A crítica autêntica não destrói a fé e a fé autêntica não impede a crítica. Hans Küng


Minha “encrenca” com a teologia

 

            Em sua ferina crítica à leitura que Althusser faz de Marx, E. P. Thompson contrapõe “disciplina intelectual madura” e “formação meramente ideológica”. Essa distinção faz eco à polêmica a respeito da possibilidade de conhecimento, que estaria, no segundo caso, incontornavelmente comprometida por tal ou qual ideologia, quando, para Thompson, sem cair em um ingênuo positivismo, seria possível conhecer algo apesar dos condicionamentos aos quais todos estamos sujeitos. Assim, utilizar-se de procedimentos de pesquisa, investigação e elaboração de hipóteses permitiria poder dizer algo sobre determinado objeto, criar, em outras palavras, conhecimento. Ele sintetiza bem a questão:

 

“se o objeto do conhecimento consistiu somente em ‘fatos’ ideológicos elaborados pelos próprios procedimentos da disciplina, então não haveria nenhuma maneira de validar ou falsificar qualquer proposição: não haveria uma corte de apelo científica ou disciplinar”.

 

            A ideia é que em um exercício intelectual maduro os instrumentos utilizados para “conhecer” se curvam aos “fatos”, não se sobrepõem a ele. Isso tudo remete à minha encrenca com a teologia, ao menos a dita clássica, aquela que faz afirmações sobre “Deus” com pretensão de correspondência entre o discurso e seu objeto. Entendo que ela se posiciona de modo a não permitir nenhuma “corte de apelo”, fincando suas afirmações em um construto epistemológico retroalimentador e autorreferente.

            O exemplo que tomo é o do “Jesus histórico”. Aquilo que até o momento as investigações históricas permitem afirmar é que Jesus, um pobre camponês adepto do judaísmo, liderou um movimento de revolta contra o domínio romano na Palestina, foi capturado e crucificado por isso como sedicioso. Seu nascimento virginal, seu batismo acompanhado pela descida de uma pomba, sua ressurreição etc, seriam construções teológicas elaboradas pelas comunidades que, décadas após sua morte, procuraram criar uma narrativa a seu respeito que servisse aos seus propósitos, inclusive ligando Jesus às narrativas dos Profetas ou retratando-o como o tão esperado Messias.

            A teologia clássica, a partir desse cenário, lançará mão de elementos próprios aos seus procedimentos constitutivos, como “revelação” e “inspiração”, para, contra o que se pôde até o momento saber sobre Jesus, defender a historicidade da narrativa bíblica. Ela não vai se contrapor às afirmações sobre o “Jesus histórico” na base dos procedimentos em vigor para a validação de hipóteses historiográficas, o que a inscreveria na possibilidade de ser julgada em uma “corte de apelo” acessível a qualquer pessoa que pudesse manejar os procedimentos da investigação histórica. Em outros termos, a teologia não se lança ao debate público a partir das premissas científicas que o regulam, ou seja, as que têm pretensão de universalidade; a teologia procura se contrapor ao debate público a partir de seus próprios procedimentos, os quais, no entanto, são próprios do discurso do grupo que a sustenta, não necessariamente compartilháveis por quem não professa a mesma fé da qual ela quer ser expressão.

            Nesse sentido, a fé me parece se constituir uma espécie de licença para negar a realidade. A partir da investigação histórica Jesus não ressuscitou, não nasceu de uma virgem, não andou sobre as àguas, mas, a partir da fé, isso tudo passa a ser fato e verdade acima de questionamento. Essa postura pode confortar muita gente. Na verdade, conforta mesmo. E é legítimo que as pessoas tenham liberdade para optar por esse caminho. Só acho que seria salutar reconhecer a operação intelectual que permite isso. 



Escrito por Leandro T. Almeida às 20:36:07
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A igreja Presbiteriana que ordena gays em Davis

Uma família tradicional, papai, mamãe e filhinhos, tirando foto antes do início do culto na frente da igreja que não se opõe aos homoafetivos, pelo contrário, acolhe-os, estimulando, portanto, a decadência dos valores tradicionais, a degenerescência dos melhores costumes familiares, a devassidão proveniente de uma sexualidade não-padrão, só pode ser entendida de um modo, por alguém sagaz como eu: estratégia urdida pelo capiroto para capturar mentes incautas.

E a estratégia continuou operando porque o pastor, na liturgia, falou de coisas como a ressurreição corporal de Cristo, a direção de Deus na vida, o senso de gratidão que se deve cultivar em todos os momentos e dos quais os cânticos entoados seriam expressão. Coisas idênticas, em suma, às que ouviríamos em igrejas sérias comprometidas com a Palavra. Mas em algum momento eles se trairiam e deixariam patente seu desprezo pela Escritura, porque só a partir desse gesto tamanha aberração pode ser praticada – refiro-me, claro, ao acolhimento de homoafetivos e até à ordenação de pastores que optem por essa prática.

Mas continuemos. Antes do sermão para os adultos, as crianças foram reunidas na frente da nave e um curto sermão lhes foi pronunciado. Fiquei atento às palavras. Certamente eles devem inculcar nos pequeninos desde a mais tenra idade as ideias que deverão torná-las devassas ao crescer. Não notei nenhuma palavra nesse sentido, mas seguramente porque não estava diante de minha língua materna. Certamente alguma mensagem subliminar foi inculcada nessas indefesas mentes.

O tema do sermão para os adultos, por sua vez, foi o tempo. “What time is it?”, foi a pergunta que serviu de mote para as considerações baseadas em Eclesiastes 3, 1-8 e II Coríntios 6, 1-13. O pastor encarregado da mensagem era uma espécie de liderança da região, pois estava na igreja nesse dia para empossar o pastor que havia chegado um mês antes com o propósito de assumir o pastorado da igreja. Ele se dirigia sobretudo a pessoas de cabelo já branco, grande maioria na igreja, dizendo que não se devia olhar apenas para o passado, mas também para o futuro. Era uma espécie de encorajamento, pois ele disse que quando era jovem, sua igreja em Pasadena, ao sul da California, contava com mais de mil pessoas. Ele estava diante de umas cento e poucas agora.

Fiquei esperando pela defesa da aberração homoafetiva, mas ela não veio. O sermão continuou a se desenvolver com reflexões sobre aproveitar as oportunidades, a respeito da contribuição da igreja para a sociedade e abordou a esperança que deveria caracterizar a vivência dos fiéis. Não é possível, pensei comigo. Em algum momento eles se revelariam. E, de fato, aconteceu. 

Se retrocedo minhas observações para o início do culto, lembro-me de um garoto que adentra a nave do templo carregando uma vela, enorme, de meio metro mais ou menos. Eu sabia. Aí estava. Como não percebi isso antes? A vela é levada até o púlpito e lá fica acesa durante todo o culto. Após isso, essa mesma vela, enorme, grossa, quase meio metro, é carregada novamente até a entrada do templo e os fiéis começam a sair. Eis o símbolo da devassidão, o sinal da degradação, o culto à degeneração e vergonha, o sinal da decadência dos costumes.




Escrito por Leandro T. Almeida às 00:23:25
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Uns mais iguais que os outros           

 

Não é preciso ser adepto da fé cristã para perceber que na Bíblia, para o bem ou para o mal, o que mais importa são pessoas. Mandamentos, regras, parábolas, narrativas, poemas, elogios, punições, tudo isso tem, como alvo, gente. Uma das passagens que indicam isso com mais clareza é aquela em que o Cristo diz que “o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado”. Se não é preciso ser cristão para se perceber isso, nenhum cristão é escusado de procurar colocar essas palavras em prática – e não há dúvida quanto à proeminência dada por elas nesse trecho.

              Como minha vivência religiosa se deu em um ambiente teológico reformado conservador (se é que não há aí um pleonasmo), constantemente me vejo pensando nele, conquanto dele não faça mais parte, embora, oficialmente, meu nome provavelmente esteja arrolado em um livro de membresia de algum canto por aí. E meu pensamento se volta às comunidades que, nesse âmbito, têm procurado se afinar à contemporaneidade, almejando transmitir uma mensagem mais contextualizada com as perguntas lançadas pelos atuais desafios existenciais.

            Vejo que, de fato, várias mudanças foram feitas. Essas, no entanto, têm como foco principal a área litúrgica. Novos estilos de pregação, novos arranjos decorativos, músicas diferentes, utilização constante de tecnologia de ponta na comunicação. Em termos doutrinários, contudo, o que se vê é um pouco mais do mesmo; um mesmo com nova linguagem, com nova roupagem ou embalagem, mas com um mesmo conteúdo. Desenvolver esse tema envolveria algumas considerações que demandariam mais tempo. Ele dá ensejo, contudo, ao que me parece a limitação mais flagrante e prejudicial dessa mudança, a qual, como alguém já disse, lembra a disposição de “mudar o que for necessário para que tudo permaneça como sempre foi”.

            Essa limitação aponta em duas direções: o lugar das mulheres e a visão a respeito dos homossexuais. Nessas novas comunidades, as mulheres continuam ocupando um papel secundário. Isso significa que, em última instância, elas não participam das tomadas de decisão mais importantes. Ainda estão presas ao padrão que diz que, no limite, “não podem exercer autoridade”. Quanto aos homossexuais, sua opção ou condição sexual é motivo para que não sejam recebidos como membros das igrejas, conquanto possam apresentar todos os requisitos exigidos das demais pessoas (fé, fidelidade conjugal, concordância doutrinária).

 

            Uma vez que são as pessoas o que mais importa em uma comunidade, até quando alguns limites continuarão fazendo separação entre homens e mulheres? Até quando a opção sexual continuará sendo responsável pela exclusão de milhões de pessoas dispostas e desejosas de compartilhar sua fé como se possuíssem os mesmos direitos de qualquer outra pessoa? É claro que mudanças em igrejas tradicionais são difíceis e demandam tempo. Mas as comunidades têm força para tentá-las. E não deveriam esperar tanto, para não acontecer, como diz o sempre provocante Paulo Brabo, que venham a tratar igualitariamente mulheres e homossexuais quando seu gesto não for mais que mera ação a reboque da sociedade, quando, portanto, ele já não fizer mais diferença. 



Escrito por Leandro T. Almeida às 06:07:50
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Por causa de, com a ajuda de, apesar de

 

         Como toda síntese, esta também não envolve pormenores ou detalhes que poderiam ser úteis, mas se prende a grandes linhas, capazes, no entanto, de revelar determinado percurso.

         Inicialmente, acreditava que uma pessoa se tornava melhor por causa do cristianismo. Na adolescência e imediatamente a seguir a ela, estava convencido de que não-cristãos eram pessoas com menor capacidade de agir eticamente em alto nível, por acreditar que somente a fé cristã oferecia os elementos capazes de tornarem uma pessoa plenamente consciente de seus deveres, primeiro para com Deus e, em seguida, para com o próximo. Dentro dessa chave, meus esforços evangelísticos e o dos demais cristãos faziam sentido em duas instâncias: dever para com Deus e, no caso dos homens, possibilidade de torná-los melhores do que eram. Ainda nessa perspectiva, valores tais como mais desejo de justiça, mais facilidade de perdão, uma atitude mais receptiva e acolhedora, maior compreensão e mansidão, eram, todos, intimamente ligados ao cristianismo. Quem não estivesse contido em seus limites poderia até demonstrar tais valores, mas sempre de modo insuficiente e limitado.

         Após essa fase, com as experiências vivenciadas no SPS, com a leitura de autores mais progressistas, com a superação, em suma, do puritanismo que me marcara até então, passei a acreditar que os valores acima não estavam limitados à esfera do cristianismo, mas poderiam ser implantados com a ajuda dele. Ainda fazia sentido, portanto, militar no âmbito da fé cristã porque ela poderia propiciar a inculcação de valores tais como justiça, paz, fraternidade, hospitalidade. E, de fato, continuo achando que há bons autores cristãos capazes, em maior ou menor medida, de estimular uma experiência de alto nível de consciência sobre direitos e deveres aptos a refinar a vivência de nossa humanidade. Também não ignoro que, individualmente, muitas pessoas de fato podem se tornar melhores por conta da fé cristã. Pais e maridos violentos podem se tornar mais pacíficos, viciados podem vencer sua dependência química, egoístas contumazes podem se tornar mais liberais. Tais transformações, no entanto, não são monopólio da fé cristã, mas das religiões em geral – para não falar de movimentos os mais variados, sem viés religioso, que podem oferecer melhora de vida em muitos sentidos.

         Apesar disso, em minha fase atual acredito que as pessoas se tornam melhores apesar do cristianismo. Em que pesem os pontos positivos que podem advir da vivência cristã, minha observação, para não falar da miríade de dados históricos que poderiam ser evocados, leva-me a concluir que, em regra geral, a fé cristã tem tornado as pessoas piores. Sua postura diante dos direitos dos homossexuais, seu conservadorismo político, sua indisposição com a crítica, sua leitura canhestra da Bíblia, sua postura exclusivista diante das demais religiões, em suma, uma série de características que podem ser percebidas sem muito esforço nas comunidades cristãs me impede de conceber que nesse âmbito as pessoas se tornem de fato melhores do que eram antes de pertencer a ele. Como disse, há exceções do mais alto nível. Mas, para um Leonardo Boff, quantos Malafaias? Para um Frei Betto, quantos Bolsonaros? Empatia com as causas dos homossexuais (e minorias em geral), disposição política menos conservadora, leitura crítica da Bíblia, inclusivismo religioso etc, são posturas possíveis dentro do cristianismo, mas apenas em luta contra as hegemonias nele predominantes.

 

         Com isso, não estou afirmando que sou melhor do que qualquer cristão. Uma leitura atenta do texto admitirá que reconheço que há cristãos do mais alto nível humano, os quais admiro profundamente. Falo da floresta, consciente de que sua visão panorâmica impede a contemplação do exemplar raro da árvore. Mas, apesar de tudo, essa reflexão me parece necessária, para realizar um movimento que me parece urgente na sociedade brasileira: subsumir a religião à ética. Humana, bem entendido.    



Escrito por Leandro T. Almeida às 10:50:30
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Da bondade religiosa

            Meu queridíssimo amigo Aluísio, por quem nutro profundo afeto, sugere-me, com a melhor das intenções, a audição de um sermão que ele considerou muito bom, na expectativa de que eu também o acharia. Na pregação do pastor, cujo nome é o que menos importa aqui, abundaram referências ao homem criado à imagem e semelhança de Deus, exortações à humildade, ao serviço ao outro, ao despojamento, à simplicidade de vida, ao seguimento de Cristo etc. Não duvido em nenhum momento da sinceridade do pastor, nem do seu caráter, nem de sua intenção de fidelidade à sua fé.

            Por qual motivo, no entanto, retorno a ligação de meu amigo com a má notícia de que o sermão não me cativara? Ele reside em algumas preocupações que em mim brotam ao ouvir sermões como esse que me ocupou por quarenta minutos. Há ideias gerais sobre valorizar a imagem de Deus no ser humano, respeitar a humanidade do próximo, viver para servir ao outro, apegar-se aos valores do Reino etc, mas fica a pergunta: de que modo concreto isso se realiza?

            Tais ideias são lançadas ao mesmo tempo em que se faz o apelo à pregação do evangelho a essas mesmas pessoas, para que se convertam e sejam salvos. Ou seja, valorizamos essas pessoas, estamos dispostos a servi-las, mas acreditamos que estão erradas porque não professam a mesma fé que nós. Não se trata de pessoas que têm que se converter porque estão destruindo sua vida, perdidas em vícios ou estragando a vida em alguma prática abjeta. Têm que se converter porque sua fé é errada e a minha é certa. Que valorização é essa? Que serviço é esse? Que respeito é esse à dignidade do outro?

            Ainda no âmbito do modo prático de operação dessas ideias bonitas e atraentes em um ambiente evangélico: qual a atitude do pastor diante do direito dos homossexuais? Não sei a opinião dele sobre o assunto, mas é muito provável que ele seja contra os direitos civis de homens e mulheres que desejam os direitos do matrimônio ao se unirem a alguém do mesmo sexo. Como expositor de uma leitura conservadora da Bíblia, certamente invocará Romanos para condenar a homossexualidade (e, aí, onde ficam os direitos das pessoas a quem temos que servir?). Esse tópico me parece uma das pedras de toque capaz de aferir o alcance efetivo desse discurso sobre a bondade.

            O pastor, em seu sermão, também falou da injustiça social no Brasil. Ótimo tópico a ser abordado. Mas, qual seu encaminhamento sobre o assunto? Dentro da generalidade em que a crítica é lançada, não estranhará que ele próprio e seus ouvintes adotem posturas políticas pautadas pela grande mídia, que é o que acontece a maior parte das vezes entre os evangélicos. Não espero que ele indique candidatos em quem votar. Mas que ele dê indicações mais específicas sobre o significado de escolhas políticas no cenário brasileiro. É muito comum no discurso religioso evangélico a saída pela via individual, fomentadora da caridade, enquanto que, na prática política, opta-se pelas posturas mais conservadoras, que só fazem alimentar a necessidade de mais caridade.

 

Em suma, a bondade do religioso fiel à sua religião tem limites muito claros. Nenhum religioso está disposto a abrir mão dos valores próprios de sua religião – e do viés específico oferecido por sua denominação específica, no caso do cristianismo – para agir em prol do outro. Em última instância, uma ideia – doutrinária, teológica, catequética – indicará o alcance da bondade religiosa. Daí que eu teria gostado do sermão se ele saísse da generalidade capaz de cativar o público e apontasse ações capazes de provar que o discurso da valorização do ser humano encontra de fato contrapartida prática.



Escrito por Leandro T. Almeida às 18:39:08
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Resenha de meu livro, escrita pelo camarada André Jorge:

 

http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/cr/article/view/7139/4816



Escrito por Leandro T. Almeida às 22:55:31
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Nossos mitos

 

Lembro-me nitidamente daquele início de tarde em um restaurante na Av. Brasil, em Campinas. Recém sentado à mesa após ter me servido, vejo que um senhor, já com o prato em mãos, procura em lugar para se sentar, olha de um lado para outro e nada encontra. Eu espero que ele olhe para mim, torço, aliás, para que isso aconteça e, como se ele lesse meus pensamentos, vira-se para meu lado. Não hesito e ofereço-lhe uma das cadeiras vagas na mesa. Almocei, naquele dia, com o Rubem Alves.

Quanto mais o tempo passa, mais as experiências marcantes ganham aspecto de mito. Isso quer dizer que o menos importante é a exatidão do que se narra sobre elas, mas seu significado e possibilidade explicativa do que somos no presente. Os quatro anos no Seminário Presbiteriano do Sul são, nesse sentido, um tempo mítico. Rubem Alves é, nesse sentido, um mito.

Se há alguém marcante para minha “trajetória teológica”, aquela pessoa capaz de quebrar grilhão por grilhão as cadeias forjadas durante uma adolescência e parte da juventude vivida sob rédea puritânica, esse alguém foi Rubem Alves. Variações sobre a vida e a morte, Gestação do futuro, O enigma da religião, O suspiro dos oprimidos, Cenas da vida, Da esperança, Concerto para corpo e alma: que efeito sobre um jovem seminarista tais livros exerceram! Pouco importa se o Rubem dos últimos tempos e a maioria dos seus livros não despertavam mais o mesmo fascínio. O reconhecimento que lhe devo é por ter ocupado um lugar em minha vida que jamais será esquecido.

Ouvi-lo, a convite do prof. Oadi Salum – que, em belo gesto, vencia suas amarras teológicas em nome da velha amizade com o Rubem –, na sala de aula do SPS, foi uma daquelas experiências marcantes, como o foram o referido almoço, as tentativas de encontrá-lo, junto com os amigos, no Bar Dali, as vezes recebidas em seu escritório, a palestra com o Leonardo Boff no Instituto de Artes da Unicamp. A simpática figura do velho sexagenário era um símbolo de ousadia, irreverência e liberdade para quem buscava espaço para alçar novos voos. Não é incomum perder certo senso das proporções diante do que o Rubem significou: diante do Dicionário filosófico do Voltaire, lembro de ter dito ao amigo André Jorge que os verbetes ficariam mais interessantes se tivessem sido escritos pelo Rubem Alves...

            “Para os teólogos, herege; para os psicanalistas, irreverente; para os pedagogos, subversivo”. Assim o prof. Calvino Camargo definiu o Rubem em uma de suas aulas. Definição célebre, que descreve com maestria um pouco do significado da vida dessa pessoa inesquecível, que não poderia, de modo algum, ficar restrita às cada vez mais estreitas paredes dos castelos eclesiásticos. Agora que ele partiu, era hora de deixar essa homenagem.

Não sem antes lembrar de mais um episódio. Se não me engano, o amigo Josué Chaves perguntou ao saudosíssimo prof. Joás Dias de Araújo o que ele achava do Rubem Alves. Joás, teólogo conservador, mas cheio de ternura, surpreendeu a todos nós: “O Rubem? O Rubem é um vulcão teológico!” Salve Rubem!

 

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 19:12:59
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Um pobre pra chamar de seu

 

            Quando confrontados com a crítica à sua resistência quanto a qualquer tipo de política pública afirmativa (ou seja, as que se dirigem a minorias ou a pessoas em algum tipo de risco social), cristãos conservadores geralmente apelam para uma saída “à la Bolsonaro”: “você tem ideia de como trato bem minha empregada?”, “tenho um parente gay”, “pergunta pro frentista lá do posto se eu o discrimino”. Em outras palavras, à crítica que se dirige a uma postura política é oferecida uma resposta que aponta para um comportamento privado. Nada mais confortável.

            Por, talvez, doar dinheiro para instituições de caridade, tratar a empregada “como se fosse da família” (por que, então, não incluí-la na mesma proporção recebida pelos filhos na partilha da herança?) ou cumprimentar serviçais do condomínio (embora a abolição do “elevador de serviço” só tenha vigorado na base da lei), tais conservadores fariam o suficiente para não incorrerem na crítica, e mais: a aparência que transmitem é a de que, se dependesse deles, não haveria a desigualdade e discriminação que reclamam políticas públicas para serem combatidas.

            Rick Warren, quando questionado a respeito de sua postura contrária aos direitos civis aos gays se saiu com a afirmação de que tinha “many, many, gay friends”. A questão é: em que medida essa alegada postura privada contribui para a mudança na situação real de pessoas em uma esfera ampla? São recorrentes acusações provenientes dos conservadores de que “esquerdistas” lutam pelo pobre apenas na arena teórica, porque na prática não fazem nada por eles. Eis nessa crítica a inversão do que poderia se constituir em ações concretas na direção de uma sociedade mais justa: a luta na esfera política é tachada de inoperante diante de posturas privadas de caridade.

Aparece aí aquele típico gesto que impede o tratamento do problema em sua raiz. Ele retém apenas a segunda parte da proposta, sensata a meu ver, de André-Comte Sponville:

 

“Pode-se pensar por exemplo, com Spinoza, que cabe ao Estado, não aos particulares, ocupar-se dos miseráveis; que, em consequência, contra a miséria, mais vale fazer política do que fazer caridade. Eu estaria de acordo. Ainda que desse tudo o que tenho, até tornar-me tão pobre quanto eles, em que isso alteraria a miséria, no fim das contas? Para problema social, solução social. [...] Isso não nos dispensa, por outro lado, de termos para com os pobres ou os excluídos uma atitude de proximidade fraterna, de respeito, de disponibilidade à ajuda, de simpatia, em suma de compaixão”.

 

            A maioria dos evangélicos se prende unicamente à segunda parte do artigo – ou afirma fazê-lo. Não que não façam política. Claro que fazem. Mas fazem mormente se filiando ao que há de mais conservador nesse campo, assumindo uma posição impeditiva de transformações efetivas na sociedade que ajudem a combater a desigualdade social e a discriminação reinantes no Brasil. Referem-se às páginas bíblicas para defender gestos de caridade sem se dar conta de que não havia opção política disponível na época de sua escrita, sobretudo para um marginal grupo judeu-cristão – com exceção dos zelotas, escolha não corroborada pelas comunidades cristãs e que causaria arrepios em qualquer evangélico contemporâneo. Ou seja, o incentivo à caridade aos pobres nas páginas bíblicas é o máximo que poderia ser feito aos pobres naquele tempo. Com outros instrumentos disponíveis, como aponta Sponville, de alcance e eficácia incomparavelmente maiores, evangélicos continuam apelando à caridade e rejeitando as soluções políticas efetivas. Tivesse sido o Evangelho escrito sob um regime democrático, e não imperial, continuaria ele falando de caridade como a atitude recomendada junto aos pobres?

 

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 22:17:50
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Fé no espaço público?

           

A reflexão aqui proposta tem caráter de exercício de pensamento, quase que “pensamento em voz alta”. A advertência se faz necessária porque o próprio título dela carece de um aprofundamento impossível neste ambiente: espaço público não é um conceito simples e há quem se pergunte em que medida ele existe no Brasil. Isso não impede, contudo, que se proponha aqui uma problematização da conclusão de Jürgen Habermas em seu “Fundamentos pré-políticos do Estado de direito democrático?” O texto foi publicado, sob o título “Dialética da secularização”, em conjunto com o texto do então prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé Joseph Ratzinger.

            Afirma Habermas na conclusão: “Em seu papel de cidadãos do Estado, os cidadãos secularizados não podem nem contestar em princípio o potencial de verdade das visões religiosas do mundo, nem negar aos concidadãos religiosos o direito de contribuir para os debates públicos servindo-se de uma linguagem religiosa”. A problematização que proponho é a seguinte: em que medida a ideia de verdade do religioso é partilhável com o não religioso? Qual seria o “poder de verdade” de uma visão religiosa de mundo? Parece-me que a aceitação da conclusão de Habermas só pode valer a partir do momento em que o não religioso estiver apto a abraçar a fé do religioso. Qual argumento estritamente religioso deveria ser válido para o não religioso? Não consigo vislumbrar nenhum.

            Lembro-me do brilhante pronunciamento de Barack Obama certa vez, quando disse que, aos olhos do não religioso, o gesto de Abrãao não era demonstração de fé, mas iminência de incorrer em prática de assassinato, e por isso deveria ser contido. Em que área pode se imiscuir o religioso a partir exclusivamente de sua verdade proveniente de fé? Deveria legislar sobre biologia (e dizer que o mundo tem 6 mil anos ou o aborto proibido porque é pecado?), história (e alegar que o Estado de Israel pertence aos judeus), política (e defender intervenções militares na base do mandato divino?)?

            A menos que possa ser sustentado publicamente, em uma arena que congregue o que todos têm em comum, e aí estamos falando de razão e não de fé, o argumento do religioso deve permanecer válido unicamente para si. E, mesmo nesse caso, seu limite é aquele permitido pelas leis civis (WASP’s racistas devem restringir seu racismo aos pronunciamentos feitos à mesa de suas casas e não da porta de casa para fora). Parece-me que o próprio Habermas, um tanto contraditoriamente, chega a conclusão parecida: “Uma cultura política liberal pode até esperar dos cidadãos secularizados que participem de esforços de traduzir as contribuições relevantes em linguagem religiosa para uma linguagem que seja acessível publicamente”.

            Essa fala parece mais sensata que a primeira. Ela reconhece que a linguagem religiosa pode trazer contribuições gerais, não apenas aos fiéis de determinada religião. Mas vê a necessidade de tradução dessa contribuição para uma linguagem “acessível publicamente”. Ora, o próprio Habermas, não sei se a contragosto ou por conta da tradução do texto para o português – que é ruim – admite que a linguagem estritamente religiosa não é acessível ao público em geral. Ela deve se constituir em argumento público na medida em que passe por uma tradução: de linguagem originada, inspirada ou criada em instância de fé, para linguagem acessível em uma instância racional.

            Sem essa tradução, continuaremos a ver religiosos, às vezes com boas ideias (embora cada vez menos), tornando-as inválidas por não estarem dispostos a traduzi-las em termos racionais, logo universais. Ou, em um cenário pior, tentando fazer com que os não religiosos engulam à força suas mal-disfarçadas convicções de fé.  

 

               



Escrito por Leandro T. Almeida às 22:15:59
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Bonhoeffer, Queiruga, Ellens

 

         Tenho todos os motivos para recomendar a leitura do último livro do Paulo Brabo, As divinas gerações. É um livro inteligente, provocativo, capaz de sínteses e insights brilhantes, requerendo para isso, às vezes, um parágrafo. Que digo? Por momentos uma única linha basta para que o Brabo, com seu estilo peculiar, faça brilhar um centelha capaz de iluminar séculos de tradição cristã. Diria que dentro de um modo de conceber a fé cristã, qual seja, aquele que pisa o chão da Escritura, está entre as melhores coisas que alguém pode ler.

         Mas uma passagem me incomodou deveras. Uma espécie de assentimento do Brabo à crítica que o Harold Ellens faz ao termo “graça barata”, de Dietrich Bonhoffer, crítica que vi presente também, nos mesmos termos, em Andrés Torres Queiruga. Ambos criticam o teólogo alemão porque, segundo eles, “graça barata” poderia sugerir a ideia de que a graça divina não está disponível a todos, como eles defendem. Bonhoeffer teria introduzido uma espécie de empecilho à livre e oniabrangente manifestação da graça, ao requerer do fiel uma espécie de contrapartida ou atitude diante dela, uma decisão que o levasse a algumas consequências práticas que o impedissem de viver diante da graça de modo pouco condizente com ela.

         Para Ellens e Queiruga, só faz sentido falar em graça se esta for absolutamente incondicional, universal, superior a todo e qualquer desajuste humano. Desse modo, não faria sentido a crítica sobre aqueles que, dizendo-se fruidores da graça, vivessem de modo condenável, posto que a graça é graça justamente na medida em que é suficiente para superar qualquer condenação.

         Meu incômodo advém do que considero um apagamento da história por parte de Ellens e Queiruga, em nome de um conceito demasiadamente abstrato e, digamos, “inofensivo” de graça. Ora, Dietrich Bonhoeffer se utilizou do termo “graça barata” contra uma situação que exigia uma decisão (como bem sublinhou seu biógrafo Ferdinand Schlingensiepen): ele estava diante de cristãos abrigados sob a “graça” que apoiavam as ações do nazismo nascente. Eram cristãos apoiando uma igreja que não se opôs à morte de milhões de pessoas. Bonhoeffer teve a lucidez e, mais que isso, a coragem de denunciar essa situação, e uma das coisas que mais o indignavam era esse acordo entre fé e ascensão de um poder totalitário. Ao instar seus irmãos de fé convidou-os a uma decisão, uma decisão custosa, ao contrário do conforto da “graça barata”, que permitia aos cristãos a passividade diante de uma situação cada vez mais dramática.

         Quando Ellens e Queiruga criticam a “graça barata” o fazem em nome de um Deus que seria aceitação plena, perdão pleno, indistinção plena. Compreendo o projeto. Já simpatizei com suas boas intenções. Mas não acho que ele seja plausível a partir de uma leitura honesta da Bíblia e muito menos capaz de sobrepujar a força advinda das palavras de Bonhoeffer. Diante de uma situação limite, que exigiu a vida de um homem em nome de seu ideal – como a de Bonhoeffer, que morreu enforcado pelo regime nazista – falas como a de Ellens e Queiruga me parecem quase desrespeitosas. Elas ilustram o problema do que eu chamaria de um “Deus adocicado”, criação de certa teologia – pretensamente moderna – que não pode aceitar a veracidade das passagens mais cruéis do Antigo Testamento. Estas seriam etapas de uma revelação ainda em curso, as quais deveriam ser superadas diante da revelação completa trazida por Jesus Cristo. Fica, no entanto, a pergunta: não se aceita o Deus cruel do Antigo Testamento, mas se aprova um Deus que acolhe nazistas?



Escrito por Leandro T. Almeida às 17:38:50
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Participe do lançamento de meu livro, É necessário queimar os hereges - Sébastien Castellion e a liberdade de opinião na época da Reforma Protestante.

 

Será na sede da Fonte Editorial, rua Barão de Itapetininga, 140 - São Paulo (metrô República).

 

Haverá debate com o rev. Luciano Borges, pastor da IPB e com o Alexandro Paixão, professor de sociologia na Unicamp.



Escrito por Leandro T. Almeida às 17:45:08
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De por que os que se dizem não se conformar com este século estão, felizmente, conformados a ele

É praxe no meio cristão evangélico evocar Romanos 12 para se defender a ideia de que o cristão deve ser contracultural, avesso ao espírito da época, contestador do curso do mundo. Normalmente, esse discurso quer criticar padrões sexuais, linguísticos, epistemológicos diferentes dos considerados adequados aos cristãos. Não seria difícil mostrar que o recorte distintivo entre o permitido e o proibido é, na verdade, bastante contido, posto que pouco eficiente para propor alguma prática distinta dos não cristãos que se possa considerar significativa. Que se pense, por exemplo, em uma marca típica “deste século”, que é o fascínio exercido pelas mercadorias capazes de atribuir prestígio ou distinção aos consumidores que as possuem (cristãos têm tanto desejo por essas mercadorias quanto não cristãos – basta olhar os carros dos crentes abastados).

O que me parece digno de nota, no entanto, é o fato de que uma espiada na História vai mostrar que o discurso evangélico, por mais apelo que encontre intramuros, não se sustenta. E acho que essa “insustentabilidade” é extremamente benéfica à sociedade como um todo. Observe-se, por exemplo, o espírito da época vigente no século XVI, o mesmo que viu nascer o único santo reformado, João Calvino. Fazia parte desse espírito acusar alguém de heresia e poder, no limite, queimá-lo por causa dela. O fato de que tenha havido oposição a essas mortes não anula o fato de que esses acontecimentos não eram impensáveis na cultura do período. Aliás, a contracultura, lá e então, estava visível justamente em quem se opunha às condenações. A ortodoxia estava em paz com elas, mesmo porque era delas promotora.

Os tempos, felizmente, mudaram. A duras penas estamos aperfeiçoando Democracias. Falamos em Declaração Universal dos Direitos do Homem. É parte do espírito da época atual a luta por respeito às minorias. Soa absurdo, na grande maioria dos países do planeta, que alguém seja queimado vivo por não mostrar concordância com um corpo doutrinário.

A que espírito de época seguem, portanto, os evangélicos? Vou afunilar um pouco o grupo, apenas para tentar ser justo com os poucos evangélicos que impedem a generalização e a redundância: a que espírito de época seguem os fundamentalistas cristãos? Caso não fossem impedidos pelo espírito “deste século”, patrocinariam autos-de-fé em nome da ortodoxia; aprisionariam os discordantes; impediriam todos os avanços que as mulheres conseguiram em décadas recentes; sabe-se lá que atitudes tomariam para impedir que homossexuais vissem seus direitos atendidos.

 

Por isso é possível dizer que os evangélicos seguem, felizmente, o espírito da época. É ele, com maior ou menor anuência de sua disposição íntima, que impede que sua fé determine os artigos da constituição; é ele que obriga a uma tolerância capaz de preservar a existência de outras religiões; é ele que promove uma diversidade de manifestações humanas que seria duramente reprimida caso os evangélicos tivessem livre curso para impor sua agenda. Podemos dizer, então, em uma fórmula: os fundamentalistas só não são pessoas piores porque o espírito da época impede que isso aconteça.



Escrito por Leandro T. Almeida às 21:21:57
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Doloroso, mas necessário

 

            No início de La subversion du christianisme, Jacques Ellul expõe o problema principal que seu belo livro procurará abordar: “como o desenvolvimento da sociedade cristã e da Igreja tenha dado origem a uma sociedade, a uma civilização, a uma cultura em tudo inversas em relação àquilo que se lê na Bíblia”. E “Bíblia”, ele acrescenta, é sinônimo de “Torá, profetas, Jesus e Paulo”. A partir da colocação do problema, Ellul se encarregará de mostrar o que, em sua opinião, foi o responsável pela “subversão” que teria se alastrado por todo o cristianismo, de maneira que ele não é o que deveria ser.

            Essa proposta argumentativa é bem conhecida. Ela está presente, por exemplo, em Andrés Torres Queiruga e na prática dominical de todos os cristãos que acreditam que a fé cristã deveria fomentar posturas mais abertas à alteridade, mais preocupadas com a justiça social, mais aptas à liberdade de pensamento. O argumento pode ser resumido, de certa forma, na afirmação (acho que) de Chesterton: “o cristianismo não fracassou; ele sequer foi tentado”.

            Conquanto eu compreenda a boa intenção presente nesses argumentos e considere as consequências psicológicas deles muito melhores que os posicionamentos contrários (visíveis, por exemplo, nos fundamentalistas estadunidenses), não acredito que seja uma postura que deva ser mantida. Trata-se, a meu ver, de tapar os olhos para a História, recusando-se a enxergar o que ela mostra sobejamente e colocar, em seu lugar, um desejo eticamente motivado. Esse “desejo ético” é o que almeja associar o cristianismo ao que de melhor pudemos alcançar em termos de leis, hábitos e gestos que expressaram e expressam respeito à dignidade da vida humana, como se ele fosse a origem de tudo isso.

            Em uma palestra em que abordava o processo supostamente revolucionário nos Estados Unidos, o qual teria dado origem a uma sociedade dita liberal, o historiador Domenico Losurdo ofereceu um bom exemplo para o que está em questão nas palavras acima. Ele mostrou o quanto foram os cristãos os principais responsáveis pelo fim do regime de escravidão então em vigor. Todos os cristãos?, pude perguntar ao fim da palestra. Não, apenas uma parte deles, respondeu Losurdo.

            A partir do exemplo acima, diria que a estratégia de Ellul é a que se vê na tarefa de defender a ideia de que cristãos autênticos foram, somente, os que lutaram pela libertação dos negros, e não os donos de escravos. Propõem-se, assim, os mais variados subterfúgios interpretativos para tentar mostrar que a Bíblia não dá margem à posição escravocrata; todos os que teriam se baseado na Bíblia para defender a escravidão – e de fato o fizeram – estariam equivocados.

            Nesse momento sou obrigado a concordar com o professor Osvaldo Luis Ribeiro. Quem quiser defender, atualmente, o direito das mulheres, dos negros, dos homossexuais, não deveria se amparar na Bíblia, porque há muitos textos bíblicos que podem apoiar posturas contrárias a essa defesa. A Bíblia tem, sim, textos machistas, homofóbicos, discriminatórios (se não contra negros, contra palestinos, por exemplo, outra tradução possível para “filisteus”).

            Diante dessa sugestão, muitos alegarão, no entanto, que Jesus é o critério hermenêutico que julga todos os textos e permite que a Bíblia continue sendo a base da ética (Queiruga, por exemplo). Conquanto eu considere que, de fato, as páginas dos Evangelhos realmente contêm exemplos, digamos, “contraculturais” bastante aptos a uma ética do mais alto nível, é preciso lembrar que o mesmo Jesus dividiu a humanidade entre ovelhas e cabritos e disse claramente que quem não estivesse a seu lado seria, no final das contas, condenado. Os ditos atribuídos a Jesus também podem servir de base para atitudes eticamente questionáveis.

Portanto, cristãos movidos por esse “desejo ético” deveriam dar o passo doloroso, mas necessário, de reconhecer que são movidos não pela Bíblia, mas, no máximo, por uma leitura da Bíblia que deseja estar à altura do que alcançamos em termos de ética, uma ética humana, não divina (a qual, se existe, não está disponível ao nosso alcance). Por que então não ficar logo com a ética e afirmar claramente que ela julga nossa leitura da Bíblia?

            Em um post já antigo desde blog (15/12/2009) isso que digo acima já foi, de certo modo, defendido. Na ocasião, motivado justamente por um diálogo com um defensor da ideia de que a Bíblia não era machista, escrevi que não nos cabia ficar em disputa pela definição do que “Deus pensava” sobre casos particulares como o das mulheres, dos homossexuais, das minorias, se ele é de direita ou de esquerda etc, mas que deveríamos nos preocupar em compreender quais atitudes seriam mais próximas do que entendemos pela manifestação concreta do amor.

            Passado algum tempo, continuo achando a mesma coisa, mas agora de maneira mais clara e mais, talvez possa dizer, radical (e daí também as diferenças entre as ideias de hoje e as de então perceptíveis no post). É inócuo defender que o cristianismo é bom ou mal, machista ou não, liberal ou conservador a partir de textos bíblicos. A Bíblia tem textos para servir a qualquer gosto. O cristianismo pode ser tudo isso porque os homens podem ser tudo isso, os mesmos que lutam para definir sua visão como autenticamente cristã. Deveríamos, portanto, colocarmo-nos acima dessa disputa, reconhecer que o embate se dá no plano ético e julgarmos, a partir dele, os modos de manifestação da fé cristã.



Escrito por Leandro T. Almeida às 22:15:27
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Um caso interessante de anacronismo

 

          No início de seu “Le problème de l’incroyance au XVI siècle” [O problema da incredulidade no século XVI], Lucien Febvre chama o anacronismo de “pecado irremissível”. Anacronismo: projeção, no passado, das ideias do presente; julgamento, do passado, a partir dos critérios do presente; expectativa de que o passado corresponda, mentalmente, epistemologicamente, eticamente, aos nossos parâmetros mentais, epistemológicos, éticos... Febvre, enquanto historiador, parece se dirigir mais especificamente a historiadores. Mas não seria demais que a rejeição desse “pecado irremissível” fizesse parte de nossa atitude frente aos elementos do passado.

            O preâmbulo acima serve para comentar um texto do Ricardo Gondim a mim repassado pelo irmão camarada André Carreiro, “Os venerandos da teologia falaram bobagem”. Em seu curto artigo, Gondim põe em prática o anacronismo rejeitado por Febvre. Para o historiador francês, autor também de “Martinho Lutero: um destino”, ainda que não cheguemos a saber com maior precisão como, por exemplo, os homens do XVI leram determinadas obras, podemos chegar com maior precisão a dizer como eles não leram. Em seu artigo, Gondim defende a ideia de que Agostinho, Lutero e Calvino falaram bobagens quando, em alguns de seus textos, apelaram à astrologia (Agostinho), ou fizeram uma diferenciação entre astrologia “natural” e “bastarda” (Calvino) e parecem ter aderido a crendices populares, ou ao que hoje dizemos que são crendices (Lutero). A partir disso, Gondim chega a uma advertência aos “austeros defensores da sã doutrina” atuais, a de que devem perceber que esses vultos teológicos “também falaram tolices”.

            Por que o texto de Gondim peca por anacronismo? Porque lança aos séculos IV e XVI um julgamento próprio do século XXI. Ora, quando Agostinho, Lutero e Calvino se pronunciaram sobre esses temas, não falaram tolices, simplesmente porque em sua época tais coisas não eram “tolices”, mas possibilidades epistemológicas disponíveis e levadas a sério. Podiam, como indica Calvino, ser combatidas, não propriamente como algo “tolo”, mas talvez falso, pernicioso, maligno etc. A maneira como Agostinho e Calvino lidaram com a astrologia e como Lutero parece ter encampado crenças populares fazia parte, para usar uma expressão de Peter Berger, das “estruturas de plausibilidade” de seu tempo (antes que se diga que o termo é anacrônico, cumpre dizer que, de fato, ele não foi cunhado no passado, mas pode ser tomado como ferramenta para compreendê-lo, atitude diferente do julgamento do passado a partir de um critério de valor do presente). Teria Gondim tomado outro tipo de fala como exemplo – algo como “o mal é ausência de bem”? Certamente não, porque essa fala estaria mais concorde com seu pensamento teológico. “Tolice”, assim, é, no fim das contas, o que seu critério teológico – ou epistemológico, vá lá – rejeita.

            Quer dizer então que, nesse sentido, o passado não é criticável? Sim, pode ser. Mas, para que a crítica tenha valor, é preciso recuperar, tanto quanto possível, as “estruturas de plausibilidade” dele, para julgá-lo dentro do sistema valorativo (ou cultural, científico, epistemológico etc) em que o que está em vista é criticado. É assim que uma crítica à dominação espanhola contra os indígenas americanos se reveste de maior valor quando feita a partir da argumentação de Bartolomeu de Las Casas, frade dominicano contrário à dominação indígena por parte dos católicos espanhóis que primeiro catequizaram a América. No mesmo sentido, Dietrich Bonhoeffer traz um elemento de crítica dos mais incisivos contra a passividade da Igreja Luterana diante do crescente nacional-socialismo na Alemanha nazista. Finalmente, Sébastien Castellion invalida a tese de que Calvino não pode ser criticado pela condenação de Servetus à morte porque “fazia parte de seu tempo” condenar a heresia com a fogueira. Ao criticar Calvino, Castellion oferece os parâmetros de uma crítica não anacrônica.


            Se há que se criticar Agostinho, Lutero e Calvino – e acho que devemos fazê-lo, caso contrário estamos fadados a repeti-los – deve-se procurar perceber o sentido de suas palavras no ambiente em que foram proferidas; mas não tomar um ou outro elemento, que, por esdrúxulo que nos pareça hoje, torne-se uma excrescência a ser julgada pelos nossos padrões epistêmicos. 



Escrito por Leandro T. Almeida às 17:14:41
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Uma pergunta

 

            Tradução livre de um trecho de “Jesus for the non-religious”, de John Shelby Spong:

 

“Eu observo o fato de que por algo em torno de 1900 anos o Cristianismo institucional viveu confortavelmente com preconceitos baseados em gênero, raça e orientação sexual. Com a emergência do vigésimo século, no entanto, o Cristianismo começou a se desvanecer precipitadamente, o que começou pela Europa e se espalhou pelos Estados Unidos. O Poder se transferiu dramaticamente do Cristianismo institucional para um nascente e vigoroso humanismo secular. Foi esse espírito secular que promoveu a derrota dos preconceitos com os quais o Cristianismo se acomodou por tanto tempo. Isso fez com que o século XX se tornasse o mais dramático na história humana no que tange ao nascimento dos direitos humanos”.

 

            Sem que nos apeguemos em possíveis imprecisões pontuais, dá para dizer que o sentido do texto é equivocado? Acredito que não. E, conquanto tenha havido movimentos oriundos do próprio cristianismo que tenham lutado contra os preconceitos apontados, a imagem dessa luta sempre mostrou movimentos marginais, pontuais ou individuais contra hegemonias (cristãs) dominantes. Dessa maneira, a história do cristianismo mostra que ele esteve a maior parte do tempo ao lado do status quo e sempre pronto a punir movimentos internos que questionassem esse posicionamento.

            O que acontece atualmente, especialmente no Brasil, exemplifica essa constante histórica do cristianismo institucional: imposição da moralidade individual à ética pública, distanciamento de movimentos sociais, conservadorismo nos temas relacionados aos direitos das minorias. Isso para não falar no Tea Party e no Bible Belt americanos.

            Spong procede à crítica para defender sua solução, que se constitui na adoção de uma teologia que negue o que ele chama de “teologia teísta” – patrocinadora dos preconceitos que ele aponta –, uma teologia crítica, portanto, da qual os títulos dos capítulos de seu livro, por si só, são um bom exemplo: “Não houve estrela sobre Belém”, “Os pais de Jesus: composições ficcionalizadas”, “Jesus ressurgiu literalmente dos mortos?” e por aí vai. É o que Osvaldo Ribeiro chama de teologia metafórica.

            A pergunta a que o título se refere, levando tudo isso em consideração, é a seguinte: se o cristianismo institucional patrocinou, por tanto tempo, preconceitos sociais, ou, dito de maneira mais irrefutável, esteve sempre ao lado do status quo, e se movimentos de emancipação e crítica social têm advindo do humanismo secular, por que pessoas interessadas na promoção desses valores seculares que têm gerado, a duras penas, conquistas humanas inéditas na história, devem insistir na reprodução e propagação desse cristianismo?

            Uma primeira resposta é a de que, apesar de tudo, o cristianismo tem sido responsável por inúmeros casos de “salvação” de vidas antes entregues a vícios, desestabilização familiar, desordem pessoal. Isso é absolutamente verdadeiro, mas tais casos não dependem do cristianismo institucional para acontecer: podem se realizar a partir de movimentos não institucionalizados, sem organização formal, como grupos que se reúnem em lares, por exemplo (que teriam a vantagem de não serem tão facilmente ligados ao poder institucionalizado, como o que se vê de maneira cada vez mais frequente entre partidos políticos e grupos evangélicos).

            Uma segunda resposta diria que o cristianismo institucionalizado é capaz de promover mudanças sociais, como, de fato, muitas igrejas podem comprovar. Mas a contrapartida negativa que o cristianismo institucionalizado patrocina não é muito maior que seus benefícios? Para, por exemplo, uma igreja presbiteriana que pode ser apontada como um belo exemplo de serviço social, quantas há que, além de não fazerem nada nesse sentido, estimulam posturas politicamente conservadoras que dificultam ainda mais os já difíceis processos de mudança social no Brasil?

 

            Essas perguntas não querem, absolutamente, sugerir que as igrejas devem acabar, até porque essa proposta seria ingênua ao extremo. Mas querem levantar a questão: pessoas interessadas em transformação social devem continuar a lutar por isso dentro de um sistema que tem sido majoritariamente contrário a ela? Você tem a resposta?



Escrito por Leandro T. Almeida às 18:57:19
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Não, não: eles sempre compreenderam muito bem

 

            A questão é pessoal, porque se refere a minha pessoa, disso não tenho com fugir. Mas o que me interessa é o que ela sugere enquanto reflexão.

Um amigo me conta que um seu amigo, pastor do presbitério de onde saí, comentou que “o Leandro não foi bem compreendido”, o que explicaria a desconfiança e as atitudes dos “colegas” em relação a mim, bem como o fato de nenhuma igreja desejar que eu sequer passasse em frente de suas calçadas...

Esse tipo de “explicação” traz embutido em si um significado: meus ex-colegas só agiram como agiram comigo porque não me compreenderam; caso tivessem me compreendido, teriam me mantido ao lado deles, me aceitado, estariam dispostos a dialogar e conviver com a diferença. Teria sido, a atitude deles, um problema causado pelo famoso “ruído” na comunicação. Ah, não fosse esse ruído...

Disse ao meu amigo que não. A questão não pode ser tomada a partir da ideia de que meus colegas não me compreenderam, pelo contrário: eles sempre me compreenderam muito bem. Viram, rapidinho, que eu não era como eles: seus assuntos não me interessavam, sua teologia não me despertava qualquer atenção, suas pessoas não me atraíam, mas, o principal, seu pensamento era diferente do meu. Por isso agiram, ao fim e ao cabo, como agiram: deram, a maioria, seu voto, que culminou com minha exoneração, isso depois de anos de conflitos, de controvérsias, de acusações infundadas (“tem gente aqui que não acredita na Bíblia”), de marginalização.

Alegar que fui incompreendido é o mesmo que dizer que meus colegas são pessoas incapazes de cometer injustiça, de julgar, de condenar; é o mesmo que dizer que são capazes de conviver com a diferença, desde que a compreendam; que estão aptos a aceitar algum tipo de crítica que toque em pontos chave de sua fé. Mas não é esse, absolutamente, o caso. Religiosos, como meus ex-colegas, são pessoas capazes, sim, de cometer injustiça, julgar e condenar. Não estão dispostos a conviver com a diferença e muito menos com a crítica.

O Osvaldo Luiz Ribeiro tem uma provocação das mais interessantes. Provo, disse ele, que os textos bíblicos não são relatos tal e qual da história, mas construções teológicas interessadas: fosse relato histórico, tão logo tivesse Cristo desafiado os fariseus diante da mulher pega em flagrante adultério, não sobraria pedra que não tivesse sido lançada em direção à adúltera...

 

Meus ex-colegas são todos eles capazes, sim, de cometer injustiça, motivados por discordâncias de opinião. No meu caso, não cabe dizer que não sabiam o que faziam. Sim, eles sempre souberam o que estavam fazendo...



Escrito por Leandro T. Almeida às 22:53:03
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Do aconchego das camas fofas e quentes

Não vejo como não concordar com o Osvaldo Luiz Ribeiro:

 

“Quando a crise teológica se instala, é porque alguma coisa em você já se preparara para ela. Alguns espíritos não a experimentam, seja porque são refratários à crítica, seja porque têm outra forma de viver a religião e o mundo. Mas os espíritos que sofrem a crise teológica sofrem-na porque já a tinham sob a forma de ovo dentro de si. Foi o momento, a circunstância que fez eclodir o ovo. Assim, reconheça a crise como parte de você: ao contrário de um organismo parasita, um ser estranho, a crise é sua outra metade, desabrochando”.

 

Isso explica por que é inútil discutir teologia com muita gente, com a maioria dos religiosos, na verdade: são espíritos refratários à crise teológica. E crise, aqui, não é meramente ficar com uma ou outra dúvida sobre um ou outro ponto teológico e reforçar sempre o que na verdade sempre se pensou. Crise, aqui, significa mudança de mentalidade, ou, de forma mais específica, mudança na maneira como você enxerga a religião. Meu caro, isso não é nem um pouco confortável e eu compreendo bem quem não queira deixar de viver no conforto. A virulência desses é menos apreço pela verdade do que espírito de “não mexa no meu queijo”.

 

Para alguns, no entanto, o conforto não é possível. “Sob a forma de ovo, dentro de si”, carregam o desajuste, o desconforto, o inconformismo com a maneira mais tradicional, difundida e popular de se conceber as coisas, no caso, religião. Sim, falo de mim, confesso, embora você possa achar isso arrogante. Não pretendo sê-lo, sinceramente.

 

Mas o fato é que, depois do conforto inicial trazido pelo puritanismo, minha cama, tão arrumada que estava, tadinha, foi virada do avesso pelas experiências do Seminário Presbiteriano do Sul. Lembro-me até hoje de um momento emblemático, não o único, nem o mais importante, mas emblemático, em que perguntei ao Ricardo Gouvêa se “os puritanos têm algo a nos ensinar hoje em dia”. Sua resposta, gravada a ferro em minha mente: “os do século XVII, sim, os do século XX, não”. E eis que ficaram sensíveis demais experiências, ideias, diálogos, pessoas (Ah, o velho Rubem!), como que agulhas e alfinetes, para que eu pudesse continuar a me deitar confortavelmente na velha caminha.

 

Pra encurtar a história, depois de muito tempo, um tal de Andrés Torres Queiruga fez desabrochar outro ovo, parindo o que estava dentro de mim. Quando li a primeira página do seu “Repensar a criação” me frustrei, porque o livro que eu talvez planejasse escrever via-o escrito ali, na minha frente, e com muito mais competência. Agora sim, pensei, é só refazer a caminha, arrumar o edredom, e repousar confortavelmente meu corpo já aflito por um pouquinho que seja de descanso.

 

Aí veio o Osvaldo Luiz Ribeiro. E me espetou agulhas, lançou tachinhas e acendeu a luz do quarto. Por mais que eu quisesse – e queria – já não dava mais pra continuar na cama. Ele mostrou que, por mais bem intencionado que seja o Queiruga, não há diferença efetiva entre o que ele fala e o que fala um, por exemplo, Louis Berkhoff. Queiruga, do quarto, fala de um Deus bondoso, amoroso, misericordioso; Berkhoff, da sala, fala de um Deus bom mas justo, amoroso mas severo, misericordioso mas “fogo consumidor”, em suma, um Deus bem ruinzinho. Mas ambos habitam a mesma casa, aquela das afirmações ontológicas sobre Deus e que, no fundo, se sustentam na base de seleções de textos da Bíblia ou de sua tomada como monolito. Queiruga pode dizer que lê toda a Bíblia a partir de Jesus Cristo. Muito bem, é uma opção, acho, aliás, que a opção que deve ser posta em prática na igreja, porque igreja não é pra desarrumar a cama de ninguém – no máximo abrir uma fresta da janela... – mas nesse gesto há já a alegoria sendo posta em prática: onde se lê que Deus mandou ir à guerra, na verdade Deus não mandou ir à guerra... Além disso, não há também diferença efetiva entre o que o Queiruga faz e o que os puritanos do século XXI fazem: no limite, nenhum texto vai contra seu desejo de entender a Bíblia do modo como ele acha que tem que ser entendida, porque esse texto será posto no processo interpretativo que lhe dará, ao fim das contas, razão. Acho suas ideias benéficas, saudáveis, libertadoras em certo sentido, mas... não dá.

 

Esse ovo que o Luiz Osvaldo pariu, pariu à minha revelia. Tem horas em que uma caminha aconchegante faz falta demais. Mas, que posso fazer? Sua argumentação me convence: os textos bíblicos não são acesso à ontologia do ser divino, mas fruto de visões, sonhos, embates de homens e mulheres diante do que acreditavam ser Deus. Deus, tantas vezes, e agora, na atualidade, preocupantemente, na atualidade, instrumento para o exercício do poder e da sanha de homens e mulheres. Sim, também alento, sonho, utopia dos mesmos homens e mulheres em busca de sentido, beleza, alento, mas tudo, para o bem, para o mal, humano, demasiado humano. Irrelevância da Bíblia, da teologia, do estudo? Não! Pelo contrário! Estudo para entender de que maneira esse nome, que deveria mesmo ser impronunciável, ocupa lugar na instrumentalização de desejos humanos.

 

Farei minha caminha agora, na trilha aberta pelo Osvaldo? Não, não dá. O que ele propõe não é nem um pouco, nada, aliás, confortável. É fé em permanente tensão, em permanente dúvida, em incerteza objetiva, em intuição, para a qual a razão não ajuda muito no sentido de definir, enfaticamente, quem é esse a quem essa fé se dirige. Não dá, ainda, porque isso tudo que o Osvaldo traz é muito novo, e só o tempo vai dizer em que isso vai dar. Vou seguindo sua trilha, mas com muita vontade de achar um caminho próprio. E, quando achar, se achar, obrigado Osvaldo, seu papel foi muito importante, sigo meu caminho. Sem camas a tiracolo.



Escrito por Leandro T. Almeida às 16:27:29
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Evangeliska Kyrkan – Igreja Evangélica em Estocolmo – Agosto 2011

 

                A visita à Igreja Evangélica na Suécia se deu no verão, ou seja: nada de pesados casacos com gorros, cachecóis e luvas, apenas agasalhos suficientes para enfrentar uma amena temperatura por volta de 12, 15 graus. Fui informado pelo meu cicerone – um primo que deixou o calor carioca para se mandar para a Austrália e depois se embrenhar na bela e gélida Escandinávia – que essa era uma dentre mais uma ou duas igrejas de brasileiros em Estocolmo. Mas quem não soubesse disso não demoraria a perceber: o culto e a pregação têm tradução do sueco para o português. Até hoje não sei se a tradução era uma política da igreja visando os brasileiros recém chegados no país ou necessidade, por alguma deficiência da pregadora, brasileira, com a língua sueca (que a esposa do meu primo disse, certa vez, ser fácil, no que eu tenho certeza que ela estava mentindo).

                Do sermão, confesso, não lembro muita coisa. Não lembro de nada aliás, exceto o tom emotivo que a pregadora tentava imprimir-lhe. Mas é justamente o sermão que pode ser o gancho para algumas reflexões sobre o significado do Evangelho na vida como um todo. O tom emotivo, tentando de alguma maneira aquecer as (poucas) pessoas que estavam na igreja naquele dia, pareceu-me bastante deslocado naquele contexto, porque poderia, se muito (mas aqui pode ser minha pouca afeição ao emocionalismo) atingir alguém que estivesse passando alguma dificuldade eventual. Estamos falando de uma das sociedades mais igualitárias do mundo, e as dificuldades que, claro, existem, não se comparam àquelas vividas, por exemplo, em países como o Brasil, razão pela qual o apelo emocional me parece pouco, muito pouco em termos da mensagem cristã para a vida.

                Não que eu tenha uma resposta pronta à pergunta por qual a ênfase se imprime na pregação do Evangelho em um país como a Suécia. Às vezes tendo a pensar que o Evangelho, que em algum momento já foi bem mais relevante nessa sociedade (falo em termos do lugar social da igreja na sociedade, e lembro que a igreja oficial da Suécia é luterana), exerceu muito bem por lá seu papel. Ele, de alguma maneira, contribuiu para que essa sociedade chegasse ao que é hoje. E isso não é pouca coisa, pois estamos falando de uma sociedade em que os seres humanos são respeitados enquanto tais, têm asseguradas condições de vida da melhor qualidade, não se veem apreensivas quanto ao que comerão nem, demasiadamente, quanto ao futuro dos filhos, bem como podem sair à rua sem a insegurança causada pela violência urbana. É uma sociedade, em suma, em que vige de maneira muito satisfatória o Estado de Bem-Estar Social, uma das maiores conquistas da humanidade em todos os tempos (esse mesmo, que os neoliberais gostariam de ver morto e sepultado). Como cristão, não hesito em dizer: se tivesse que escolher, preferiria viver em uma sociedade dita pós-cristã, como a sueca, do que em uma sociedade cristã como a brasileira. Não se trata aqui da churumelas da classe média brasileira que volta deslumbrada da Europa falando mal de tudo e todos no Brasil, mas justamente do desejo de alguém que ama seu país de ver, nele, a vida humana ser respeitada enquanto tal. Mas iria além e imprimiria ao texto uma nota claramente herética: guardada aqui toda a reserva simbólica contida na linguagem humana quando ela se refere a Deus, diria que ele faria a mesma escolha. Em uma fórmula, portanto: uma sociedade ateia em que a vida humana é dignificada é preferível a Deus do que uma sociedade cristã em que a vida humana carece de igual reconhecimento.

                O Evangelho visa a glória de Deus, mas “a glória de Deus é o homem vivo”, como alguém já disse, e quanto mais desenvolvida, justa, igualitária e atenciosa à vida humana for a sociedade em que o homem vive, maior é a glória de Deus nela. Não é primordial que haja igrejas nessa sociedade, sobretudo se as igrejas, sobretudo as que acreditam deter “a” verdade, como as evangélicas, marcarem sua atuação - como acontece no Brasil – por um egoísmo brutal quanto ao que se passa fora de suas quatro paredes, além de sua atuação marcada por dogmatismo e conservadorismo político de um lado, e negociata mesclada a uma agenda moralista desejosa de impor seu modo de ser a todos, inclusive aos que não fazem parte do mesmo credo, de outro.

                Em uma visita que meu primo e eu fizemos a uma brasileira evangélica que mora em Estocolmo, fomos brindados com a opinião dela de que “a Suécia é o trono de Satanás”. O motivo? Lá é o “berço do feminismo” e há uma liberalidade muito grande nos costumes, quanto à sexualidade, por exemplo. Eis a típica mentalidade evangélica: as questões morais – aquelas que tocam mais de perto o âmbito privado da vida – ganham proeminência em relação às questões sociais – aquelas que influenciam a vida das pessoas independentemente de suas escolhas pessoais, e muitas vezes à sua revelia. O Brasil, em que há crianças morando sob pontes e fumando crack nas ruas, em que o número de mortalidade no trânsito supera o de guerras civis e os homicídios se contam às dezenas de milhares, deve ser nessa mentalidade algum tipo de antevéspera do Reino, dado o número de igrejas existentes (o raciocínio dela não chegou a essa afirmação, mas eu não estranharia se chegasse).

                Vamos aos possíveis mal-entendidos: não estou afirmando que a Suécia é um lugar perfeito. Basta pensar na questão que envolve os imigrantes e a grande tensão que isso gera em alguns setores mais conservadores da sociedade, que flertam, inclusive, com uma agenda claramente nazista. Há também a dita questão dos suicídios mas, na boa, em um lugar em que se vive com neve até o pescoço por oito meses no ano a taxa até que não é estratosférica[1]. Duvido que, proporcionalmente, no Brasil ou Estados Unidos essa taxa seja menor (e, convenhamos, eles não sabem o que é comer jabuticaba no pé, não ouvem MPB e não torcem para o Corinthians...). Também não acho que igrejas sejam indesejáveis, mas que, dadas as atuais configurações social e eclesiástica de Suécia e Brasil, a comparação que proponho se sustenta.

O que está posto para os evangélicos suecos é um grande desafio para se pensar o significado da pregação do Evangelho em seu país. Uma pregação que deixe de lado a ideia de que a vida aqui é mero campo de provas para se determinar o destino das almas, que não apele para o emocionalismo a fim de se encaixar em alguma angústia momentânea pela qual todos passam e que compreenda o apelo holístico da mensagem de Cristo. O apóstolo Paulo alerta: “quem está em pé veja que não caia”. Talvez a igreja na Suécia pudesse ser uma espécie de consciência capaz de alertar a todos que a vida humana ali é tida em alta conta e sua atuação buscar evitar a todo custo que isso deixe de ser realidade.

 



[1] Após ler o texto, meu primo corrigiu a informação: são “só” 4 meses de neve, e até a canela. Quanto aos outros aspectos, todos estão mantidos...

 

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 19:56:12
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17, rue Saint Antoine, Église Reformée du Marais - 10/04/2011

 

            O peso institucional é compatível com a dinâmica do Evangelho? A feição que as instituições eclesiásticas vão ganhando ao longo dos anos permite que a radicalidade da proposta cristã seja vivida, ou ao menos proposta e tentada? Tudo que se precisa manter em nome da instituição, ou seja, pastores, templos, reuniões administrativas, arrecadações financeiras, tudo isso não acaba por exercer alguma interferência negativa naquilo mesmo que se prega domingo após domingo nas celebrações?

Uma discussão frequente em âmbito teológico se dá ao redor dessa questão: em que medida Cristo, tendo pregado o Evangelho, deu lugar, por meio de seus discípulos, e talvez inadvertidamente, à Igreja. Questão intrincada, que não pode receber uma resposta simples e que foge aos limites da reflexão mais impressionista aqui proposta. A partir dela, limito-me a pensar sobre o tipo de mensagem que ouvi na igreja reformada desse tradicional bairro judeu de Paris.

Comecemos pelo sermão, que, após alguns cânticos entremeados a leituras de trechos bíblicos, tudo de forma bastante simples e um tanto quanto distanciada do público presente, foi baseado em II Coríntios 10,1-4 e destacou uma palavra, forteresses, “fortalezas”. Destacando alguns sentidos possíveis de utilização do termo (lugar de defesa e de preparação para o ataque), o pregador procurou associá-lo a algumas atitudes cristãs de não conformação às demandas da cultura contemporânea, como a agitação, a ausência de meditação e coisas afins. Não ouvi nada que não fosse, digamos, apropriado, ou frontalmente contrário ao Evangelho, que significasse uma deturpação ou desvirtuamento dele. Tudo, no entanto, soou-me previsível demais, ameno demais, desligado demais do chão da vida, sem “mordência” histórica, sem proximidade com a força, o sentido, o apelo, a (boa) perturbação causados pela figura de Cristo. Quando Paulo, o apóstolo, critica o “leite” com que os crentes estavam acostumados em Corinto, não diz que ele é necessariamente uma falsa pregação, apenas que era algo pueril diante da importância do “alimento sólido”. Tive a sensação de terem me oferecido leite esta manhã no Marais...

            E essa amenidade não estava ligada ao fraco desempenho retórico do pregador. É importante pensar nisso porque não é incomum, aliás parece estar se tornando a regra, que pessoas rasas em sua reflexão compensem essa superficialidade com um apelo retórico nada desprezível. Isso muitas vezes funciona bem junto a um público pouco exigente. No cenário evangélico domina essa figura, sem qualquer preocupação aqui em querer diferenciar evangélicos históricos de pentecostais ou neopentecostais. No entanto, o fulcro da questão na igreja nesse domingo se relaciona, a meu ver, com o tipo de discurso possível no ambiente em que foi proferido. Uma igreja reformada tradicional, com um templo de arquitetura imponente e antiga, parece-me presa à promoção de um culto segundo o que se espera desse tradicionalismo e ao oferecimento de uma mensagem que, de alguma forma, não destoe da arquitetura que a abriga. A pergunta é: há lugar, com todas essas constrições em jogo, para uma pregação muito diferente da ouvida?

            Em um sentido primeiro, podemos dizer: sim, a mensagem poderia ser diferente. Um outro pregador, até com melhor oratória, teria se saído melhor. Mas, em outro sentido, parece-me que uma pregação cada vez mais radicalmente cristã (reconheço aqui o pleonasmo) mina a legitimidade de todo esse peso institucional que a igreja ganhou com o passar dos séculos (só um exemplo, mais afeito ao Brasil que à Europa: qual igreja está disposta a reconhecer que o dízimo é uma prática não cristã?). Alguns, percebendo isso, defendem a falência desse modelo institucional de igreja. Paulo Brabo é um deles, e seus argumentos são bons (e sedutores). Outros acreditam nos pequenos grupos semanais de reunião (a própria igreja do Marais os tem). Ali a igreja seria verdadeiramente igreja, onde as pessoas expõem seu problemas, vivem uma comunhão mais íntima, estudam a Bíblia com mais vagar. A reunião principal, aos domingos, é um encontro mais “genérico”, que não expressaria fielmente o que a igreja é.

            Há, no entanto, um aspecto que deve ser levado em consideração. A grande vitrine para quem não conhece a igreja não são os pequenos grupos, mas a reunião dominical. E faz tempo que as pessoas de fora formam sua opinião sobre a igreja a partir do que veem nas reuniões coletivas dominicais, onde a comunhão não é exatamente a que pode ser, o compartilhamento de experiências não se dá como poderia se dar e o estudo é menos profundo do que é possível ser, a se acreditar no que dizem os proponentes de uma reforma radical na maneira de ser igreja. A “cara” da igreja se mostra no domingo, não nos pequenos grupos.

            E se essa percepção, de que muitas vezes a grande reunião semanal atrapalha – quando não impede – uma vivência evangélica comunitária mais aprofundada, fosse levada às suas últimas consequências? E se passássemos, a partir disso, a pensar a igreja cada vez menos de forma institucional e mais comunitária, sem todo esse aparato e peso advindos de séculos de organização eclesiástica? Há que se reconhecer que, em grande medida (e a esmagadora maioria das igrejas, sobretudo de suntuosos templos, confirma isso), a amenidade do sermão se casa muito bem com o que a igreja foi construindo ao longo dos tempos: lentidão para empreender mudanças necessárias, necessidades administrativas muitas vezes meramente auto-referentes, isto é, sem servidão direta à causa do Evangelho, um grande costume ao redor das mesmas práticas repetidas vezes sem conta.

            Não acho que a igreja-povo-de-Deus perderia muito se começasse a pensar sua existência sem a igreja-instituição-eclesiástica, ou uma em que essa igreja exercesse um peso muito menor do que aquele com que está acostumada. Na verdade, acho que ela não perderia nada. Quantas pessoas deixam de conhecer a igreja (grupo de pessoas) porque não se identificam com o que veem na igreja (instituição)?  



Escrito por Leandro T. Almeida às 18:27:26
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32, rue Victor Chevreuil – Église Baptiste. Domingo, 30 de janeiro de 2010.

 

            Passei boa parte de minha adolescência e juventude ouvindo que o motivo da “decadência” das igrejas evangélicas na Europa era motivado pelo liberalismo teológico. Teriam sido teologias como as esposadas por Schleirmacher, Karl Barth e Emil Brunner as grandes responsáveis pelo fechamento de igrejas e pelo pouco apelo do Evangelho junto aos ouvidos europeus. Em que pese o simplismo da explicação e a atitude que concede à história da teologia um lugar irrelevante para que se possa designar tais teólogos de “liberais”, tomemo-la como válida. Nesse caso, a pergunta é a seguinte: por que, então, a volta da pregação do Evangelho a partir de uma perspectiva conservadora não tem servido para reverter o quadro?

            Porque é essa a predominância absoluta em termos teológicos entre as igrejas evangélicas e/ou reformadas, ao menos na França (e, pelo que sei, também em Portugal e Espanha): a teologia mais conservadora que existe, que em nada lembra o que escreveram Schleiermacher, Karl Barth ou Emil Brunner, dentre outros. O sermão ouvido na simpática igreja Batista, que é bastante acanhada em termos numéricos e formada predominantemente por afro-descendentes se baseou em uma passagem de Josué 3, em que o povo deve atravessar o rio Jordão para alcançar a terra prometida. A interpretação é aquela com que estamos acostumados a partir de textos narrativos do Antigo Testamento: leitura literal do texto, que serve como espécie de exemplo quando uma comparação bem livre entre a situação deles lá e então se aproxima às nossas aqui e agora. Ou seja, da mesma forma que o povo teve que se purificar para poder experimentar a ação de Deus, também temos que nos purificar se quisermos experimentar a benção de Deus; tal como o povo no deserto teve que ser confiante para vencer seus obstáculos (transpor o rio), temos que ser confiantes para vencer nossos obstáculos (que têm a ver com emprego, saúde, realização familiar etc). Não se percebe, em nenhum momento, qualquer influência da uma leitura bíblica crítica, que daria ao texto um outro tratamento; não se percebe qualquer tentativa de “desmitologizar” o texto para livrá-lo de seu invólucro mítico; não se lê o texto nem mesmo a partir de uma possível redação pós-exílica que serviria para iluminar alguma situação do povo de Israel após o episódio mais dramático e significativo de sua história (o que poderia ajudar em sua aplicação para o nosso presente).

            Após o sermão, fui falar com o irmão encarregado da mensagem (que não era pastor; este apenas dirigiu o culto, que foi marcado, aliás, pela espontaneidade na alternância entre cânticos e orações). Apenas para confirmar minha impressão e tirar qualquer dúvida, perguntei se eles liam todas essas passagens narrativas como literais. Sim, respondeu-me ele. Mesmo as de Gênesis? Sim, foi a resposta, com um complemento inequívoco: “somente quem não conhece o Senhor lê estas passagens sem tomá-las como literais”.

            A essa altura a pulga já havia saltado de detrás da orelha: se o liberalismo teológico devastou as igrejas teológicas, por que, repetindo a questão acima, a volta do conservadorismo não reverte o quadro? Se as igrejas ora existentes são o que restou de anos de liberalismo, por que nelas não se perceber qualquer vestígio dele, seja no sermão, seja na leitura da Bíblia, seja nas letras dos cânticos, seja nas orações? Por que o apelo evangélico tradicional não exerce quase nenhuma atração junto aos franceses nativos, mas se difunde entre os imigrantes e seus descendentes?

            Essas perguntas nos ajudam a olhar de um outro modo para a realidade das igrejas evangélicas e/ou reformadas na Europa. Primeiramente, vemos que a opção que sempre culpabilizou o “liberalismo teológico” pelo declínio da influência do evangelho no Velho Continente é simplista ao extremo. Desconsidera fatores históricos, sociais, culturais, filosóficos e mesmo teológicos que não podem ficar de fora da tentativa de se chegar a uma resposta à questão. Além disso, é de se perguntar se as teologias elaboradas em âmbito acadêmico por teólogos como Barth, Bunner, Bultmann saíram dos muros da academia e atingiram o dia a dia das igrejas. Parece-me que essa relação não se dá de forma tão simples. Basta observar, a título de comparação, que muito daquilo que se discute em salas de aula de seminários não chega à igreja. Mesmo estudantes que parecem tão interessados em uma renovação do pensamento teológico parecem se esquecer de muitos dos seus afãs tão logo assumem um pastorado. Daí que uma outra questão poderia ser posta: se a teologia das igrejas europeias tivesse realmente sido influenciada pelo que se chama de “liberalismo”, atualmente teríamos a mesma situação que a ora presenciada? Em uma perspectiva histórica, o que se chama “liberalismo” é, dizendo de forma bastante simples, a teologia que deixou de lado as concepções pré-modernas e refletiu sobre suas próprias possibilidades em um mundo moderno. É uma teologia que respeita o fato de que o mundo é outro depois Iluminismo, e que não pode, por isso, manter-se fechada em ideias calcadas sobre bases pré-iluministas de pensamento (embora o professor Osvaldo Luis Ribeiro duvidasse da modernidade dos chamados neo-ortodoxos...). Se essa teologia fosse pregada nas igrejas, será que os ouvidos seriam tão moucos como sói acontecer atualmente? Essas questões todas me foram despertadas a partir do culto nessa igreja bastante acanhada do “12º arrondissement” (região administrativa parisiense).

            Uma última questão, destoante do que foi dito anteriormente: como tudo o que aqui vai escrito tem um caráter bastante impressionista, não posso deixar de notar que foi a igreja que mais me agradou. A simplicidade da liturgia, a espontaneidade na sugestão das músicas, a singeleza da pregação: tudo diferente das igrejas maiores, em que há uma planejamento muito maior, um ensaio mais elaborado, uma preparação mais cuidadosa. Não obstante, uma maior espontaneidade, um maior aconchego, um clima de maior igualdade entre as pessoas, em que a distância entre os que “fazem o culto acontecer” os que a ele “assistem” parecia bem menos demarcada do que em comunidades maiores. Precisamos mesmo de megaigrejas?         

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 14:25:40
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31, Rue de la Republique – Église Évangelique de Montreuil, Île de Paris. 09/01/2011

 

            A crise na Europa ressoa na igreja. Explorar o sentimento dos fiéis nesse momento delicado é um prato cheio para a liderança da igreja. Foi o que pude perceber na Église Evangélique de Montreuil, banlieu de Paris? Não gostaria de dizer que sim se isso tiver que ser entendido como um comportamento intencional e plenamente consciente do pastor e outros membros da liderança. Mas, ainda que de forma matizada, não acredito ser possível chegar a outra conclusão.

            É evidente que o sentimento das pessoas deve ser respeitado. A solidão dos imigrantes (só quem passa por isso pode efetivamente dizer o que é isso), a insegurança quanto ao futuro por parte dos jovens e de suas mães quanto ao que será da vida de seus filhos (quem diria que estaríamos falando nesses termos da velha Europa...), a configuração que a sociedade vai tomando rumo à intolerância e à desproteção social: todo esse cenário atinge efetivamente as vidas humanas e não se pode ficar surdo a esse drama. Mas é justamente aí que entra o papel da igreja. Não quero ser injusto com as pessoas e penso que tenho condições de não sê-lo, porque me lembro bem de meu próprio sentimento durante o culto desse dia: uma grande, enorme angústia por conta da solidão que sentia e da saudade do Brasil. Pude me colocar no lugar delas. E é por isso que acredito que o papel da igreja deveria ser diferente do que vi ser posto em prática nesse domingo.

            Tratou-se, sobretudo, de alimentar o anseio dos presentes por transformações, mas sem oferecer a eles subsídios para lidar de maneira mais madura com as demandas que enfrentam cotidianamente. Chamar à frente as pessoas “que precisam de um toque de Deus” para uma oração, cantar repetidamente uma canção que promete que, Deus, “Il fera” (ele fará), estimular momentos emotivos ao redor de canções que mexem com a sensibilidade: tudo isso rende pontos para a igreja (não por acaso, foi a mais numerosa que conheci até agora), mas em que medida realmente traz o evangelho à vida dos seus frequentadores? Eles continuarão procurando a igreja porque desejarão experimentar novos momentos em que poderão extravasar suas emoções, alguns talvez até experimentem uma verdadeira catarse, mas esse é um mecanismo que alimenta a dependência, que, portanto, não incentiva a autonomia.

            Trata-se, em certo sentido, de uma programação de culto envolta por uma teologia ruim. É importante levar isso em consideração, até mesmo porque se trata da igreja mais “moderna” que vi até agora. É a que mais se parece com as chamadas “igrejas emergentes” brasileiras, em que se destaca sua característica principal: inovação formal em meio a uma teologia tradicional que permanece intocada. A canção repetida à saciedade desconsidera os alcances de uma teologia cristã minimamente satisfatória. Insistia em dizer que “Deus cumprirá” suas promessas, que ele “realizará” tudo o que nos prometeu, que, em suma, “il fera” (“quoi?”, o que, deu vontade perguntar). Ora, uma teologia cristã não pode desprezar tudo o que Deus já fez, tudo o que ele já cumpriu. Segundo Romanos, o próprio Cristo já foi dado ao mundo, não há nada de mais precioso pelo que se ficar esperando, mas a igreja insiste em estimular um tipo de espiritualidade que parece olhar para Deus como se ele necessitasse dos estímulos dos “eleitos” para “funcionar”. Não estranha que, a partir dessa teologia, as pessoas vivam dependentes de uma oração eficaz, de uma petição mais emocionada, mesmo de uma oferta financeira mais expressiva que alimenta a sensação de que a parte que cabe aos fiéis foi feita.

            Como disse, há que se respeitar profundamente o sentimento das pessoas. Não se trata aqui, portanto, de dizer que eram insinceras ou que estavam ali somente porque esperavam que Deus lhes desse algo em troca. O que noto, antes, é que a reflexão teológica (ou sua esqualidez) não colabora no sentido de ele elevá-las a outro patamar na vivência de sua fé. A via do sofrimento e da angústia pode, é verdade, conduzir ao amadurecimento, mas, no caso da igreja, ela poderia trabalhar essa vivência pelo ensino teológico, pela reflexão sobre o momento vivido, abordando o lugar de Deus na dinâmica da vida. Trilha bem menos popular, é verdade, mas não há dúvida de que este é o alimento sólido aludido pelo apóstolo Paulo. A igreja, ao se levar em consideração o que vi nesse dia, insiste em dar leite, mais atrativo a estômagos que sequer são estimulados a suportar algo mais substancioso.

            Passados esses momentos todos de cânticos e estímulos às emoções, que durou aproximadamente uma hora e vinte minutos, um membro da igreja (não parecia ser co-pastor; o pastor propriamente não trouxe qualquer mensagem) pregou um sermão, ou melhor, fez um estudo – pelo que deu a entender, a continuação de uma série de mensagens. Percebi o esforço do rapaz para ser “contemporâneo”. Ele está em dia com o que tem sido dito pelos gurus evangélicos pós-modernos brasileiros: mensagem projetada no data-show, “insighits” retirados de filmes e canções, fórmulas orais de impacto e fácil memorização. A mensagem, não baseada inicialmente em qualquer texto bíblico (estes, aliás, apareceram como ilustração e confirmação das coisas ditas de antemão), versou sobre “os perigos da diversão numa sociedade de consumo” (as palavras não eram exatamente estas). Todos os “clichês” da crítica contra a sociedade de consumo estavam presentes: vivemos na sociedade do espetáculo, queremos tudo rapidamente, não sabemos esperar por nada, queremos a diversão a qualquer preço etc. Confesso, contudo, que fiquei profundamente incomodado. A mensagem não foi ruim, havia boas ideias, coisas verdadeiras foram ditas... qual o problema então? É que faltou, a meu ver, teologia, simplesmente. O que há de mais importante no cristianismo, o que distingue a fé cristã de todas as outras religiões é o próprio Cristo, sua vida, sua obra. Nesse domingo houve uma “análise da sociedade”, uma boa leitura – em que pese os clichês – dos valores nela predominantes, mas não houve propriamente o que se pode chamar de ensino teológico. O hiato ficou claramente perceptível: uma primeira parte do culto com muita música, um discurso emocional bastante enfatizado, o reconhecimento de que há lutas na vida a enfrentar, mas, na segunda parte, nenhuma teologia que pudesse vir ao encontro de todas essas necessidades; antes, um panorama social que poderia, com exceção dos versículos citados, ser oferecido por algum professor desses cursos oferecidos pela CPFL transmitidos pela TV Cultura (quer dizer, esses seriam melhores).

            Nesse afã por serem relevantes, muitas igrejas acabam deixando de lado o específico da igreja cristã: Cristo. Veja-se que aqui começamos a delinear uma resposta levantada pelos dois textos anteriores. Ao abrir mão de uma teologia cristã, a igreja envereda por um discurso que acaba por não possibilitar às pessoas que se deem conta do que está envolvido no professar a Cristo como Senhor. A meu ver, as angústias do presente momento na Europa devem ser tratados, no caso da igreja cristã, por uma teologia que fale do significado da encarnação do Emanuel (Deus está conosco), que trate da atuação de Deus na própria vida, não como paralela a ela (o que justificaria a chuva de petições por uma intervenção milagrosa), que fale do milagre como mudança de perspectiva, não como expectativa pelo inexplicável, que fale da importância da ajuda e fortalecimento recíprocos (aí está a comunhão cristã), que mostre o quanto Deus nos acolhe mesmo às expensas do sentimento de nosso próprio coração (I Jo.). Não convém deixar a teologia de lado.  

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 21:32:45
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7bis-9, rue Clignancourt – Église Evangélique de la Grâce. Domingo, 12 de dezembro de 2010.

 

            Não fosse por um casal e uma senhora que chegavam à igreja naquele momento, eu não teria encontrado o local de culto; mais dois ou três minutos e eu tomaria o metrô de volta para casa. O salão de culto da igreja ocupava os fundos de um terreno cuja entrada era obstruída por um grande e insuspeito portão de ferro. O lugar, a bem da verdade, é provisório, posto que a igreja, até aquele momento, procurava um local para comprar e poder se reunir de forma mais apropriada e definitiva.

            Se em Bétanie nos deparamos com uma ênfase “horizontal”, a Église de la Grâce nos convida a pensar a “verticalidade”. Qual a ressonância de uma pregação que em nenhum momento considera as dificuldades que a modernidade impôs à transmissão “calma e tranquila” da mensagem de Deus ou sobre ele?

            A pregação se baseou em um texto de Números (não guardei o texto nem tinha nada à mão para anotá-lo) que fazia referência a Moisés e a um toque de trombetas. Maiores referências não fazem falta aqui, uma vez que o tema da mensagem foi simplesmente este: “trombetas”. Guardadas as diferenças culturais e sociais, em suma, contextuais, da mesma maneira que o povo de Israel marchava ao toque de trombetas – e essas trombetas eram um sinal inequívoco do falar de Deus – também hoje devemos estar atentos às trombetas que nos são tocadas a todo instante por Deus no sentido de encaminhar nossas escolhas, decisões, momentos de marchar ou de estacionar. A palavra “trombeta” foi repetida à saciedade, como nesse parágrafo que você ora acaba de ler. É a verticalidade da mensagem em sua forma mais direta.

            É certo que a fé em uma forma menos crítica não se questiona sobre esse tipo de pregação. A maioria das pessoas não se incomoda quando se fala de forma tão fácil do agir de Deus, de sua fala, da maneira pela qual estamos “no centro de sua vontade”. Mas o fato de as igrejas na Europa ocuparem uma visibilidade tão diminuta na sociedade não nos obriga a colocar a questão? Muito se fala sobre os motivos da “secularização” do Velho Continente, e a resposta certeira e definitiva à questão não é simples. Mas é difícil acreditar que essa velha teologia, que pensa a presença e manifestação de Deus no mundo nos termos mitológicos utilizados pela linguagem bíblica, possa ser atual ainda hoje. E nesse momento se coloca a questão: falar de forma direta dessa presença de Deus na vida, comparando-a com a clareza de um toque de trombetas, faz sentido para quem tem uma fé pouco afeita à reflexão. Mas, e para quem não tem? E para aquelas pessoas cuja fé não é sinônimo de sacrifício intelectual? E junto a quem não crê, essa mensagem exerce algum tipo de apelo minimamente convidativo?

            Alguém talvez possa nesse momento fazer referência ao antigo axioma de Anselmo, “Creio para compreender”, o que talvez resolvesse a questão: essa mensagem faz todo sentido pra quem crê, ponto final; os demais que se convertam. Mas, e se, concordando com Moltmann, invertêssemos o axioma: “Compreender para crer”? Nesse sentido, a mensagem que ouvi na Église Evangélique partia de uma petição de princípio de difícil absorção pelo homem contemporâneo: “Deus, no céu, nos envia sua mensagem com uma clareza indubitável. Cumpramo-la”. Para uma igreja que tem uma agenda de final de ano voltada para a evangelização, como é o caso desta, não é o caso de se repensar a mensagem?

            Aqui nos deparamos com a questão da forma pela qual a verticalidade da fé pode ser vivenciada no mundo contemporâneo. De um lado, afirmamos: ela não pode excluir a horizontalidade. A partir do momento em que deixa de lado a percepção do rosto de Cristo no rosto do semelhante essa fé perde sua “cristicidade”, deixa mesmo de ser cristã. Mas, como fica a verticalidade? Em outros termos, como se vivenciaria isso que é próprio da fé cristã, que é parte só dela e só por meio dos seus símbolos chega aos ouvidos humanos?

            Apenas como apontamento, diria que a mensagem deve possuir uma linguagem honesta. Deve assumir humildemente que na sociedade atual ela não possui mais – felizmente – o poder da imposição. Ela deve convencer por meio do diálogo, tentar mostrar por que é a melhor opção dentre as tantas existentes. Deve saber que não tem mais o monopólio das explicações dos fenômenos, melhor e mais convincentemente descritos pela linguagem da ciência. Ela deve se saber fraca, impotente. Serva de um mundo pleno de conflitos, desejosa de servir aos gestos os mais diversos que anseiam por humanização. Deus falando por meio de trombetas pode soar imponente, mas sugere um olhar para a vida comum com um nariz levemente empinado...

            Sem essa “tomada de consciência”, acontece o que senti na igreja neste domingo: temos o ritual religioso, que pode ser um importante elemento de fortalecimento da fé, cantamos canções em que podemos expressar nossa devoção a Deus, mas, quando lançamos mão de nossa teologia de maneira mais reflexiva, por meio da mensagem, há uma desconexão, uma quebra, um curto-circuito com a vida, porque nela as coisas não se passam conforme o sermão afirma.



Escrito por Leandro T. Almeida às 11:46:38
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No aniversário da Reforma, post sobre a inestimável contribuição de João Calvino à convivência pacífica entre cristãos adeptos de diferentes opiniões sobre pontos controversos da fé cristã.

Em co-autoria com André Carreiro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Escrito por Leandro T. Almeida às 18:49:43
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185, rue des Pyrénées – Église Reformée de Béthanie. Domingo, 28 de novembro de 2010.

 

Desci na estação Pyrénées do metrô de Paris. Mal sabia que a igreja distava dali mais ou menos um quilômetro. Preocupado em não chegar após às 10:30h, horário de início do culto, observei com pouca atenção a feira livre parisiense, com suas bancas voltadas para a calçada e não para a rua.

            A primeira fala da pastora foi sintomática da situação da fé reformada na Europa: “o número não é o mais importante”. Com o tempo, contudo, as pessoas foram se achegando e o pequeno templo, se não ficou repleto, ao menos tinha as cadeiras ocupadas em sua maioria. Maioria negra, de imigrantes ou seus descendentes, seguida por idosos e, a seguir, por pessoas de meia idade. Jovens, somente entre os negros. A não ser pela da pastora, não foi possível identificar nenhuma outra família que pudesse ser representante típica da sociedade parisiense.

            A liturgia misturava formalidade (exemplificada no texto impresso que acompanhava os hinários) e informalidade (a fala da pastora, o modo como anunciava os cânticos, o jeito espontâneo e expansivo). Uma leitura bíblica inicial, impressa na folha, uma vez que nem mesmo a pastora portava uma Bíblia, seguida de cânticos, após o que, uma oração. Nesse dia pude acompanhar uma inovação litúrgica que era novidade mesmo entre eles. Não haveria um sermão. Após a leitura, por várias pessoas, de trechos de Gênesis 45, que se concentrou sobre a revelação de José a seus irmãos, quatro duplas ficaram encarregadas de ler trechos que propunham reflexões sobre a leitura bíblica realizada.

            Assim, um primeiro casal, formado pela pastora e seu marido, iniciava um diálogo que propunha perguntas em torno do texto bíblico; o casal seguinte continuava a discussão, abordando outras questões e assim sucessivamente, até o último. Nessa pequena encenação, foram abordadas questões como o perdão, a imigração, a adoção, a mistura de nacionalidades na França.

            O novo formato permitiu a participação das pessoas na liturgia. Parte delas deixou de ser mero ouvinte para ser participante e executor do serviço cúltico. Só por esse aspecto a liturgia já é digna de interesse para quem tem a preocupação de superar um certo sacerdotalismo existente mesmo em igrejas reformadas, nas quais predomina soberana a figura do pastor, com destaque absoluto em tudo o que se faz à frente do púlpito. Mas há um outro aspecto, ainda mais interessante: perguntei à pastora se ela, sozinha, havia preparado toda a prédication, e ela me disse que todos que haviam falado participaram de sua elaboração durante a semana anterior ao culto. Esse é outro ponto de destaque. As pessoas puderam trazer seu conhecimento, sua experiência, seu modo próprio de enxergar a fé para compartilhar com a igreja.

            Havia uma clara preocupação com a contextualização da mensagem. Nada da prática tão comum de se tomar as narrativas do Antigo Testamento para falar de coisas desencarnadas como “A Soberania de Deus”, “A Doutrina da Providência”, “As Etapas do Processo Salvífico”, doutrinas que poderiam ser pronunciadas em qualquer país do mundo, exatamente da mesma maneira, sem qualquer relação mais premente com a realidade de cada um deles. A prédica que ouvi, pelo contrário, trazia o relato de José para a realidade dos franceses (das periferias, talvez pudesse dizer), daí que só ganharia pleno sentido para aquele auditório. A questão da imigração, a mistura de etnias e nacionalidades, as crianças de países pobres abandonadas, o perdão, todas essas questões foram tratadas sob um prisma que convidava à abertura fraterna e ao acolhimento cristão, semelhantes ao acolhimento que o injustiçado José ofereceu a seus irmãos. Não tenho condições de avaliar, obviamente, o impacto dessas palavras na vida prática das pessoas. A maioria delas estava mais na posição de ter que ser acolhida que acolher. Mas, ainda assim, não pude deixar de comparar com as mensagens que ouço no Brasil, as quais me pareceram bem mais pobres e menos ousadas na leitura do texto bíblico.

            Mas há outra questão que se impõe: em uma reunião do Partido Comunista, as palavras seriam muito diferentes? Acolhimento das diferenças, cuidado com os mais pobres, atenção às crianças fragilizadas. Se tais questões também seriam postas pelo Partido, qual a necessidade da Igreja? Essa pergunta remete a duas reflexões.

            A primeira, sobre uma falsa oposição ou uma falsa acusação que se faz a algumas igrejas ou teologias. Já ouvi críticas provenientes de alas conservadoras, dirigidas, por exemplo, à Teologia da Libertação, que diziam que as igrejas que a adotavam haviam se resumido à questão social; que, portanto, em nada se diferenciariam de partidos políticos. Essa redução é realmente indesejável, mas a ausência de qualquer contato entre o que a Igreja proclama e o que setores sociais interessados em transformação social dizem certamente não é um ideal a ser perseguido. Em vista da proporção e do domínio que o Mercado ganhou na sociedade contemporânea, é de se esperar que haja muitos pontos de contato entre aquilo que a Igreja, em sua leitura da Bíblia, tem a dizer, e o que partidos políticos de esquerda têm como proposta. Não há problema nesse cruzamento de ideias. O problema é quando ele inexiste, pois mostraria uma Igreja alheia às demandas de transformação social presentes na sociedade.

            Mas não há dúvida, contudo, de que a Igreja não pode parar no aspecto social. E é aí que está um grande desafio para ela, seja na Europa seja no Brasil: conciliar a horizontalidade da fé com sua necessária e incontornável demanda vertical. Nessa visita à Église Reformée de Béthanie, vi que a primeira parte foi contemplada de forma digna de destaque. Mas permanece a questão: como vivenciar a verticalidade da fé em uma sociedade secularizada? Essa questão me parece essencial e uma demanda urgente nesse país, em que apenas 4% da população se diz participante da fé reformada.  

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 07:52:40
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Sugestão aos que, na IPB, estão preocupados com a “praga” do “liberalismo”

 

            Pela frequência com que abordam o tema e a importância que lhe dão, achei que seria útil oferecer aos conservadores da IPB alguns conselhos a respeito de como se livrar com facilidade daquilo que chamam de “liberais”. Como se sabe, esses tais são uma das grandes ameaças que pairam sobre a igreja, pois eles, segundo consta em sua “ficha corrida”, arrefecem a fé das pessoas, desviam os crentes do caminho correto e inoculam, no coração dos fiéis, dúvidas mortais sobre a veracidade da Bíblia. Postas em prática, minhas sugestões minariam qualquer argumentação desses "desajustados" que insistem em continuar na IPB – remando contra a maré a maior parte do tempo –, dentre outros motivos por acreditar que têm uma contribuição a oferecer em um âmbito confessional reformado. De modo geral, o alicerce dos meus conselhos consiste em sugerir aos conservadores que admitam algumas mudanças decisivas em relação à tradição reformada. Isso facilitaria muito as coisas:

            Não mais “livre exame das Escrituras”. Esse lema pode gerar mal-entendidos. Pode dar a entender que as pessoas são de fato livres para ler a Bíblia e chegarem à interpretação permitida, em última instância, pela sua consciência. Ao invés disso, o lema deve ser “livre exame das Escrituras que confirme as interpretações de antemão autorizadas”. Pronto. Adotado esse lema, fruto de ligeira transformação do lema reformado, não se poderia mais invocá-lo para justificar alguma leitura heterodoxa. Talvez nos aproximássemos demais de um sistema católico, em que as interpretações são posse do magistério da igreja. Mas isso é de somenos. O importante é que minaria os argumentos desses “atiradinhos” que ousam ler a Bíblia sem esse compromisso prévio com determinadas interpretações.

            Não mais, consequentemente, “Sola Scriptura”, mas “Sola Scriptura secundum Confessionem Fidei” (ou, Só a Escritura segundo a Confissão de Fé, se o latim não estiver tão errado). O lema reformado gera argumentos aos “liberais”. Se somente a Escritura é a “regra de fé e prática” (ahã...), não há, no limite, a necessidade de confirmar alguma leitura previamente aceita, porque uma leitura nova do texto pode, realmente, gerar uma interpretação ainda não conhecida ou admitida. E, de fato, na IPB, não se aceita qualquer leitura que não confirme o que já está dito pela Confissão de Fé de Westminster. Apenas se deixe explícito o que está implícito. Admita-se que qualquer exegese só pode ter como resultado aquilo que já se sabe, e que qualquer possível interpretação divergente deve ser revista até que não contrarie o sistema teológico. Em última instância, deixe-se claro que a Confissão de Fé é o óculos pelo qual a Escritura deve ser lida.

            Não mais “Igreja reformada sempre se reformando”, mas “Igreja reformada e indisposta a qualquer mudança subsequente”.  O segundo lema tem sido posto em prática com evidente clareza atualmente. Veja-se o caso da “Chácara Primavera”, em Campinas. Conquanto promova mudanças que considero bastante conservadoras, posto que mantêm intocado o edifício teológico em vigor, tem sido duramente criticada pelos setores conservadores. A “Chácara” é exemplo de um modo possível de reforma na igreja. Concorde-se ou não com ele, é legítimo a partir do lema reformado. Daí a necessidade de se admitir que o ideal dos reformadores não serve atualmente ao ímpeto conservador.

            Admitidas essas mudanças, os ditos “liberais” teriam muito mais dificuldade do que já têm para propor suas ideias. Elas, as mudanças, poderiam ser expressas resumidamente em uma declaração: “A IPB admite sua origem no movimento da Reforma Protestante, mas, em nome de um ideal conservador que não deseja perder, promove algumas mudanças em relação a alguns lemas caros aos reformadores. Em lugar do “livre exame das Escrituras” adota-se o “livre exame das Escrituras que confirme as interpretações de antemão autorizadas”. O “Sola Scriptura” dá lugar ao “Sola Scriptura secundum confessionem fidei”, e o lema “Igreja Reformada sempre se reformando” cede espaço ao “Igreja reformada e indisposta a qualquer mudança subsequente”.

            Se essa atitude for tomada, que se me afigura como a admissão explícita de uma negação implícita do ideário reformado, eu mesmo faço minhas malas e pico a mula.  

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 10:08:25
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É isso que queremos? II

 

Retomo o curto texto do “tempora-mores” que motivou o post abaixo (“Aos irmãos diálogo. Aos outros evangelismo”) para tecer alguns comentários que acredito que ele ainda suscita. Como disse anteriormente, o que nomes que ocupam cargos influentes de poder na IPB dizem acaba por interferir mais ou menos na vida de seus membros, dizendo respeito às suas atividades eclesiásticas de uma maneira ou de outra. Essa é a justificativa para insistir no assunto.

            Gostaria de apontar o caráter positivo da publicação do curto texto no “tempora-mores”, por paradoxal que possa parecer a afirmação. Acredito que nossas ações são sempre motivadas, por circunstâncias, desejos, táticas, enfim, algo mais que mero exercício absolutamente descompromissado com qualquer instância extrínseca a elas. Nesse sentido, das duas uma: os convites para debates que o articulista do “tempora-mores” alega ter rejeitado têm sido provenientes de membros do seu círculo ou de fora dele. No primeiro caso, as pessoas que se identificam com suas ideias estão ansiosas por ver o pensamento conservador se sustentar diante de seus detratores; no segundo, os que têm sido alvo de ataques fundamentalistas esperam que esses mesmos ataques se sustentem em um ambiente público de debate. Qualquer que seja o caso, no entanto, o aspecto positivo se ressalta, pois mostra que já não é mais possível lançar afirmações sem a preocupação com sua comprovação ou com sua manutenção diante do contraditório; não basta alegar filiação a essa ou àquela tradição teológica para que ela seja automaticamente reconhecida. Essa filiação tem que ser justificada por meio de argumentos. Partidários ou não do fundamentalismo esperam que fundamentalistas comprovem suas afirmações, debatam suas posições, mostrem a validade de suas leituras e interpretações. De alguma maneira, o articulista tem sido cobrado nesse sentido. Já não é tão fácil fechar-se em uma redoma que esteja imune a questionamentos.

            O post do “tempora-mores” também é muito útil para mostrar as incongruências dos argumentos fundamentalistas. Retomemos seu raciocínio. Ele sugere que aqueles que se “desviaram do cristianismo histórico” já optaram por determinada postura e não estão dispostos a mudar de opinião: “já tomamos nossas opiniões e fizemos nossas escolhas”. Mas uma crítica dos fundamentalistas contra os que chamam de “liberais” – justamente os “desviados” da afirmação anterior – não é sua constante mudança de opinião, sua volubilidade, sua “pós-modernidade”, que significaria a pouca adesão a ideias sólidas, imutáveis? Quando interessa, os liberais são incapazes de sustentar afirmações; quando não, apegam-se imutavelmente a elas. Além disso, foi o próprio articulista do “tempora-mores” o autor da seguinte afirmação: “Nossa época perdeu a virilidade teológica. Vivemos dias de frouxidão, onde proliferam os que tremem em frêmito diante de uma peleja teológica de maior monta”. Ora, não é o debate justamente o local adequado para pelejas teológicas de maior monta? Ou o autor se referia apenas à confortabilidade da crítica esmagadora ao oponente quando rodeado dos seus pares? (lembremos da “endogamia hermenêutica” do post abaixo). A tática fundamentalista dos articulistas do tempora-mores é a da generalização (visível, por exemplo, no início do post que ora critico aqui), da adjetivação excessiva, da falta de comprovação de suas posturas que tenham validade em um ambiente público (no qual afirmações fideístas não servem como argumento), da caricatura lançada ao argumento do outro (que se leia “A Bíblia e seus intérpretes” de Augustus Nicodemus Lopes e um comentário sobre esse livro, “Carta amiga”, de Osvaldo Luiz Ribeiro, para se perceber a diferença qualitativa da argumentação).

Por fim, a inquestionabilidade dos seguintes pontos: “Trindade, os atributos de Deus, a divindade de Cristo, sua ressurreição literal de entre os mortos, a inerrância da Bíblia, a salvação pela fé sem as obras da lei, a segunda vinda física e pessoal de Jesus, a vida eterna e as penas eternas” acaba revelando, talvez a contragosto, o enrijecimento atual dos que se alegam herdeiros da Reforma Protestante. Não estou dizendo que estes pontos devam ser negados, apenas que podem ser discutidos, reavaliados, transformados, rejeitados ou, claro, também aceitos. Mas aceitos, se for o caso, não a partir da imposição, como acontece na igreja atualmente, mas da sua “sobrevivência” diante do confronto democrático com visões distintas. Caso contrário, a adesão à fé em Cristo tem um pedágio a pagar, uma mediação a cumprir, uma condição de possibilidade: subscrição ao corpo doutrinário. Isso é a recostura explícita do véu do templo, para usar uma imagem que todos entendem. Além disso, como pode ser sustentada a ideia de que vigora nas igrejas de tradição reformada o livre-exame das Escrituras, uma vez que não será reconhecida como legítima nenhuma leitura da Bíblia que afirme o contrário do que a tradição já disse quanto aos “pontos fundamentais”? “Livre-exame” para necessariamente reafirmar o já sabido é piada de mau gosto.

Ao dizer todas essas coisas, no entanto, gostaria de deixar bem claro um aspecto que não sei se tem sido observado com cuidado pelos críticos dos fundamentalistas. Não defendo a exclusão dos fundamentalistas da igreja. Não acredito que eles devam ser expulsos de seus postos, perder suas salas de aula, deixar de ter publicados seus livros. Acredito que são legítimos sua luta e seu desejo por uma igreja mais tradicional, mesmo fundamentalista (em sentido estritamente teológico). Defender seu esmagamento seria copiar seu gesto em relação aos “liberais”. Seria o mesmo que seguir sua atitude, com a diferença do polo invertido. Acho que a postura fundamentalista é equivocada, mas é um direito. Minha crítica, no entanto, permanece válida a partir da significação que atribuo ao termo “fundamentalista”. Por mais que defendam a ideia de que ao se designarem como fundamentalistas os fundamentalistas estão meramente fazendo referência aos fundamentos teológicos que acreditam inegociáveis, sua atitude é indicativa de exclusivismo e perseguição contra quem não pensa como eles. Essa atitude, que classifico como fundamentalista, é que deveria ser condenada na igreja e deveria ser extirpada de seu meio. Ela é a fonte das inquisições que ainda hoje continuam existindo, felizmente através de métodos menos brutais. Em outras palavras: sento à mesa da comunhão com um fundamentalista, e luto contra seu fundamentalismo porque ele não faria o mesmo em relação a mim. 

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 18:02:56
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É isso que queremos?

 

Alguns rápidos comentários sobre o último post do blog “tempora-mores”, que expressa o pensamento de importante corrente político-teológica da IPB. O post é preocupante não só por expressar o pensamento de quem ocupa importantes cargos de poder, mas também porque atrai muitos seguidores. Dentre eles, alguns que fazem questão de deixar registrado seu apoio nos comentários.

            O título do post é sugestivo: “Aos irmãos, diálogo. Aos outros, evangelismo”. Não há nele qualquer ironia, como se veiculasse alguma crítica a um pensamento intransigente. Antes, ele é expressão cristalina de uma visão de mundo, de uma maneira de se encarar a multiplicidade de expressões da fé cristã. O articulista procura explicar o motivo pelo qual não tem aceitado convites para debates com “figuras que acabaram se desviando do cristianismo histórico”. É que o diálogo que teria que ser travado em tais debates pressupõe alguns gestos ou concepções que o articulista não está disposto a assumir: “abertura para mudança de opinião, ponto de vista ou postura”; admitir que “nada é fixo, que tudo pode mudar”; reconhecer que “posições defendidas podem estar erradas”. Um diálogo também traria o inconveniente, na visão do articulista, de elevar o “acordo” a “paz” e a “harmonia” a uma posição superior à das convicções pessoais, que jamais poderiam ser relativizadas para que “acordo”, “paz” e “harmonia” prevalecessem entre as pessoas.

            Qualquer diálogo, portanto, que almejasse discutir o que o articulista chama de “pontos centrais do Cristianismo” não poderia ser levado a cabo, uma vez que ele está “absolutamente convencido” da veracidade e imutabilidade de cada um deles. O único diálogo possível, finaliza, dar-se-ia sobre aspectos “secundários” da fé cristã.

            O que tal postura significa? Primeiramente, ela explica o motivo pelo qual os teólogos da IPB praticam o que João Cezar de Castro Rocha chama de “endogamia hermenêutica”, ou seja, “a prática característica de grupos autocentrados, cujas interpretações são sempre confirmadas e, sobretudo, reproduzidas pelos membros do grupo”. A consequência dessa prática é que ela “implica total indiferença em relação a outras possibilidades interpretativas”. Os teólogos de maior destaque na IPB são, curiosamente, aqueles que não ocupam assento em qualquer outro círculo teológico que não aqueles que confirmam o que eles já pensam (seja no Brasil ou nos EUA). Eles não têm nenhuma expressão fora desse restrito círculo, justamente porque (como, aliás, coerentemente reconhece o articulista do “tempora-mores”) não admitem uma base comum de debate, mas somente aquela que participe de seus pressupostos, que não é outra coisa que não a sua leitura particular da Bíblia (ou, acrescentando, sua apropriação de determinado pensamento na história das correntes de pensamento oriundas do cristianismo). Não sei se se dão conta de que a única coisa que produzem em termos acadêmicos é material para quem pesquisa o fenômeno do fundamentalismo na contemporaneidade... (afora, evidentemente, como já disse, os membros de seu restrito círculo de influência, no qual nada que já não tenha sido dito alguma vez pelos puritanos ingleses será dito). Por sua vez, os teólogos da IPB que realizam pesquisas acadêmicas capazes de figurar em debates públicos não escrevem no Brasil Presbiteriano, não aparecem no “Verdade e Vida” e não têm seus livros publicados pela Cultura Cristã.

            Chama a atenção também a infantilidade da postura demonstrada no post em questão. “Só aceito dialogar com quem concorda comigo” seria uma paráfrase nada exagerada dela. Mas a partir disso, pra que diálogo? O próprio articulista admite que um diálogo, para ele, teria que se dar apenas ao redor de coisas de importância secundária. Ele se comporta como esse adultos adolescentes que posam como pessoas sem qualquer necessidade de aprendizado porque já teriam aprendido o suficiente, não obstante a flagrante contradição que sua própria postura apresenta para essa afirmação. O conservadorismo teológico não deve ser encarado como mera postura intelectual, mas como algo que se liga a toda a psique de uma pessoa, que, normalmente, carece de algo que lhe proporcione segurança diante de seus temores, inseguranças e fragilidades. Ora, não se trata de dizer que os não conservadores não tenham também seus temores, inseguranças e fragilidades, apenas de sugerir que lidam com essas questões de maneiras mais amadurecidas, menos infantilizadas. E seria injusto que o articulista atribuísse essa postura intransigente aos seus opositores, uma vez que a prática profissional deles mostra que estão em constante diálogo, debate e polêmica justamente porque aceitam fazer parte de um jogo em que ninguém pode se apresentar como o dono inconteste da verdade.         

            Não exagero quando digo que posturas tais como a que está em questão são concordes com o que de pior a história da humanidade já produziu em termos de convivência humana. Autos de fé, torturas inquisitoriais e câmaras de gás só são possíveis a partir de quem esteja disposto a sacrificar o “acordo” a “paz” e a “harmonia” em nome de uma ideia. O articulista afirma literalmente que não está disposto a abrir mão de suas ideias por coisas como essas. Ele prefere continuar sustentando seu corpo de doutrinas mesmo que isso gere desacordo, guerra e desarmonia. Prefiro a postura de Gianni Vattimo, essa sim possível de ser chamada de cristã: “Não digamos que entramos em acordo quando encontramos a verdade, mas que encontramos a verdade quando entramos em acordo”. Mais que mera frase de efeito, ela é a possibilidade de convivência pacífica entre os povos. Em termos mais concretos, ela é a possibilidade da manutenção da inviolabilidade dos corpos, garantia que fundamenta o Estado Democrático de Direito. Qual o ganho cristão de que, hipoteticamente, cristãos guerreiem contra os ateus pela manutenção de suas ideias? Se houvesse um acordo advindo de um diálogo em que ninguém estivesse sob ameaça de qualquer espécie, não seria isso o ideal de convivência entre os povos? Levada a sério e em seus desdobramentos últimos, a postura defendida pelo articulista conservador legitima a violência em nome da doutrina. Faltam-lhe, felizmente, os meios para realizar todos os seus intentos.

            Há que se ressaltar a incoerência da postura conservadora com aquilo que ela mesmo defende. Ela não está disposta a admitir que “posições defendidas possam estar erradas” nem aceita “mudança de opinião, ponto de vista ou postura”. Mas essa atitude contradiz a própria Confissão de Fé de Westminster, esteio das afirmações teológicas conservadoras, que afirma que “concílios erram e têm errado”. Mas se o que os concílios historicamente decidiram é imutável, isso é o mesmo que afirmar que são inerrantes. Se os pontos elencados pelo articulista são imutáveis, acabam se colocando no lugar que ele mesmo atribui, teoricamente, apenas à Bíblia. Ademais, se, como se afirma no conservadorismo, a “Queda” atingiu as faculdades humanas, qual a base para se ter tamanha confiança em suas possibilidades, de forma a acreditar que seus alcances são indiscutíveis? Uma postura conservadora coerente consigo mesma poderia, evidentemente, apegar-se a um corpo doutrinário, mas faria isso com a ressalva de que está aberta a uma melhor compreensão da mensagem da Bíblia, já que sua capacidade de elaboração racional está comprometida pelo pecado. A formulação doutrinária na prática conservadora não é outra coisa que não um ídolo: elaboração humana que se torna maior que seu próprio criador.

            Haveria mais a dizer sobre esse curto post do “tempora-mores”. Restrinjo-me ao que disse até aqui chamando a atenção para aqueles que na IPB têm, em alguma instância, o direito ao voto para cargos eletivos na igreja. Compreendo a distância que se quer ter, muitas vezes, em relação à prática e às ideias desses conservadores, o que significa uma concentração de esforços na comunidade local. Mas não é possível ignorar o rumo que a IPB toma quando dominada politicamente por esses grupos mais radicais. Querendo ou não, enquanto membros da igreja, aquilo que esses radicais dizem afeta todos os membros da igreja de uma maneira ou de outra. Precisamos estar atentos aos movimentos, às tendências, às movimentações de bastidores para, quando formos chamados a dar nosso voto não acabemos, pela indiferença a essas questões, nomeando como representantes da igreja aqueles que acreditam que qualquer pessoa que sustente uma opinião diferente da oficial seja alvo de um tratamento menos que humano, como esse, que diz que a única atitude possível diante de um diferente é tentar fazê-lo igual a mim.

 



Escrito por Leandro T. Almeida às 21:39:02
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Mais receitas

            Você seguiu as sugestões deste blog, terminou seu curso de propaganda e marketing, fez um curso instantâneo de data-show, enfatizou a necessidade de crescer como alvo acima de todos os outros alvos e, ainda assim, não atingiu o tão almejado sucesso. Calma, ainda há tempo. As receitas que se seguirão são infalíveis e se resumem, veja que beleza, a apenas duas.

            A primeira delas diz que você deve se especializar no uso de chavões-lugares-comuns-do-pensamento-evangélico. Eles existem aos montes e são muito úteis para realizar aquilo que é uma das exigências mais prementes do momento, inchar (ops!) sua igreja com pessoas quase nada dispostas a sair de sua zona de conforto. Aqui vai uma lista deles, com breves comentários (e não me esqueço de dar os devidos créditos ao amigo Brotas, que me ajudou nessa compilação):

 

- “antes de falar de Deus para uma pessoa, fale dessa pessoa a Deus!” Essa frase causa certa impressão no ouvinte. Ela contém um jogo de palavras que leva alguns centésimos de segundo para ser captada, mas, quando o é, o efeito é compensador, valendo até mesmo um “uau!” silencioso que renderá louros ao seu autor.

 

- “antes o nome no livro da vida que no hall da fama”. Aqui você sintetizará e alimentará a rivalidade naturalmente existente contra o “mundo” no coração do crente. Seu efeito é duradouro, sobretudo se o crente, nesse caso, estiver passando por alguma crise de auto-estima.

 

- “quando o diabo te fizer lembrar do seu passado, faça-o lembrar do futuro dele”. Essa é infalível em termos de apelo junto ao ouvinte, pois invoca o sobrenatural da maneira preferida pelo senso comum evangélico, ou seja, a do confronto cósmico em que Jesus é uma espécie de “super homem dos cristãos”. E quem não tem alguma coisa no passado pela qual se envergonha ou se lamenta...?

 

- “não diga a Deus que você tem um grande problema, diga ao seu problema que você tem um grande Deus”. Será impossível não emocionar seu ouvinte, que, normalmente, tem problemas a serem resolvidos e acredita que Deus existe para resolvê-los. É uma boa frase também para espiritualizar mesmo as questões mais comezinhas, como o IPVA, o desemprego ou a dor de dentes.

 

            A segunda receita é um complemento da primeira. Essas frases (que, veja bem, podem ser multiplicadas, aqui vai uma pequena amostra delas) não podem ser ditas de qualquer maneira, mas “à maneira chorandinho”. Isso quer dizer que você não deve pronunciá-las com a frieza de um iceberg, nem soluçando de tanto chorar. A maneira “chorandinho” é um quase choro, em que o ouvinte percebe que você está segurando as lágrimas, com dificuldade para se conter diante da solenidade que cada uma dessas frases representa. Seu ouvinte será impactado pela sonoridade delas, sem perceber o vazio que, na verdade, veiculam. Mas não é nada mais nem menos o que se espera do pastor: alguém que alimente o senso comum, mas faça isso de uma maneira a vibrar uma ou outra corda do coração, o suficiente para fazer valer a pena ir pra igreja ao invés de ficar em casa.

            Essas duas receitas são infalíveis. Utilize-as sem parcimônia, até porque a frequência de seu uso é inversamente proporcional ao tempo que você despende lendo bons livros. O único inconveniente é que você terá que renovar constantemente seu estoque de frases. Mas não esquente a cabeça. A internet está aí pra isso mesmo.



Escrito por Leandro T. Almeida às 17:01:18
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Mito e racionalismo

 

            O post abaixo, de meu amigo puritano, remeteu-me a algumas considerações que o professor José Severino Croatto ofereceu em seu livro “As linguagens da experiência religiosa”. Sua abordagem fenomenológica da religião oferece elementos bastante úteis para se pensar a experiência religiosa. Uma dessas utilidades se vê em seus comentários sobre o papel do mito na tradição ocidental. Vou abordar alguns elementos que acabam desembocando em um sentido bastante convergente com o que escreveu meu citado amigo do texto abaixo.

            Croatto se serve de Eliade para dizer que no século XIX começou a se esboçar uma distinção mais enfática entre mito e realidade: “o mito, diz Croatto, seria um produto da imaginação e de um estado imperfeito da linguagem, em contraposição à linguagem da ciência”. Essa concepção se nutre, lembra ainda o professor, do iluminismo do século XVIII, “com sua imagem do mundo dominado pela razão”. Pode-se perceber essa desvalorização do mito em autores como W. Wundt (1832-1920), que vai dizer que “o mito manifesta uma cosmovisão primitiva, anterior ao pensamento científico” e E.B. Tylor (1832-1917), que proporá uma contraposição entre “elementos racionais e elevados” (crença em um pai imortal e senhor) e “irracionais e degradantes” (categorias que descreveriam o mito). Assim, quem valoriza somente a racionalidade não simpatiza com o mito...

            O que chama a atenção é que a rejeição do mito como algo importante e válido na composição, explicação e elucidação da vivência religiosa (e por que não dizer experiência simplesmente humana?) está embasada em uma exacerbação do valor dado à linguagem racional, conceitual, presa à “realidade dos fatos”. Rejeita-se o mito por ser “pré-lógico”, “irreal” e “inexistente”, mas muitas vezes se esquece que o amparo para essa atitude é a valorização da razão, do real, das coisas que podem ser vistas ou descritas racionalmente.

            Nesse momento sou obrigado a concordar com meu amigo puritano do post abaixo. Entre os puritanos do século XXI reina uma ojeriza ao mito. Dizer que Adão é um personagem mitológico soa como blasfêmia, porque haveria nessa concepção um desprezo pela verdade da afirmação bíblica. Qual a fundamentação para essa atitude? Aquilo que, segundo Croatto, o século XIX tratou de solidificar: elevação da razão à condição de critério último de explicação da realidade, com consequente desprezo àquilo que não poderia passar por seu crivo. Valorizar-se-ia sobremaneira, ainda, a linguagem conceitual, o que acarretaria certo menosprezo pela linguagem simbólica, que, se perde em precisão referente, ganha, muitas vezes, na dimensão da abrangência do significado e na capacidade de comunicação.

            O mito, assim, jamais deveria ser contraposto à “realidade”, porque é uma maneira de captá-la de forma mais profunda, de uma forma muitas vezes interditada à precisão, mas pouco dinamismo para resistir às mudanças históricas, da linguagem conceitual (se em lugar da narrativa adâmica Gênesis tivesse oferecido uma tratado conceitual sobre o “pecado original” o texto permaneceria de maneira tão contundente em nossa mente tantos séculos depois?).

            Quando, portanto, os puritanos do século XXI lançam pesada artilharia contra o “racionalismo” dos liberais, mas, ao mesmo tempo, rejeitam qualquer presença de linguagem mítica na Bíblia, jogam gasolina na fogueira que tanto intentam apagar. Seu apego ao racionalismo é ainda mais flagrante quando se vê que entre os liberais os mitos transitam pacificamente, sem correrem o risco de serem aniquilados por uma razão senhora absoluta dos saberes. Quem mesmo, senhores puritanos, dá à razão uma proeminência que não lhe cabe a partir de uma vivência marcada pela fé?

             



Escrito por Leandro T. Almeida às 07:46:48
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Confissões de um puritano coerente

 

                Como puritano em pleno século XXI, sou contra as posturas teológicas liberais. Elas são racionalistas, uma vez que não aceitam aquilo que a razão não pode comprovar. Sua teologia não é derivada da Palavra de Deus, mas da leitura que fazem dela quando submetida às suas possibilidades racionais. A partir daí, Gênesis já não é mais literal, o Mar Vermelho não se abriu e Jesus não ressuscitou. Contudo, diferentemente de outros puritanos do século XXI, eu acredito que sou coerente, atitude que, por mais que tente, e com boa vontade, não vejo nesses meus caros colegas.

                Acredito nos efeitos devastadores e integrais do pecado original. Admito que minha razão foi afetada de maneira irreversível pela Queda. Por isso, ao ler a Bíblia, ainda que dela extraia doutrinas e acredite que as chamadas “Doutrinas da Graça” estejam amparadas por ela, não consigo admitir o lugar que ocupa, entre os puritanos, a Confissão de Fé de Westminster. Não porque não goste dela ou não reconheça sua importância, mas porque desconfio da minha razão: se ela foi duramente atingida pelo pecado original, qual a garantia de que possa apreender de maneira tão ampla, lógica e coerente o ensinamento bíblico? Digo isso porque, ao olhar para a Bíblia, vejo uma miríade de textos que aparentemente contradizem a relativa tranquilidade com que afirmações são feitas sobre questões gigantescas para uma mente tão limitada quanto a minha: a Confissão já explicou tudo, desde quem (ou melhor, o que) é Deus, qual a ordem da salvação, o destino final de homens e mulheres, os efeitos da depravação total, a justificativa para a predestinação etc. Como puritano, subscrevo a confissão, mas estou disposto a admitir outras confissões e mesmo a repensar as afirmações contidas nesta que reflete o pensamento do século XVII. Dessa forma, sou coerente, acredito, com o que nós, puritanos, dizemos sobre nós mesmos.

Peço perdão aos meus irmãos puritanos por dizer isso, mas a atitude deles é que é racionalista, porque é pouco crítica com sua própria razão. Não é que uma razão humilde, como acredito ser a minha, não possa fazer afirmações sobre Deus, o destino dos homens, predestinação e livre-arbítrio etc. É claro que pode. Eu mesmo faço. Mas com um sentimento de que elas são sujeitas à mudança, sujeitas a uma melhor leitura, a uma melhor apreensão do sentido dos textos, e mesmo ao aprendizado com os... perdoem-me... liberais. Acho que deveríamos, primeiramente, partir o pão com os liberais porque, a despeito de nossas opiniões serem divergentes, e muito divergentes, vejo neles fé, pois o fato de acreditarem em Deus e fazerem orações não se explica somente a partir de uma razão que não dê lugar à fé. Esse diálogo talvez me ajudasse a ver em que pontos minha razão tem falhado na leitura da Bíblia, atitude que, preciso confessar, a Confissão de Fé dificulta, porque, a partir dela, é tudo tão certinho, encaixadinho, logiquinho... mas meu temor e desconfiança advêm justamente daí: uma razão comprometida pelo pecado não seria capaz de abarcar as coisas de Deus com tanta precisão.

                Meu colegas dirão que me equivoco em um ponto: quem estabeleceu as doutrinas não foram mentes humanas, mas a Revelação de Deus. Eu estou prontamente de acordo. Minha ressalva é que não há garantias de que minha mente tenha captado a Revelação com a acuidade demonstrada na Confissão de Fé. A Revelação é infalível; minha razão, não. Por esse motivo acredito necessária uma mudança de postura de meus irmãos puritanos. Eles precisam ser coerentes consigo mesmos.    



Escrito por Leandro T. Almeida às 13:23:43
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