual seria a base para essa afirmação? As listas de pecados das cartas paulinas colocam lado a lado impureza sexual e mentira, por exemplo. Além disso, a homossexualidade em nada afeta a vida alheia, como o fazem a fofoca, a maledicência, o amor ao poder, a manipulação das consciências, práticas mais do que comum nas igrejas.

- é possível que reste uma última diferença entre o homossexualismo e os demais pecados: os homossexuais não se arrependem de seu pecado e são contumazes em sua prática, o que evidencia que não são verdadeiramente convertidos ou arrependidos. Como vimos, contudo, o fato de se mostrar arrependimento pelos pecados não evita que os mesmos pecados sejam cometidos. Assim, se há contumácia em relação ao homossexualismo, também há em relação a outros pecados (e sejamos bem sinceros: quantos pastores aferrados ao poder e ao dinheiro têm, aos nossos olhos, o direito de ocuparem os cargos que ocupam?). É preciso também pensar no significado da ação de Cristo na vida. Ela nos livra da condição de pecadores? Se entendermos pecado, aqui, como gestos isolados, é evidente que não. Como dizia Lutero, estamos na condição de simul justus et peccatur, simultaneamente justos e pecadores. Se entendermos pecado como uma condição humana de afastamento de Deus, a reconciliação com o Criador não se dá na medida em que se deixa de praticar atos condenáveis, mas na medida em que se crê que somos aceitos incondicionalmente a partir da fé em Cristo. Essa é a solução de Paulo em Romanos 7, e não consta que a resolução de seu drama tenha se dado na base de ter conseguido vencer o que tanto lhe afligia. Ele continuava a ser pecador segundo a lei da carne, mas se sabia vivificado segundo a lei do Espírito[1]. Não se trata de dizer, portanto, que os homossexuais sejam contumazes e rebeldes ao não largarem sua prática. Talvez não consigam fazê-lo. Mas têm o direito de confiar que Cristo é suficiente para permitir que sejam aceitos por Deus a despeito de sua condição. Essa, aliás, é uma situação que envolve a todos: somos todos aceitos a despeito de não merecermos ser aceitos. Além disso, é preciso que haja por parte da igreja confiança na ação do Espírito de Deus: se alguma transformação tem que se dar na vida do homossexual, por que achamos que essa ação se dará fora da igreja e não nela?

            Seguindo essa linha de raciocínio alguém pode dizer: se é assim, aceitemos também os assassinos, os assaltantes, os estupradores na igreja, afinal de contas, a “igreja é para pecadores mesmo”. Coloco esse argumento porque sei que ele pode ser usado. Sobre ele, diria o seguinte: a comparação entre homossexuais de um lado e, de outro, assassinos, assaltantes e estupradores já é, por si só, indicativa de grande e grave discriminação. Além disso, nesses casos, a prática depõe frontalmente contra vidas humanas alheias, razão pela qual o próprio Estado se encarrega de puni-la. Quem ofende deliberadamente a vida alheia e é contumaz nessa prática nega, pelas suas ações, a própria fé em Cristo. Não é o que acontece com os homossexuais.

            Se há algum ponto da argumentação que incorre em erro, por favor, aponte-me qual é, caro leitor. No mínimo, prefiro errar por excesso que por falta. No caso em questão, excesso de confiança no amor e na graça de Deus. 



[1] Talvez deponha contra o autor o que direi a seguir, mas afirmo que não há leviandade de sua parte. Basta ler seu livro, Rescuing the Bible from fundamentalism, para perceber que a tese de John S. Spong de que o que tanto afligia o apóstolo Paulo era o homossexualismo, se não está correta, recebe argumento, no mínimo, coerente.

Escrito por Leandro T. Almeida às 17:29:01
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Domingo , 27 de Fevereiro de 2011


C.S. Lewis e a Depravação Total

                Quando lemos C. S. Lewis, cada vez mais nos damos conta de que o problema não é o pensamento conservador em si. Lewis era conservador, salvo engano não foi adepto nem mesmo das teologias denominadas depois de “neo-ortodoxas” e é lido e apreciado hoje em dia até mesmo pelos puritanos do século XXI. A questão é que o autor das Crônicas de Nárnia, não obstante seu conservadorismo, era pensador refinado, de grande inteligência. Não era propriamente um teólogo mas falava de assuntos teológicos com propriedade e “sabor”. Mas há uma condição para se chegar a essa medida: é preciso não ser mero reprodutor de dogmas mortos e pensamentos engessados. Lewis não era.

                E tanto é assim que questionou – agora já não me lembro em que livro – um dos pilares mais centrais do pensamento conservador: o dogma da depravação total do ser humano. Sua argumentação caminhava em dois sentidos. No primeiro, dizia que seres totalmente depravados seriam incapazes de criar beleza. Mas Lewis reconhecia que o ser humano é capaz de criar coisas belíssimas, como obras de arte, canções, monumentos, criações essas incompatíveis com a imagem tão destruída que se pinta do homem em estado de depravação total. No segundo sentido, Lewis dizia que seres totalmente depravados não saberiam que são totalmente depravados. Diferentemente dos cães, que não se sabem cães e agem sempre como tal, essa capacidade reflexiva do ser humano coloca em xeque o status de serem tão vis, corrompidos e destituídos de qualquer qualidade. Seres assim, argumenta Lewis, não seriam capazes de sequer reconhecer que são assim... Dessa forma, o fato de o homem poder exercer um olhar sobre si mesmo já o livra dessa condição tão baixa em que a ortodoxia o coloca com base em versículos isolados e descontextualizados tirados a esmo do conjunto dos textos bíblicos (e, segundo Erich Fromm, em O medo à liberdade, com uma motivação baseada no medo de assumir suas próprias decisões).

                Sempre achei que o segundo argumento era melhor. Lembro-me de ter proposto a um professor de filosofia do seminário que respondesse aos dois argumentos de Lewis e sua resposta foi, simplesmente: “Lewis era filósofo e não teólogo”. Faltou-me dizer-lhe: pois bem, o senhor pode até desqualificar o proponente do argumento, mas o argumento continua aí e carece de refutação. Não o fiz e lamento até hoje. Mas, como dizia, a ideia de que o homem tem que ser algo mais que totalmente depravado para poder se reconhecer como totalmente depravado – e aí já não seria totalmente, mas em parte, em alguma medida, muito, pouco, mas jamais totalmente – é um argumento bastante convincente a quem pensa sem fideísmos ou obscurantismos biblicistas. Mas começo a mudar de ideia e me inclino a achar que o primeiro argumento de Lewis é melhor.

                É verdade que o ser humano é capaz de atrocidades abomináveis. Poupo-me e ao leitor de enumerá-las. Fariam jus a um ser totalmente depravado. Mas há um contraponto. O ser humano é também capaz de criações belíssimas. Por que apenas um lado pesa na balança das características ontológicas do ser? Quando o ser humano canta o anseio pelo amor (arrisco-me a exemplos: Sem fantasia, canção de Chico Buarque), reflete sobre as possibilidades semânticas de sua própria linguagem (O quereres, canção de Caetano Veloso), expressa a dor pelas barbaridades da guerra (a tela Guernica, de Picasso), pensa sua presença no mundo (A máquina do mundo, poema de Drummond) de formas tão belas, marcantes, inteligentes, criativas, como podem ser essas expressões produtos de seres totalmente depravados, tão maus, corrompidos, incapazes, maculados, desgraçados como quer fazer crer o dogma?

                Daí que, insolitamente, a quem ainda não consegue ver no ser humano senão corrupção, sugiro antídotos a meu ver poderosíssimos. Além das sugestões acima, adiciono: Chega de saudade (Tom Jobim), Comentários a respeito de John (Belchior), Força estranha e Trem das cores (Caetano Veloso), Clube da esquina II (Lô Borges); Grande sertão: veredas (Guimarães Rosa), Fogo Morto (José Lins do Rego), Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis); a poesia do Mário Quintana, a teologia do Paul Tillich e do Andrés Torres Queiruga e a I Epístola de João, além, claro, de uma experiência amorosa verdadeira. Se, depois de tudo isso, alguém ainda for capaz de pensar o ser humano como totalmente depravado – e só, pois é só o que dizem – não tenho dúvidas: esse alguém deve ser totalmente depravado...

Escrito por Leandro T. Almeida às 09:03:45
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Sábado , 29 de Janeiro de 2011


É mesmo de tolerância que precisamos?

    

       A partir de uma reflexão de

 Slavoj Zizek,

em seu livro Fragile absolu.

           

 

Os que se acreditam tolerantes pedem aos intolerantes que deixem de o serem. Em termos simples é assim mesmo: nós, que nos julgamos tolerantes, e temos em razão em fazê-lo, uma vez que não lutaríamos para expulsar de nosso meio os que pensam diferente de nós se tivéssemos o poder para fazê-lo, esperamos dos que julgamos não tolerantes, e temos razão para fazê-lo, uma vez que lutam para expulsar de seu meio os que pensam diferente deles, e o fazem, na medida em que têm o poder para fazê-lo, que deixem de lado sua intolerância e passem a serem tolerantes.

Esse ardor, no entanto, esconde a verdadeira natureza do problema da intolerância no meio eclesiástico: é questão de poder. Política, portanto, e não pessoal. Mantida nessa esfera das convicções e dos modos de ser que concernem à individualidade, achamos que a grande questão é convencer os intolerantes não só dos benefícios da tolerância, mas também de seu caráter eminentemente cristão. Luta inócua. Você, caro leitor, que já tentou “converter” um fundamentalista sabe que isso é uma tarefa tão mais árdua quanto maiores são os interesses em jogo escondidos sob o manto da ortodoxia e da “sã doutrina”. Por isso a questão toda tem que ser jogada em outra esfera, se esperamos que a igreja seja mais arejada, aberta, ecumênica, tolerante, em suma, cristã: na esfera do poder. É preciso agir politicamente, não argumentativamente em direção ao coração dos fundamentalistas.

Slavoj Zizek critica a partir desse ponto o discurso da tolerância: enquanto se defende mais tolerância às minorias (homossexuais, imigrantes, negros em alguns casos), deixa-se de perceber que o debate é, na verdade, político. Ainda segundo Zizek, vemos essa inversão do discurso em ações “humanitárias” como as de Bill Clinton: enquanto posa de “bom moço” interessado em semear a democracia no mundo, o ex-presidente americano deixa de lado o debate político em torno do mercado por exemplo, e todas as suas ações perniciosas que não sofrem qualquer tipo de constrição política.

Na igreja as coisas não são muito diferentes. O pessoal fundamentalista, cuja sede simbólica pode ser tanto o Instituto Presbiteriano Mackenzie quanto o blog “tempora-mores” (êita nominho arrogante...), detém o poder. Podem ser mais ou menos tolerantes, mais ou menos “boas pessoas”, mas não é aí que está o foco da questão. Ela se encontra na impossibilidade de que outras ideias prevaleçam porque essas outras ideias não dispõem de poder para sequer chegar a serem discutidas. E não são textos, livros e debates que farão com que esse pessoal perca sua influência porque supostamente aprenderiam a pensar de forma cristã a partir de bons argumentos. Não. O que é necessário é que sejam confrontados na esfera do poder, porque é a partir dela que ocupam seus cargos e mantêm sua influência.

Mas como trazer o debate para a esfera política? Começando de baixo: tornar as pessoas das igrejas mais preparadas, mais instruídas, mas cientes do que significa pensar de forma cristã (a questão primordial não é transmitir conteúdo às pessoas, mas uma forma de pensar). Os fundamentalistas só têm poder porque têm sobre quem exercê-lo. E posso afirmar que, em grande medida, só mantêm seu prestígio na base da ignorância e nos despreparo de quem os escuta (uma mensagem do senhor Augustus Nicodemus em uma conferência para pastores em Portugal foi de um simplismo e uma desonestidade intelectual só comparáveis ao despreparo da plateia que o aplaudiu). Outra medida seria levar às reuniões de presbitério pessoas mais preparadas e corajosas, dispostas a votarem propostas ao Supremo Concílio. Nesse sentido, conselhos bem preparados poderão ser focos de resistência política a decisões vindas de cima. É preciso espalhar entre as pessoas uma forma cristã de pensar. Penso que esse é um gesto político, porque faria com que os detentores do poder tivessem mais dificuldades em exercê-lo com a facilidade que o fazem.

O que está em jogo nessa discussão? Simplesmente a possibilidade de que a Igreja Presbiteriana deixe de ser o que tem sido, mera instituição eclesiástica auto-referente (só fala a si mesmo, não ao mundo), auto-reprodutora (seu crescimento não significa quase nada para a sociedade) e alienante (as pessoas parecem ficar ainda mais conservadoras depois que entram para a igreja), para se tornar um local de possível difusão da mensagem de Jesus Cristo e de formação humana a partir dela. Não é pouca coisa.

Escrito por Leandro T. Almeida às 17:33:29
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Quinta-feira , 13 de Janeiro de 2011


Entre Cristo e a verdade

                “Se alguém me provasse que o Cristo está fora da verdade, que realmente a verdade estivesse fora do Cristo, eu preferiria então ficar com Cristo a ficar com a verdade”. A célebre passagem de Dostoiévski dá o que pensar. E, dentro de uma perspectiva histórica, é hora de fazer a escolha. Em tempos pré-modernos, medievais, Cristo e a verdade estavam identificados, porque o lugar em que a verdade se estabelecia era a Igreja. Havia a leitura autorizada da Bíblia, que “legislava” sobre todas as esferas da vida, dos astros às hierarquias eclesiásticas e sociais. O poder do rei era representação do poder divino. A Terra era o centro do universo. Tratava-se de ler o livro e encaixar a visão de mundo dentro do permitido pela interpretação eclesiástica, detentora do poder no campo do saber. Não é difícil perceber que os tempos são outros.

                O lugar da verdade não é mais a Igreja, mas a Ciência. As doenças não recebem mais explicações espirituais (ou ao menos não deveriam), a astronomia decide a posição dos astros, as querelas interpessoais se decidem diante de um juiz que julga segundo um critério não-religioso. Da comparação entre esses dois cenários, uma conclusão se faz necessária: a verdade não é imutável, mas cambiante de acordo com a configuração social. E, antes que os fundamentalistas reclamem, perguntaria se acreditam que o sol se move ao redor da terra ou se acreditam que um espírito é que causa a cegueira. Podemos debater o uso que se faz da verdade, o poder veiculado por ela, as mudanças de paradigma que dão origem a novas verdades, mas não o lugar de onde ela emana em nossos dias (ou, ao menos, não é possível dizer que a Igreja detém o poder sobre ela). Diante disso, parece se esclarecer a distinção proposta por Dostoiévski: Cristo e a verdade estão, hoje, em lados opostos.

                Uma vertente teológica, mais conservadora, ainda fala da verdade em termos a-históricos, como se ela fosse única e a mesma em todos os tempos. Para estes, é preciso uma luta constante contra a Ciência para procurar provar que Cristo, ou, mais concretamente, a Bíblia detém a verdade, inclusive sobre campos hoje de domínio tipicamente da Ciência, como a biologia, a arqueologia e a história. Cristo e verdade são uma só coisa, razão pela qual não podem ser separados, sob pena de descaracterização de ambos: um Cristo fora da verdade não seria Cristo, uma verdade não cristã não seria verdadeira.

                Uma outra possibilidade é partir explicitamente para a escolha proposta no início: rejeitamos a verdade e ficamos com Cristo. Em que sentido? Não no de rejeitar a Ciência, seus avanços, suas conquistas, suas regras de pensamento. Quem quer escrever uma tese deve se sujeitar a um modo de pensar científico, não pode alegar razões de fé para a defesa de seus argumentos; não se pode argumentar a partir da fé que o mundo foi criado em 7 dias, é preciso haver uma razão científica para isso (e olha que tem gente que diz que encontra...), e assim por diante. A escolha entre Cristo e a rejeição da verdade se dá em um sentido preciso: o lugar da verdade hoje, a Ciência (mas, talvez, o Mercado e todos os seus desdobramentos em quase todas as esferas de nossa vida), não é necessariamente adversária do Cristo, mas não pode ocupar seu lugar. Todas as promessas de realização postas sobre a Ciência são falsas – meras construções históricas – e por isso devem ser rejeitadas quando comparadas com Cristo, que deve receber toda nossa energia – e, embora nossa percepção do Cristo seja também histórica, a fé nos liga a ele para além dessa mediação. Nesse caso, não precisamos entrar num embate inócuo para tentar fazer com que Cristo assuma o lugar da Ciência como o lugar autorizado da verdade no dia de hoje. O mundo não caminha nesse rumo, e talvez seja melhor assim, se lembrarmos quantas pessoas foram mortas por rejeitarem a verdade proclamada pela Igreja.

                Tendo a experiência de viver em uma sociedade dita secularizada, como a francesa, fica evidente que a opção pela verdade como lugar de depósito de todo afã da vida é fadado ao fracasso. Seria um grande equívoco confundir a afirmação de Cristo – “eu sou a verdade” –, com nossa atual convenção social em torno da possibilidade de verdade. Não é dessa mera convenção de que Cristo fala. Para corresponder à verdade de Cristo é preciso, hoje, paradoxalmente, rejeitar a verdade como alvo supremo da vida.  

Escrito por Leandro T. Almeida às 20:27:08
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Domingo , 05 de Dezembro de 2010


A incrível experiência de John Owen

 

            John Owen, o famoso puritano, autor de livros como Por quem Cristo morreu? e A morte da morte na morte de Cristo, viu-se, de repente, transportado da Inglaterra do século XVII para a São Paulo do século XXI. Como isso aconteceu não se sabe ao certo, mas há a suspeita de que Owen tenha ficado perigosamente próximo a um aparelho de teletransporte em que trabalhava seu amigo, acredite, em plena era renascentista – ou um pouco depois, nunca se sabe.

            Fato é que Owen se vê agora assustado. Não consegue compreender o que sejam carros, semáforos, prédios, asfalto, uma quantidade enorme e nunca antes vista de gente. Ele caminha vertiginosamente pelas ruas com uma sensação de total desamparo. Por uma transformação inexplicável em sua mente, e em que pese a inverossimilhança do acontecido, ele, contudo, compreende perfeitamente a língua portuguesa. Pode, portanto, diante de uma banca de jornais, que ofusca seus olhos dadas as cores vibrantes das publicações ali expostas, ler manchetes jornalísticas como “Europa em grande temor face a crise”, ou “Brasil aproveita onda de entusiasmo”. Ele desconfia de que estejam falando de sua velha Inglaterra, mas não tem tanta certeza, pois não viu nada sobre o rei ou a rainha, sobre príncipes ou princesas. Procura, avidamente, pelo nome do rei do Brasil, mas só ouve falar de um tal de “Lula”, homem rústico, que ele duvida que possa exercer qualquer poder real no país – quiçá no mundo.

            Owen parte aturdido dali em busca de comida, perturbado pela falta de referências, tudo lhe é desconhecido, das roupas aos penteados, dos calçados aos aparelhos que todos têm e lhes permite conversar com sabe-se lá quem, se é que há alguém do outro lado desse negócio que chamam de linha. Em frente a um restaurante, desconhece completamente os nomes apresentados no cardápio, só consegue observar que muitos, mas muitos mesmo, bebem uma bebida amarelada com um suave colarinho, e ele resolve experimentar. Reconhece aí sua velha cerveja, embora estranhe profundamente a temperatura extremamente baixa em que lhe é servida. Não, ele ainda não conseguiu encontrar um porto seguro, algo que lhe dê um mínimo de segurança em terras tão estranhas.

            A sensação que abate seu coração é insuportável. Um homem não pode ficar, nem por pouco tempo, sem algo a que se apegar, sem outros que lhe sejam significativos, sem lugares a partir dos quais reconheça sua identidade. Ele começa a ter sensações físicas decorrentes de sua angústia emocional. Suas pernas tremem, seu peito se aperta, ele tem dificuldade de respirar. Está muito próximo de um colapso nervoso. Apóia-se nas paredes dos luxuosos e impessoais prédios da avenida Paulista. Pega uma travessa e quase já não consegue dar o próximo passo. Às portas de um luxuoso hotel, vê algumas cadeiras vagas em um salão ali dentro. Malgrado sua vestimenta um tanto estranha, há que se reconhecer que é de fino trato, e ninguém barra sua entrada. Senta em uma das cadeiras. Dá-se conta de que está em um culto protestante. Começa a ouvir o sermão. Eis aí o ponto de contato. Eis aí sua identidade sendo reconstituída. As palavras que ouve são exatamente as mesmas que ouvira algumas horas antes em sua Inglaterra do século XVII. As doutrinas são as mesmas. As aplicações são as mesmas. A leitura do texto sagrado é a mesma. Ele está salvo. Pergunta a alguém que lugar é aquele. Alguém lhe diz, orgulhoso: estamos na Igreja Presbiteriana.  

Escrito por Leandro T. Almeida às 11:49:43
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Domingo , 21 de Novembro de 2010


Ainda Spong

 

            Para continuar no livro de John Shelby Spong, Rescuing the Bible from fundamentalism (algo como “Resgatando a Bíblia da mão dos fundamentalistas”, já que a tradução literal gera ambiguidade), é louvável sua atitude de lutar ativamente contra a leitura literal da Bíblia. Como disse no post anterior, a opção por uma leitura não-literal não é mera escolha sem importância, mas aquela entre a possibilidade de se ler a Bíblia de forma mais aprofundada, honesta e rica ou não. Mesmo entre aqueles leitores da Bíblia que se consideram mais arejados com quem já convivi (pastores, invariavelmente), o máximo que pude observar foi a atitude que considerava a leitura não-literal algo não muito importante, sendo, assim, mera escolha sem maiores conseqüências. E havia aqueles que criticavam os que insistiam na defesa de uma leitura não-literal de um texto como o de Jonas, por exemplo. Diziam que “a d. Maria, que há cinqüenta anos frequenta a igreja, não se importa com essas questões, e trazê-las à tona é perturbar a paz de quem já se acostumou com a leitura literal”. Considero um equívoco esse pudor, por alguns motivos.

            O primeiro é que nem todas as donas Marias se perturbam com leituras menos tradicionais. Falo por experiência própria. Conheço Marias que ficaram convencidas e viram a riqueza de leituras não-literais. Após cinqüenta anos de igreja, uma delas dizia, feliz, que “nunca havia ouvido essas coisas”, comentando alguns estudos sobre o Apocalipse e o livro de Gênesis. Não raro, subestima-se a capacidade das pessoas e mesmo sua sede por leituras novas e libertadoras da Bíblia. A maior parte do problema, nesse caso, reside no medo que os líderes têm de serem vistos como propugnadores de mudança. Falo, evidentemente, do que estudam um pouco, porque a maior parte não propõe nada porque não sabe nada (pareço arrogante aqui, caro leitor? Perdoe-me. Não me considero melhor que ninguém, só acho que muitos de meus colegas poderiam ter um pouco mais de curiosidade intelectual. Vejo-os tão satisfeitos...)

            Um outro motivo para se propor leituras não-literais da Bíblia é que elas são mais honestas. Mais honestas com a Bíblia, com o mundo, com a vida, com a razão, com a física, a astrologia e a biologia. As leituras literais se sustentam em um confronto constante com todos os campos do conhecimento humano: animais falam, plantas crescem em um dia, rios nunca existentes passam a fluir, pessoas ressuscitam, pães são multiplicados. Os propugnadores das leituras literais vivem em guerra constante com a ciência, mas somente quando leem a Bíblia: quando ficam doentes tomam remédios, submetem-se a cirurgias, desfrutam da tecnologia presente em automóveis e computadores e acreditam no controle da força da gravidade ao ousarem entrar em aeronaves que pesam toneladas. Não se dão conta de que a mesma racionalidade que critica a leitura literal é a mesma que produz todas as coisas contidas nos exemplos acima? Por que se aproveitam dessa racionalidade para algumas coisas e a rejeitam para outra? A leitura não-literal está longe de ser tributo que se paga humilhadamente à modernidade: é a leitura que faz sentido na modernidade, e percebe que o texto bíblico tem bagagem suficiente para sobreviver nela sem recorrer a qualquer tipo de fideísmo, guetoísmo ou misticismo. Na leitura literal, fé é sinônimo de irracionalidade. Mas a fé não é irracional, é suprarracional: a razão pode dar livre curso aos seus questionamentos, com toda a ousadia que puder.

            Um último motivo, apontado de forma brilhante por Spong, está no risco existente no empreendimento literal de idolatrar palavras, formulações doutrinárias, conceitos: “Reivindicações eclesiásticas de possuir infalibilidade em qualquer versão das Escrituras e credos ou em articulações de qualquer conselho, sínodo ou figura hierárquica são para mim manifestações de idolatria. Tais reivindicações não servem à verdade. Elas servem apenas à necessidade de poder e controle da instituição eclesiástica. A igreja precisa aceitar o caráter subjetivo e relativo de todas as coisas que diz e faz. Se a igreja provê segurança, ela não pode oferecer verdade. Esta é a escolha que confronta o cristianismo hoje. Eu voto por insegurança e a busca da verdade. A alternativa, eu acredito, é segurança e a criação de uma condenável idolatria”(p.232). Spong não exagera. Hoje em dia, até mesmo traduções da Bíblia são tidas como uma espécie de palavra inerrante. Muitos não se dão conta de que a distância existente entre o grego e o português é muito maior que a existente entre qualquer uma das traduções existentes em português. Idolatram-se doutrinas, como todas aquelas presentes na Confissão de Fé, na medida em que são imutáveis. A leitura não-literal, portanto, tem a possibilidade de não cair nesses equívocos, uma vez que significa uma atitude diferente diante do texto bíblico. Uma atitude que não o vê como intermediário entre os fieis e Deus, nem como a quarta pessoa da Trindade.

Escrito por Leandro T. Almeida às 17:13:16
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Sábado , 23 de Outubro de 2010


Um livro que merece tradução

 

            O livro de John Shelby Spong, Rescuing the Bible from fundamentalism é daqueles que, se traduzidos (e lidos), causaria furor no provinciano mundinho evangélico brasileiro. Seu autor, bispo da Igreja Episcopal em Newark (EUA), defende sem meias palavras a leitura não-literalista das Escrituras e aponta os vários inconvenientes da insistência fundamentalista em tomar todas as afirmações literais da Bíblia como palavra inerrante de Deus. É daqueles livros que não necessariamente trazem novidades a quem já se acostumou a pensar de forma arejada e já se libertou das amarras puritânicas, mas que, ainda assim, são muito úteis na medida em que reúnem em uma boa argumentação muita coisa que às vezes se encontra de forma dispersa em variados autores. Mas é preciso dizer, para se fazer justiça com Spong, que ele é mais ousado, claro e corajoso do que muitos dos livros não-puritanos que às vezes parecem ter receio de confrontar diretamente os herdeiros intelectuais dos primeiros habitantes da Nova Inglaterra.

            Mas há um outro elemento que chama a atenção no livro. Ele mostra que leituras literalistas estão impossibilitadas de chegarem a certas conclusões, uma vez que elas se prendem a afirmações literais dos livros bíblicos que impedem que eles sejam situados em épocas distintas daquelas retratadas ou apontadas nos próprios livros. Ao abordar o processo de formação do Antigo Testamento, Spong situa os livros de Rute e Jonas como tendo sido escritos para se contrapor à tendência exclusivista dos sacerdotes que interpretaram a experiência do exílio como sendo um castigo divino pela quebra da lei e pela aliança, via casamento, com povos “impuros”, não pertencentes, até a décima geração, à linhagem judaica. Nesse sentido, Jonas mostra o quanto Deus é misericordioso com um povo não-judeu, muito mais voltado a Deus que o próprio profeta saído do meio do povo de Israel; de forma semelhante, Rute mostra que a avó de Davi era moabita, razão pela qual o exclusivismo religioso baseado em fatores étnicos ou raciais não se sustentava nem mesmo diante da maior figura real de toda a história de Israel. Apenas para dar mais um exemplo, Spong mostra como o livro de Jó confronta a teologia da retribuição, tão presente no livro de Provérbios. Sua argumentação é bem construída e tem muito proveito, embora sua intenção seja a de ser somente um panorama rápido sobre esses temas.

            Pois bem. Quando se fala sobre essas interpretações a um fundamentalista, dificilmente ele descordará delas a priori, porque são, inequivocamente, boas interpretações dos textos bíblicos, capazes de encher os olhos de qualquer pessoa que tenha uma mínima sensibilidade intelectual. No intuito de se defender, alguns dirão: “mas essa interpretação é possível em uma leitura literal”. Aí está a questão: será mesmo? Para se aderir à interpretação de Spong, é preciso admitir que Jonas, Rute e Jó são livros que tiveram sua feição final no pós-exílio. Os fundamentalistas não admitem que nem mesmo Daniel é pós-exílico! (Sempre ouvi dizer, ainda nessa linha, que Jó é o livro bíblico mais antigo dentre os que compõem a Bíblia hebraica...). Além disso, durante os anos em que vivi sob a tutela fundamentalista nunca ouvi qualquer tipo de interpretação do Antigo Testamento que sugerisse qualquer coisa que ao menos passasse perto daquelas apontadas por Spong. Livros como os de Jonas, Jó e Rute sempre foram tomados como exemplos da malfadada doutrina da Providência, e nada que pudesse sugerir um outro sentido era (e é) dito. Isso serve para percebermos que as leituras fundamentalistas não são mera escolha dentre outras possíveis: são escolhas que nos impedem de chegar a várias afirmações e leituras dos textos bíblicos; estes, por sua vez, ficam presos em uma fôrma sistemática da qual não escapam no ato da interpretação fundamentalista, a despeito de serem narrativas, poemas e, muitas vezes, literatura fantástica, para usar um termo anacrônico em relação a eles.

            Certa vez perguntei a um candidato ao pastorado como ele explicava a diferença existente entre Samuel e Crônicas, quando um livro dizia que Satanás havia incitado Davi a realizar o censo de Israel, enquanto outro dizia que Deus é que havia incitado a Davi. Meu intuito não era fazer qualquer pegadinha, mas deixar patente que não é possível responder honestamente a questões que podem ser levantadas pelos textos bíblicos com teorias conservadoras na cabeça. Não é simples questão de escolha, é escolha entre a possibilidade de ler de forma mais profunda ou ficar na superficialidade da reprodução de afirmações de antemão conhecidas. O candidato não soube responder. Ah sim, ele era fundamentalista. E, claro, foi aprovado.

Escrito por Leandro T. Almeida às 12:43:55
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