Reflexões para Refletir


Terça-feira , 15 de Dezembro de 2009


 

Em nome de quem?

 

            Discutia com alguém que insistia em alegar que a negação da ordenação de mulheres ao pastorado ou presbiterato das igrejas era uma determinação divina. A argumentação remetia a uma ordem de Deus para a criação que fora estabelecida “antes da Queda”, e, por isso, ainda fazia sentido que, hoje, a mulher “não exercesse autoridade”. O texto está lá em Timóteo, lido em suas minúcias, embora os versículos anteriores fiquem, misteriosamente, fora das considerações – uma vez que mulheres podem, ao menos, falar nas igrejas.

            Eu tentava dizer que a Bíblia, tendo emergido de uma cultura machista e patriarcalista, era, ainda assim, bastante “progressista” quanto ao papel das mulheres (basta pensar no papel que elas exercem nos Evangelhos), e que os resquícios, bastante perceptíveis, de uma cultura machista e patriarcal tinham que ser julgados – e condenados – à luz do que o próprio princípio do Evangelho traz como boa nova, como novidade: em Cristo não há homem ou mulher, senhor ou escravo, gentio ou judeu, pois Cristo é tudo em todos. A pergunta do meu “oponente” foi significativa: se é assim, se é preciso separar o que é cultural do que é Palavra de Deus, então o que vai sobrar da Bíblia?

            A conversa teve que ser interrompida por circunstâncias alheias, e por isso não pude dar minha resposta: o que sobra, subtraídos os condicionantes culturais prejudiciais à mensagem evangélica, é o que na verdade mais importa: o amor, a justiça, a fraternidade, a tolerância, a luta pela igualdade entre homens e mulheres, a vida em primeiro lugar...

            Depois desse episódio fiquei a me perguntar: qual a grande dificuldade em se aceitar, por exemplo, a ordenação feminina? Ou melhor, em nome de quem se defende ardorosamente ideias arcaicas como a dessa rejeição? Em nome de Deus? Na verdade, defende-se ideias como essa porque elas são fruto das próprias convicções, ardorosamente defendidas como vindo diretamente de Deus. Podemos perguntar: que tipo de Deus se aferraria a concepções como essa?

            O que vemos, então, é que os mais arraigados preconceitos, contra mulheres, homossexuais, tatuagens, brincos, estilos musicais, etc etc, são defendidos por homens que se acreditam donos de um mandato divino para exercer a separação entre o que Deus aprova e o que ele não aprova. A grande contradição é que não é difícil perceber o quanto tais atitudes se distanciam cada vez mais do amor, da tolerância, do acolhimento, da atenção realmente sincera para com a vida alheia. Daí que tais ações são motivadas por um ídolo, o ídolo dos próprios preconceitos e limitações.

            Não é o caso de dizer que Deus “quer a ordenação das mulheres”. Seria muito infrutífero, e impróprio, ficar brigando para se adivinhar o que “Deus quer ou não quer”. Ele já nos deu o mandato: amem-se uns aos outros. Assim, a pergunta correta não é se Deus quer ou não a ordenação de mulheres, que os homossexuais sejam admitidos nas igrejas, que o dízimo seja mesmo de 10% para todas as pessoas etc. A pergunta correta é: em todas essas situações, qual decisão expressa mais verdadeiramente o amor? Qual escolha é a mais amorosa? Quem tem que responder a essas perguntas somos nós. Quem se refugia em versículos bíblicos para dizer, por exemplo, que Deus não quer a ordenação de mulheres, deveria dizer que o mesmo que ordenou o amor aos inimigos é o mesmo que ordenou a morte de mulheres e crianças.

            Alguns dirão que é preciso pensar na “honra e glória de Deus”, tomar cuidado com o que é “abominável ao Senhor”. Concordo plenamente. Mas é preciso dizer que a honra e glória de Deus estão exclusivamente no amor, e onde ele se expressar. Abominação a Deus é a ausência da prática do amor, exclusivamente. Essas picuinhas dos cristãos, tradicionais ou não, remetendo a Deus seus preconceitos e suas discriminações é que desonra a Deus e é abominável a ele.

Escrito por Leandro T. Almeida às 09:08:38
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Sexta-feira , 04 de Dezembro de 2009


 

Inglês de Sousa

 

            Os caminhos que levaram à consagração ou ao ostracismo os nomes que permearam a história da literatura brasileira não são fáceis de serem decifrados. Em meados do século XIX, por exemplo, lia-se muito mais autores do que faz acreditar qualquer uma das Histórias Literárias que se pode consultar hoje; a acreditar no que dizem elas, os únicos romances existentes eram os de Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Machado de Assis... quando muito os de um Teixeira e Sousa... isso para não falar no juízo que emitem sobre eles, tributário de anacronismos e generalizações arbitrárias.

            Por isso é sempre salutar desconfiar dos grandes panoramas, das Histórias que dão conta de tudo, seja da literatura ou da filosofia, resignar-se à impossibilidade de conhecer tudo muito profundamente ou – tendência cada vez mais presente hoje em dia – rapidamente, para dar lugar à consciência de que, em se tratando de ciências humanas e artes, conta muito, mais que tudo, o tempo despendido a fruir as obras mesmo, o contato com os autores e seus livros, sem a intermediação de escolas, movimentos, esquemas abrangentes demais, processo lento, reconheça-se, mas muito pleno de sentido.

            É assim que podemos hoje, e aqui vai mais um exemplo, gastar tempo para ler um autor esquecido, presente nas famigeradas histórias da literatura, mas sempre de modo en passant, como é próprio delas fazer com todos os autores. Um desses, que vale a pena, é Inglês de Sousa, autor que procurou situar sua obra sempre no Amazonas, nos arredores da cidade de Óbidos, onde nasceu. Seu romance mais famoso é O missionário, embora os mais saborosos sejam, a meu ver, O coronel Sangrado e a coletânea Contos Amazônicos.

            Os contos partem todos de situações pitorescas da Amazônia, das lendas comuns por lá, e são histórias sempre trágicas, sem final feliz, sem escapatória para os que vivem à margem das grandes cidades, entranhados na floresta – que, por sua vez, não é predominantemente deslumbrante como temos ideia a partir do que se fala dela por quem lá não habita...

            Já o romance O coronel Sangrado é, pode-se dizer, muito atual. A história é bem contada, e podemos ver em micro-escala – a pequena cidade de Óbidos – as tramas da política brasileira, com seus conchavos, seus acordos silenciosos, suas traições e interesses particulares. O personagem que dá nome ao romance é o exemplo daqueles que dedicam sua vida a uma causa – a uma, no entanto, que termina por fazer perder a vida daquele que a ela se dedica, a política. Ao ver muitos dos deputados e senadores da Brasília de hoje, a associação com o personagem de Inglês de Sousa é inevitável: a mesma sanha com que lutam pelas suas causas políticas é a que faz serem homens unidimensionais, sem qualquer outra perspectiva que não a do poder – ainda que se saiba que esse poder não está a serviço de nenhum projeto de ação efetiva àqueles em nome de quem é exercido: o povo, essa entidade usada e abusada na boca dos políticos. Pode-se ainda contemplar o drama de mulheres sem perspectiva, sem autonomia, cuja única esperança é um casamento arrumado por interesses, como acontece com Mariquinha, que fecha o livro em uma cena de penúria presente em muitas vidas sem qualquer sabor ou propósito.

            Ler a literatura do século XIX - assim como de qualquer época, a bem da verdade - requer esforço, uma dose, ainda que pequena, de especialização, que não significa outra coisa senão o conhecimento das convenções e discussões próprias da época. É um preparo que não sei se as pessoas querem adquirir hoje em dia. Mas que, quando exercido, permite que não fiquemos reféns somente do que está na moda ou do que os outros acham que é bom. Cada um deve saber dar razão do gosto estético que há dentro de si.

              

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 15:02:56
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Segunda-feira , 23 de Novembro de 2009


 

Caim


            O romance mais recente de José Saramago desperta duas possibilidades muito claras. As duas me parecem um tanto antagônicas, não entre si, mas levando-se em consideração o fato de provirem de um mesmo escritor. As duas são bons exemplos do que Saramago faz quando aborda temas bíblicos, e lembramos aqui de O evangelho segundo Jesus Cristo, embora em Caim tenha lhe faltado em ainda maior escala algo que me parece tão importante na literatura, a sutileza.

            Uma dessas possibilidades se me afigura bastante positiva. Ela responde pela crítica veemente, ácida, necessária, que se faz a um deus que, fosse mesmo como uma leitura ao pé da letra do Antigo Testamento no leva a concluir, não seria mesmo digno de devoção sincera por parte dos fieis. Saramago explicita os absurdos advindos da crença em um deus que manda matar mulheres e crianças, destrói a vida de um justo baseado numa aposta da qual sabia, de antemão, o resultado, faz arder com chuvas de fogo até mesmo crianças que ainda não puderam escolher entre o bem e o mal (ou, pior, seriam dignas do fogo porque esse mesmo deus decretou que são “totalmente depravadas” ainda no ventre de suas mães). Dessa forma, ao acompanhar um errante Caim pelas terras palestinas, somos expostos a um panorama do Antigo Testamento e de passagens que têm sido lidas, até hoje, não como uma etapa de um processo penoso de revelação, cujas dificuldades e impasses adviriam não da morosidade e relutância divina em se manifestar, mas da própria dificuldade e vacilo, dos acertos e erros do homem em conseguir perceber o rosto sempre materno de Deus dentro de seus limites históricos. Dessa leitura literalista e não ciente da revelação como processo faz sentido acolher o romance de Saramago como crítica justa e severa.

            Mas a outra possibilidade mostra como o leitor da Bíblia Saramago é limitado, pobre, amargurado, indisposto. A leitura que ele faz do Antigo Testamento é a leitura menos especializada, é a leitura que já foi, há muito tempo e por muita gente, desacreditada, para dar lugar a uma que leve em consideração, como dissemos, a revelação como processo, e não fato dado e definitivo. Assim, onde Saramago vê o sadismo de um deus que pede seu próprio filho em sacrifício, podemos hoje ver uma narrativa que quer desestimular exatamente o sacrifício humano; onde Saramago vê a intransigência de um deus que quer atear fogo a uma cidade inteira, podemos ver a paciência divina em ouvir Abraão, ou, de outra forma, agir não por mero capricho, mas motivado por uma ideia alta de justiça e respeito entre os homens; onde Saramago vê a tirania de um deus que expulsa o homem e a mulher de sua terra, podemos ver o cuidado divino em vesti-los e permitir-lhes descendência. O leitor Saramago faz questão de ignorar todo o avanço da ciência bíblica, que tornou muito mais claro o processo de produção dos textos bíblicos e sua positiva alteração em relação aos textos mais antigos que lhes inspiraram, alteração que sempre procurou descobrir um deus motivado por uma vida mais justa, e não por mera paixão baixa e rasteira como se vê nos deuses mitológicos. Mas o escritor português faz questão de ignorar essa possibilidade e se prende à letra do texto.

            O passeio de Caim pelos episódios bíblicos (que traz uma certa aura de Virgílio a conhecer o inferno, o purgatório e o paraíso dantescos), empreendido sem qualquer preocupação cronológica (o que facilita significativamente o trabalho do escritor) traz, então, no mínimo, as duas impressões expostas acima. O leitor atual que escolha qual das duas lhe atrai mais, uma ou outra lhe permitirá fazer tal ou qual juízo de Caim.

Escrito por Leandro T. Almeida às 10:27:13
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Sexta-feira , 13 de Novembro de 2009


 

Sobre o amor

 

“Em todo amor há pelo menos dois seres, cada qual a grande incógnita na equação do outro” (Z. Bauman)

 

         Qual o valor atual da palavra “amor”? Ela ainda diz alguma coisa? Essas perguntas fazem sentido se considerarmos algumas experiências que temos atualmente em relação a essa palavra. Nas novelas, por exemplo, os casais se dizem apaixonados, fazem declarações de amor, e logo a seguir já estão cada um com outro par. Nas revistas “Caras” da vida, vemos as celebridades contando todos os detalhes de seu casamento, do quanto amam seus maridos e filhos para, na próxima edição, dizerem a mesma coisa – a respeito de outra pessoa. Quando nos damos conta, vemos filmes, minisséries e novelas torcendo para que aquele galã finalmente consume sua noite de amor com a amante, o que dará uma nova emoção à trama – afinal de contas, um enredo que mostre um casal jovem, cujo casamento vá bem e mandando lembranças, não atrai público algum.

         Tudo isso, podemos dizer, vai aos poucos moldando as concepções que temos do que seja amor. E, não há dúvida, cada vez mais coisas vão sendo incluídas sob a descrição que essa palavra evoca. Como disse Z. Bauman: “Em vez de haver mais pessoas atingindo mais vezes os elevados padrões do amor, esses padrões foram baixados. Como resultado, o conjunto de experiências à quais nos referimos com a palavra amor expandiu-se muito. Noites avulsas de sexo são referidas pelo codinome de ‘fazer amor’”. Assim, com o passar do tempo, por falar de muita coisa, o amor acaba falando de coisa nenhuma.

         Todo esse conjunto de coisas acaba por nos levar à concepção de que amar uma pessoa é algo que depende de uma série de fatores – dentro dos quais o menos importante talvez seja a atitude daquele que ama. Parece que amo alguém enquanto sinto por esse alguém uma espécie de excitação permanente, um deslumbramento constante, uma certa falta de ar e uma sensível palpitação. Ora, mas todos sabemos que esse sentimento – paixão? – não permanece para sempre e nem pode ser produzido propositalmente. É algo que escapa ao nosso controle – inclusive no sentido de que não podemos senti-lo sempre que queremos. Mas é essa sensação que associamos, comumente, ao amor. E a prova disso é que, quando esses “sintomas” deixam de existir, achamos que deixamos de amar, e temos, então, que procurar outra pessoa que desperte toda essa gama de sensações – novamente, contudo, por um prazo determinado (e geralmente curto).

         Por isso o livro de Erich Fromm fala da “arte de amar”. Para ele, “a satisfação no amor individual não pode ser atingida... sem a humildade, a coragem, a fé e a disciplina verdadeiras”. "Humildade”, “coragem” e “disciplina” não são coisas que escapam ao nosso controle, pelo contrário: podemos produzir com nosso esforço. Esse esforço está incluído no ato de amar.

         Mas nos desacostumamos disso tudo. Muito do que existe a nossa volta quer nos fazer acreditar que não devemos demandar esforço para consegui-las. A comida vem no sistema “fast-food” (não obstante as comidas mais saborosas serem as de preparo mais lento), as mercadorias que compramos pela internet têm a promessa de chegada em menos de uma semana, não somos capazes de ficar um minuto “sem fazer nada”, e quando vivenciamos toda essa realidade nos relacionamentos amorosos não mudamos nossa forma de pensar: “E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro” (Bauman). Perceba que tudo o que foi dito a respeito de mercadorias serve para relacionamentos: alguém já pronto (ou seja, do jeitinho que eu quero), o prazer passageiro (nada de relacionamentos duradouros), a satisfação instantânea (as promessas de alegria de um encontro de uma noite), resultados que não demandam esforços prolongados (é preciso dar certo logo), receitas testadas (o relacionamento segue o script das novelas e filmes), devolução em caso de decepção (como se a "mercadoria" não tivesse sido bem escolhida).

         Depois de tudo isso alguém poderia perguntar: se amar é tão difícil assim, por que não desistir dessa coisa e virar logo um celibatário? Aqui poderíamos dizer que a exposição acima contemplou apenas uma face da moeda. Detivemo-nos em atacar um aspecto das relações afetivas, e por isso a exposição ficou um pouco ácida. Mas uma resposta possível é a seguinte: a visão de amor que propomos é realmente difícil porque, a partir dela, o amor deve continuar incluindo diferença, alteridade, autonomia, liberdade. Essa é, na verdade, a única experiência amorosa autêntica. Hoje vemos muitas experiências afetivas que acabam por anular ou capturar o outro em uma rede em que há muito pouca liberdade de ação e escolha. Há muitos adolescentes que já vivem relacionamentos neuróticos, em que um fiscaliza o celular do outro para saber com quem fala, onde vai, o que pensa... Falamos aqui do amor que está disposto a aprender a viver com a liberdade de si e do outro. Talvez não haja nada mais difícil. Mas não há nada melhor.

         Parece que sempre nos dirigimos a alguém. Queremos estar unidos. Compartilhar um sentimento. Há uma forma autêntica de fazer isso, que se chama amor (e que pode, evidentemente, apresentar-se de formas variadas, ele não é extático) e há formas alternativas que, mesmo se mostrando muito modernas, parece que não querem senão algo que seja mais fácil, rápido e passageiro. Nessas formas as lutas são bem menores. Mas a satisfação também.

              

Escrito por Leandro T. Almeida às 10:39:52
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Segunda-feira , 26 de Outubro de 2009


 

A “verdade” da literatura

 

            Em um belíssimo texto – “A personagem do romance” – Antonio Candido defendeu a ideia de que a literatura tem como função oferecer ao leitor “um conhecimento mais completo, mais coerente do que o conhecimento fragmentário que temos dos seres”. Partindo dessa premissa, defendida de forma minuciosa pelo crítico em seu texto, podemos nos perguntar: de que verdade trata a literatura?

            Para responder à questão, poderíamos fazer uma comparação entre a arte literária e a área das ciências humanas. Tome-se como exemplo um belo livro de história, pode ser o clássico de Keith Thomas, Religião e declínio da magia, sobre crenças populares na Inglaterra nos séculos XVI e XVII. Por melhor que ele seja, está sujeito a revisões posteriores, uma vez que a ciência histórica pode vir a descobrir informações que Thomas não possuía quando escreveu seu livro, ou pode, ainda, interpretar de forma diferente – e mais convincente – os mesmos dados de que dispunha o escritor quando da feitura de sua obra. Religião e declínio da magia “paga tributo” aos dados, à verificação empírica, à “verdade factual”. Talvez não deixe nunca de ser um clássico, mas essa condição advirá de seu estilo, de seu pioneirismo nos estudos ligados à área da pesquisa histórica do fenômeno religioso, e não necessariamente da precisão de suas informações e interpretações. É inevitável que isso ocorra porque o conhecimento histórico advindo da ciência está em constante transformação, seja no sentido do aprimoramento, seja no de rupturas “revolucionárias”, para aludir ao livro de Thomas Kuhn.

            Mas as considerações acima não se aplicam a um bom livro de literatura. Não há justificativa que leve à reescrita, por exemplo, do primeiro parágrafo de A metamorfose, de Franz Kafka (e do livro todo, evidentemente): “Quando certa manhã Gregor Samsa despertou, depois de uma noite mal dormida, achou-se em sua cama transformado em um monstruoso inseto”. Suas informações não estão sujeitas a verificações empíricas, nem devem estar de acordo com esta ou aquela compreensão científica a respeito de insetos ou noites mal-dormidas. Assim, ao procurar abordar o estranhamento, ou a alienação, ou a solidão (etc) da vida moderna narrando a transformação de um homem em um inseto, o romance de Kafka veicula uma espécie de “verdade” que continuará válida enquanto a sensibilidade dos leitores assim o quiser. Pode ser que daqui a cinqüenta anos Kafka seja considerado um péssimo escritor, e que sua criação literária seja tida como “ingênua”, “inadequada”, “ultrapassada” etc. Mas não será o caso de reescrevê-la, até porque pode bem ser que, passados mais cinqüenta anos, ele volte a ser tido como “genial”, “importante”, ou “escritor que melhor descreveu o absurdo da (então) pós-modernidade”.

            Essa é a vantagem da literatura. O conhecimento que ela transmite tem um status diferente do conhecimento científico. Sua verdade é subjetiva, e por isso tem o poder de tocar de forma diferente diferentes gerações, públicos, indivíduos. Por isso podemos ler com proveito, até hoje, Machado de Assis, mas não necessariamente um livro de História de sua época.

            Tudo o que foi dito pode ser relacionado à Bíblia. Os que a consideram História Factual do Povo de Israel têm que ficar travando uma luta inócua contra a ciência histórica da atualidade, que já mostrou a imprecisão factual de quase todos – senão de todos – os relatos do Antigo Testamento. Considerá-la como texto literário a livra dessa necessidade de precisão histórica, e por isso mesmo a torna atual até nossos dias. Mesmo que os fundamentalistas não queiram admitir, a Bíblia só permanece atual porque sua verdade está ligada à subjetividade, não à objetividade.

Escrito por Leandro T. Almeida às 21:25:16
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Domingo , 18 de Outubro de 2009


 

Rupturas narrativas

 

            Há muito que se fala do fim das grandes narrativas, da impossibilidade de abarcar a totalidade da experiência humana em um esquema sem frinchas, sem abalos. Ou, ainda, da inadequação dos finais felizes típicos de muitos romances oitocentistas, nos quais a virtude é coroada e o vício castigado. Permanecem nesse esquema apenas as telenovelas, com seus últimos capítulos reparadores das injustiças e o telejornal mais visto do país que ainda quer fazer acreditar que, apesar de toda a desgraça que ele mostra, é preciso manter a esperança porque – como disse em algum outro lugar – algum professor voluntarioso resolveu inovar em suas aulas para crianças carentes no sertão do Caicó, imagem que se vê sempre no último bloco.

            Cientes dessa mudança na forma de se descrever a experiência humana no mundo – e o que é a literatura senão isso? – alguns escritores levam ao limite a fragmentação da vivência atual ao compor narrativas por meio do ajunte, por vezes caótico, de (repitamos a palavra) fragmentos. É assim que, em Eles eram muitos cavalos, de Luiz Ruffato, a “matéria-prima” da narrativa inclui listas de livros de uma estante de biblioteca qualquer, boletins meteorológicos, anúncios de emprego e até uma oração a Santo Expedito. Tudo isso se junta em um enredo pra lá de entrecortado, mas que funciona, porque, no fim das contas, permanece um fio, por irrisório que seja, capaz de unir a multiplicidade de experiências caóticas. O que acaba por sugerir que, da mesma forma, talvez leiamos obras de ficção porque, por mais fragmentárias que sejam, acabam proporcionando uma sensação de ordem em meio ao caos. A falta total de significado é insuportável para qualquer ser humano.

            Segue na mesma linha o livro de contos de Bruno Zeni, O fluxo silencioso das máquinas. Quer dizer, se é que podemos chamá-lo de uma coletânea de contos. O que há são pequenos flashes que capturam a experiência de vida na maior metrópole do Brasil. Apesar da aparente falta de ligação entre os textos, é difícil deixar de ver um nexo, uma tênue linha entre eles, ainda que esta seja muito sutil. Lemos a certa altura: “Debandada. OMS prevê 1 milhão de suicídios em 2000. Média anual de casos no mundo subiu 60% entre 1950 e 1995. Estudo da Organização Mundial da Saúde estima que um milhão de pessoas vão se matar em todo o mundo no ano 2000. As tentativas de suicídio podem chegar a 20 milhões. Segundo a entidade, o número de vítimas de suicídio é superior ao de mortos em conflitos armados e em acidentes de carro. Assim como a Aids e o uso de drogas, o suicídio é tratado como um problema de saúde pública pela organização”. Esse fragmento, que bem pode ser um recorte de notícia de jornal, se liga ao tema de todo o livro, ou seja, à experiência de possível sufocamento causado pela vida em grandes cidades (mas não só grandes, evidentemente). A própria estrutura narrativa traz em si significação, o que a torna, por si só, parte integrante do conteúdo, daí a impossibilidade de separar este da forma na análise literária.

            É interessante perceber a mudança nas estruturas narrativas. Elas não são meras invenções de escrivaninha advindas de escritores criativos, pura e simplesmente. Antes, testemunham as formas pelas quais o homem, desde o Gênesis, domina a Terra. Embora às vezes seja por ela dominado.

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 19:26:46
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Sexta-feira , 25 de Setembro de 2009


Quando a dor é grande demais...

           

Para o André, para a Débora

           

            Há momentos na vida que são marcos: limites em que são pesados na balança todas nossas concepções, nossas crenças, nossos apegos mais profundos. Os amigos André e Débora estão passando por esse momento. Não tenho a pretensão de dar-lhes qualquer solução para seu profundo drama existencial, o nascimento de um bebê com um grave problema de saúde. Quero apenas tentar condoer-me com sua dor.

            Quando escrevi o post anterior não estava pensando neles. Mas reafirmo sua ideia central: a dor não produz ortodoxia. A situação limite exige nossa coragem existencial mais intensa para rever aquilo que nos toca de forma mais profunda: nosso discurso sobre Deus.

            Ali, ao lado da cama de hospital, um inocente e frágil bebê respira com a ajuda de aparelhos: por que Deus permitiu isso? Qual o propósito? O que Deus quer mostrar? Quanto tempo demorará para agir? Todas essas perguntas partem do mesmo pressuposto: Deus poderia, se quisesse, mudar a situação... Há até mesmo quem não se furte a dizer que a resposta para esse sofrimento deveria ser buscado no pecado original...

            Chega dessas respostas prontas! Abaixo esses subterfúgios que não fazem mais que usar palavras brandas para descrever um Deus que, fosse mesmo assim, não seria muito melhor que um grande sádico, um terrível monstro.

            A mãe, ao lado do rebento tão querido, implora a Deus pela cura: seria Deus menos amoroso que ela? Suportaria Deus esse sofrimento, de forma impassível, olhando sobranceiramente para o relógio celestial até que este desperte para a hora de seu agir? A compaixão que transborda da mãe estaria escassa em Deus? Não! Mudemos nossos pressupostos, alteremos radicalmente nossa forma de pensar a presença viva de Deus na vida.

            “Deus meus, Deus meu, porque me abandonaste?” Somente o Deus que sofre pode ajudar. Somente o Deus fraco é algum consolo. Não o Deus que, podendo, nada quer fazer, mas, antes, se tivéssemos que escolher, aquele que, querendo, respeita, contudo, amorosamente, os limites mais doloridos da criação...

            Se estivéssemos diante de um Deus intervencionista, que decretasse, ou até mesmo meramente permitisse o sofrimento que agora vivenciam André e Débora, ele não seria Amor; nós, em toda nossa limitação, temos um amor mais compreensivo que este.

            A questão é que Deus não pode, com uma mão, destruir aquilo que foi criado com a outra. Se, a todo momento, Deus tivesse que curar o câncer, evitar o acidente automobilístico, impedir a queda do vigésimo andar etc, estaria destruindo a dinâmica e autonomia de sua criação. Penso que isso Cristo aprendeu em seu profundo sofrimento.

            O desafio radical é o de assumir esse discurso e, ao mesmo tempo, perceber que ele quer tornar Deus mais próximo, não mais distante; mais presente, não mais ausente; mais amoroso, jamais menos. A ação de Deus não é uma ação entre outras; é uma ação nas ações ordinárias. Não fosse assim, ele seria muito ausente, porque cura apenas um dentre milhares de cancerosos; livra apenas um dentre milhares de mortos em acidentes; salva apenas um dentre milhares de bebês indefesos que padecem de graves doenças, tudo em nome de um propósito sempre misterioso a seus pobres filhos.

            Deus está ali, naquele leito; está agindo naquele medicamento; está na ação dos médicos; está na lágrima dos pais; está lutando pela vida, dentro dos limites das ações humanas, dentro dos limites de recuperação de sua própria criação. Não é preciso pedir a Deus a cura; ninguém está mais interessado nela do que ele.

Escrito por Leandro T. Almeida às 11:41:03
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Quarta-feira , 09 de Setembro de 2009


A dor não produz ortodoxia

 

            As confissões de fé legitimadas em instâncias de poder têm a marca do conforto e do bem-estar. Encampam proposições de complexidade lógica e rigor formal, graças, em grande medida, ao tempo e às condições de que gozaram seus formuladores. O distanciamento e imparcialidade pretendem ser suas virtudes: podem falar de decretos imutáveis atribuídos a Deus, mesmo que estes incluam bombas atômicas e estupros infantis, e não hesitam em separar cristalinamente a humanidade em dois grupos, os salvos e os perdidos. Entre uma formulação doutrinária e outra, o descanso, o estômago forrado, e os conchavos políticos que garantiriam a sanção das propostas.

            A heterodoxia – determinada pelos do grupo acima – normalmente também não esconde suas origens: pensamentos elaborados no instante da agrura, respostas espremidas por entre a implacabilidade das contingências. E assim Dietrich Bonhoeffer pôde falar hereticamente do Deus fraco, e que nos ajuda exatamente por conta de sua impotência, expulso que foi do mundo dos homens. Recentemente, Willian Young – não obstante a possível fantasia em torno da trama que teria dado origem ao livro –, na pele de um pai diante do assassinato brutal de sua filha, faz teologia de modo nada ortodoxo, e conta com a sisudez do grupo do bem-estar.

            Mas poderíamos ir além, e perceberíamos o quanto o Livro de Jó é explicitamente herético em relação à teologia em vigor em seu tempo – a dos sacerdotes aliados aos dominadores persas, segundo proposta do professor Luiz Solano Rossi. É que é marcado pela dor. Não compartilha do bem-estar dos teólogos oficiais, que dispõem de tempo e condições psicológicas para elaborar as concepções que não ameaçarão a potência e o supremo poder do deus criado à sua imagem e semelhança.

            Qual o lugar adequado da elaboração teológica? O Cristo sofredor nos ensina: não é na sinagoga, lugar de conforto. Diríamos hoje: não nos escritórios, sob a proteção de aparelhos de ar condicionado, sob o teto que aquece a pele, sob o conforto – legítimo, claro – da bem-aventurança familiar. Urge que a teologia seja feita nos hospitais que cuidam de crianças cancerosas: ousar-se-ia falar, ainda assim, em decretos imutáveis? Elaborar-se-ia, nessas condições, sutilezas para a diferenciação entre uma vontade ativa e outra, permissiva? Urge que a teologia seja feita a partir dos grotões, em que a vida não pode ser calculada, em que a sobrevivência que se goza é unicamente a do presente, ainda assim periclitante. Falar-se-ia nas bênçãos de Deus a uns poucos eleitos? Haveria espaço – e tempo – para os detalhes da salvação além túmulo?

            A continência que hoje batemos é a uma teologia de gabinete, distante dos dramas humanos, distante do chão real da existência. É uma teologia que brota onde está o poder, não a fragilidade. Esta não tem força para prevalecer. É “heterodoxa”. Mas é a que fala ao coração. É a que nos mostra o rosto materno de Deus.

Escrito por Leandro T. Almeida às 11:06:47
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Segunda-feira , 24 de Agosto de 2009


 

Deus – um itinerário, de Régis Debray

 

            Aquilo que Roger Chartier procurou fazer na literatura, ou seja, destacar a importância de se considerar os suportes materiais das obras literárias (para que se deixe de falar da “obra” de um autor, entidade quase metafísica, para se falar de tal ou qual volume, lançado nesse ou naquele ano, por um ou outro editor), gesto que contribuiu para a formação de uma linha própria de abordagem da Literatura conhecida como História da Leitura, Régis Debray fez com a teologia.

            “Por que separar os suportes materiais dos mistérios e dos dogmas?”, é uma das perguntas norteadoras do livro, que apresenta, como uma das hipóteses, aquela que diz que, por ser “Mídia-dependente, o Eterno não poderia ir mais rápido do que a história dos nossos meios de consignação e locomoção”. Portanto, em sua empreitada investigativa, Debray procurará associar a difusão da ideia monoteísta com os suportes materiais disponíveis em diferentes épocas da história humana. Algumas de suas conclusões – é impossível aqui abordar a grande maioria delas – são muito provocantes, no sentido de não deixar indiferente quem tenha o mínimo apreço pelo uso crítico da razão. O autor explica, por exemplo, por que a ideia de um Deus monoteísta é relativamente tardia na linha do tempo da existência humana, e sua explicação leva em consideração aquilo que acredito ser mesmo o ponto central: não havia, no princípio, condições materiais (suportes textuais e necessidade social) para o monoteísmo. A argumentação é longa, deixo aqui apenas a décima parte da ponta do iceberg.

            Outro ponto: Debray chama a atenção para aquilo que acredito ser imprescindível na explicação da Bíblia às pessoas, ainda que essa orientação seja polêmica e quase universalmente desprezada nos círculos conservadores. Falando do trabalho do escritor bíblico, quando este interpreta o passado à luz e com as categorias do seu presente, diz o ex-companheiro de guerrilhas de Che Guevara: “É por isso que cada episódio das Escrituras – cuja redação se estende por sete ou oito séculos – fala a linguagem do tempo em que foi escrito, e não do momento em que teria ocorrido. Em todas as narrativas de feitos notáveis, o modo pelo qual se relata é mais instrutivo com relação às categorias mentais e à situação histórica do narrador do que no tocante aos protagonistas do relato”. Nossa ênfase, contudo, é nos protagonistas bíblicos, como se suas histórias não fossem respostas a situações concretas que, a bem da verdade, as geraram. Ainda nesse mesmo espírito, Debray observará argutamente que o exílio babilônico foi a fagulha mais importante dentre as que acenderam a chama do judaísmo atual: “Junto aos rios de Babilônia, as elites não se contentaram em chorar. Esperando reencontrar o umbigo perdido, elas inventaram nada menos do que a sinagoga local, a circuncisão obrigatória e o shabbat semanal (e não mais mensal)”. Poderíamos acrescentar: o mesmo exílio também foi o grande responsável pela feição atual do Antigo Testamento.

            O livro de Debray deveria ser leitura obrigatória em cursos teológicos, até porque seria a base sólida para que se discutisse a fé cristã na chamada “pós-modernidade”, caracterizada por suportes de informação até então nunca existentes antes no mundo. O livro chocaria a alguns alunos, desestimularia a fé de outros, faria aflorar o odium theologicum de mais um tanto, mas valeria a pena ao contribuir para o afinamento da razão crítica e da leitura mais atenta e especializada da maioria (ironia?). Em outras palavras, combateria o fundamentalismo, definido pelo autor do livro como “hipertrofia doentia do traço escrito”. Brilhante.   

Escrito por Leandro T. Almeida às 19:11:20
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Segunda-feira , 17 de Agosto de 2009


A estrutura triangular do desejo

 

            Dia desses, a reunião na igreja ficou quase impossibilitada de ter continuidade. É que o São Paulo, time até então na moda, havia sido campeão (acho que) brasileiro. Carros buzinando, rojões na praça, afoitos bambis sacudindo suas camisetas. Aos trancos e barrancos pudemos terminar a reunião, em um domingo à noite.

            Algumas semanas depois, no domingo a tarde, jogariam Brasil e Argentina, final da Copa das Confederações. O término da partida estava previsto para o horário próximo ao do início do culto na igreja. Portanto, na semana anterior fiz a proposta: que nos reuníssemos no domingo pela manhã, a fim de evitar os mesmos transtornos de semanas antes, caso o Brasil fosse campeão. Pois bem: o Brasil foi campeão, e um absoluto silêncio reinou nas dependências da igreja. A mudança de horário foi em vão (quer dizer, nem tanto, pude ver o jogo inteiro pela TV...).

            Como explicar o fenômeno? A questão não é tanto o acirramento das particularidades em detrimento de sentimentos mais coletivos e generalizados. A explicação deve ser buscada naquilo que René Girard chama de “estrutura mimética do desejo”, mais facilmente compreendida como “estrutura triangular do desejo”. Essa forma de compreensão das nossas relações diz que nossos desejos sempre encontram um terceiro que os motiva. Não há um desejo direto entre duas pessoas. Esse sentimento passa sempre por um terceiro, explícita ou implicitamente reconhecido.

            Dessa forma, por que o jogo do São Paulo causou tanto alarde, enquanto o da seleção brasileira não levantou qualquer poeira? A questão é que a comemoração dos são-paulinos não se dava por amor puro e simples pelo seu time: “mediava” esse amor o fato de haver muitos palmeirenses, santistas e, sobretudo, corintianos ouvindo os rojões, os buzinaços e os gritos na praça... Quanto ao jogo da seleção brasileira, comemorar para quê? Havia, por acaso, algum argentino para despertar o entusiasmo para a comemoração? Nenhum. Ou seja, nos termos de Girard, nenhuma mediação, daí, nenhum desejo...

            Veja-se o que acontece nos grupos humanos. Ou melhor, tomemos um exemplo prático: duas pessoas na igreja se desentendem. Como reatar o relacionamento? Muito simples: encontrar um terceiro, que seja adversário comum a ambas. Nesse momento, baseados na estrutura triangular do desejo, elas reatarão o relacionamento, porque terão um terceiro em comum a mediar essa relação. Um marido desmotivado com sua esposa logo terá seu desejo despertado se souber que o vizinho anda de olho nela... O que mudou? Novamente, um terceiro entrou em cena e mediou essa relação. Poderíamos multiplicar os exemplos, e perguntar por que os obesos, ou os magros demais, ou os muito baixos, geralmente têm mais dificuldade em encontrar um parceiro: a questão é o que os outros – os terceiros – irão dizer se me virem com alguém gordo demais, magro demais, baixo demais...

            É claro que René Girard aprofunda enormemente essas explicações, colocadas aqui quase de modo caricaturais. Ele aplica essas ideias, por exemplo, aos romances (os bons romances explicitariam a estrutura triangular, enquanto os ruins permaneceriam na ilusão do desejo não mediado), à violência na sociedade (Girard é um grande estudioso da questão da violência e sua relação com o sagrado) e, dentre outras, também à leitura de textos bíblicos (sua explicação do “funcionamento” do “bode expiatório” é muito interessante – ver seu livro Eu via Satanás cair do céu como um raio).

            Aliás, vejam só como são as coisas: ninguém de bom senso nutre qualquer simpatia pela Igreja Universal e pelo bispo Edir Macedo. Mas não é que sentimos uma ponta de satisfação pelo desempenho que tem tido a Rede Record ao denunciar as mazelas da Rede Globo? É a estrutura triangular do desejo...

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 12:05:28
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Quarta-feira , 05 de Agosto de 2009


 

A porta do conservatório estava fechada...

 

            Por que mesmo? Ah sim, porque há uma “epidemia” de gripe suína, que fechou a porta de todas as escolas, das universidades, das creches: até o dia 17 de Agosto, quando, descobriu-se, o vírus tirará férias e deixará que todos voltem às suas atividades normais... até a inocentes aulas de bateria, violão, teclado... em que há um aluno ou dois por sala...

            Eis que estamos, novamente, diante de um fenômeno midiático. Todos dobrados diante de uma gripe que tem a mesma letalidade de uma gripe comum, que mata muito menos gente que pneumonias e tuberculoses, mas que – esse nossos azar – caiu nas graças dos noticiários. Esses, já há muito tempo, determinam nossa agenda de preocupações, constroem nossa realidade, direcionam nossas atenções.

            Fenômeno curioso: as ações da Roche, empresa de medicamentos, não por acaso também do famigerado Tamiflu, subiu na mesma proporção com que a gripe suína visitou as telas de TV. Para enriquecer alguns poucos bolsos do Primeiro Mundo, adensa-se ainda mais o já caótico sistema de saúde do Terceiro. Os crédulos cidadãos imaginam que vão morrer ao primeiro espirro. Não fossem assíduos acompanhantes dos noticiários, tomariam seu antigripal e seu chá de limão com alho e ficariam bem em poucos dias. A dinâmica é recorrente: já ouvimos sabe-se lá quantas vezes que a depressão é o “mal do século”. Constatação de um fato ou construção dele? A segunda hipótese é mais verossímil, até porque deverá render mais alguns bilhões de dólares à indústria farmacêutica.

            E assim continuamos acreditando que a imprensa tem louváveis intenções investigativas ao levantar os podres de José Sarney (por que só agora, se esses podres existem desde que o Maranhão tem os piores índices de desenvolvimento humano do Brasil, ou seja, desde sempre?); que grevistas devem sempre ser responsabilizados pelo “caos” que provocam quando paralisam, por exemplo, os transportes; que, apesar de tanta desgraça, tudo vai terminar bem, como mostra a própria estrutura do noticiário ao deixar em último lugar uma “reportagem” do sertão do Caicó em que alguém resolveu doar seu tempo para dar aulas a crianças carentes...

            Por essas e outras, quanto mais difundirmos meios alternativos de comunicação, melhor. Dou minha contribuição: por exemplo, um “desmascaramento” do poder da “nova gripe” pôde ser visto no www.viomundo.com.br; também o blog de Eduardo Guimarães trouxe um documentário muito bom sobre o assunto. O blog de www.idelberavelar.com é interessante, traz coisas inteligentes. E por aí vai. O blog da Petrobrás mostrou o quanto essas mídias alternativas incomodam as grandes corporações. É preciso investir nelas.  

Escrito por Leandro T. Almeida às 10:48:18
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Sexta-feira , 24 de Julho de 2009


Por que é irritante ler textos dos puritanos

 

            Algumas coisas em especial são responsáveis pelo tremendo desconforto que sentimos quando lemos os textos dos puritanos do século XXI: certa arrogância no discurso e desdém pelos pensamentos diferentes; a ausência de humildade epistemológica; e uma resposta pronta, mormente remetendo à “teologia reformada”, para qualquer questionamento que se lhes coloque.

            A arrogância e o desdém ficam evidentes quando os puritanos se utilizam do pensamento de autores não-puritanos, ou mesmo não-religiosos, apenas para apontar suas deficiências e limites. Um dos últimos livros de Augustus Nicodemus, sobre a história da interpretação da Bíblia, cita, por exemplo, Jaques Derrida, de forma bastante simplista, e diz por que seu pensamento desconstrucionista deve ser superado na interpretação de textos. Mas, ao recorrermos à bibliografia, vemos que apenas um único título do filósofo francês serviu de base para as considerações do príncipe dos puritanos. O pensamento alheio é utilizado como trampolim para a elevação das próprias ideias. Não há um debate mais aprofundado sobre um autor complexo como é o autor de Gramatologia. A partir da pena dos puritanos, parece que Derrida, Foucault, Nietzsche, Freud, Tillich, Barth etc eram autores um tanto quanto ingênuos, pobres defensores de teorias canhestras sobre o mundo, o homem, a sociedade, a teologia, a Bíblia. Esse tipo de “uso” de autores alheios, e nunca diálogo honesto, nunca disposição de efetivamente deixar-se convencer, quanto for o caso, pela força dos argumentos, mostra um desdém muito grande por autores não ligados ao que os puritanos chamam, com a boca cheia, de “tradição reformada”.

            A ausência de humildade epistemológica aprofunda o ponto anterior. Não percebermos, nos textos puritanos, qualquer chance de vermos suas posições transformadas a partir de uma argumentação convincente. A marca dos puritanos é a impossibilidade da mudança. Claro que a maturidade intelectual impede que mudemos de posição a cada nova onda, a cada novo autor que vira grife, a cada livro que se transforma em fetiche. Mas, no caso dos puritanos, percebe-se que nunca mudarão suas opiniões não importa quais argumentos lhes sejam colocados. E essa impassividade é covardia, não maturidade. A certeza quanto à correção absoluta da teologia do século XVII é mais um demonstrativo de quão cegos estão para a provisoriedade e historicidade irretorquíveis do conhecimento humano. Conheço, aliás, gente com qualificação acadêmica e capacidade intelectual muito mais elevada que a de qualquer dos puritanos, mas com uma humildade e um senso de pequenez diante da tarefa do pensamento que fariam bem a qualquer cristão.

            A última razão do desconforto, talvez a maior, é a resposta pronta que os puritanos veem na teologia-denominada-por-eles-de-reformada. Se dizemos: “não vemos os ditos reformados presbiterianos lutarem por justiça social”, recebemos, de pronto, alguma resposta como: “mas Calvino foi muito preocupado com as questões sociais, inclusive, em Genebra etc etc”. Se, dando continuidade às questões, dizemos: “não vemos nenhuma doutrina positiva a respeito da sexualidade”, os puritanos do século XXI respondem: “mas os puritanos (do séc. XVI) tinham uma elaboração muito profunda a respeito do relacionamento entre homem e mulher”. Se, finalmente, acusamos falta de tolerância quanto às opiniões teológicas divergentes, os puritanos nos olham como se fôssemos órfãos ingênuos e dizem: “aprendemos que a tradição reformada deve usar de muita tolerância com os divergentes, mas a verdade deve sempre prevalecer frente ao erro...”. Ou seja, os puritanos não perdem nunca. Eles sempre têm todas as respostas. Sempre estão dando conta de todas as demandas cristãs, embora não os vejamos fazendo qualquer diferença efetiva, dado o poder de que dispõem na igreja. Não veem tarefas a se realizar no campo do pensamento e da elaboração teológica. Em suma, os puritanos negam a própria ideia veiculada no termo “teologia”, ou seja, “logos sobre Theos”, “discurso sobre Deus”, “discurso sobre o inefável, inapreensível”, “discurso sempre inapto para capturar de todo”.

            Isso tudo é profundamente irritante. É impossível debater com um puritano, porque debate pressupõe um campo comum para a resolução das questões, campo esse que não pode ser outro senão o da razão. Mas quando oferecemos uma questão aos puritanos com a qual não concordam, sua última razão é apelar para as Escrituras, como se elas falassem por si só, independentemente de qualquer interpretação de sua mensagem. E como eles têm o poder ao seu lado, podem afirmar possuir também a verdade.     

            Mas essa postura puritânica tem seu preço: não é à toa que nossos puritanos têm relevância zero fora dos muros da igreja, fora do círculo dos seus pares, daqueles que insistem em lhes dar ouvidos porque lhes são semelhantes. Só eles não percebem isso.

            

Escrito por Leandro T. Almeida às 19:08:06
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Domingo , 12 de Julho de 2009


 

Ah, as ciências humanas...

 

            O método histórico-gramatical de interpretação das Escrituras, preferido e arduamente defendido pelos fundamentalistas, propõe, a partir do sentido de “histórico” na nomenclatura do método, a recuperação do contexto de escrita dos livros bíblicos, além, claro, do mais importante, a afirmação de que “histórico”, aí, significa que a Bíblia fala de História (factual) quando conta suas histórias. Dessa forma, podemos recorrer ao contexto do Novo Testamento para entender o que o apóstolo Paulo quis dizer quando se referiu àqueles que o perseguiam (em I Coríntios, por exemplo), recorremos ao contexto para saber, ainda, a quem Tiago tinha em vista ao escrever sua carta e o que, efetivamente, o apóstolo quis dizer etc.

            Tudo muito bonito, muito lógico, muito organizado... mas será que funciona?

            A questão é que a recuperação do contexto é feita, geralmente, a partir de uma ideia muito otimista, segundo a qual esse mesmo contexto é uma cena cultural que leva muito pouco em consideração as divisões nela existentes. Essa recuperação, aprendemos com a Análise do Discurso, é tributária de três ideias questionáveis: uma “língua unívoca”, um “sujeito como unidade controlada pela razão e que fosse bem-sucedido em ‘dizer o que quisesse’” e, finalmente, a de “conjuntura uniforme”, ignorando que “as sociedades são (sempre foram) divididas em classes ou grupos etc”[1]. Não vemos, basta observar em qualquer trabalho exegético (?) fundamentalista, a consideração da possibilidade de que o texto seja resultado de polêmicas dentro do próprio cristianismo (são sempre em oposição ao que está fora dele), ou de que ele seja o resultado final de vários discursos reunidos por um compilador final (falamos, já deu pra perceber, do Pentateuco, que teria sido escrito por Moisés, inclusive quando narra sua própria morte...).

            Com isso, as disputas entre Paulo e Pedro, ou as discordâncias entre Paulo e Tiago, não passariam de “contradições de superfície”, produto muito mais da mente moderna que lê o texto do que do contexto de produção do mesmo propriamente. No entanto, talvez seja mais enriquecedor procurar ler o texto como produto de disputas reais, de jogos de força pela manutenção dos respectivos discursos, o que teria, dentre outras, a consequência de entender que a Bíblia testemunha uma disputa e não meramente toma partido tranquilamente por um dos lados. Reconhecer isso é aceitar a existência de diferenças na própria origem do cristianismo, as quais não teriam que ser expurgadas a qualquer preço hoje.

            Dessa forma, somos alertados, pela Análise do Discurso (que não está livre de questionamentos, evidentemente), a resistir à idéia de que “os autores de outros tempos pudessem ter dito tudo e só o que queriam, bastando conhecê-los e à sua época para decifrar o sentido de um texto”[2]. A leitura de escritos como os bíblicos, distantes de nós muitos séculos, precisa levar em consideração os discursos conflitantes em coexistência para que possa ser feita de modo mais qualificado, menos ingênuo e ligado a um conceito mágico de inspiração.

            Mas isso tudo, o leitor atento terá percebido, não é novidade. Já vem sendo feito no Brasil, acredito que pioneiramente, pelo professor Júlio Zabatiero, cujo Manual de exegese é um trabalho excelente, e um belo exemplo de como ler a Bíblia sem ter que ficar brigando, a todo instante, com os alcances obtidos pelas ciências humanas, em seus vários campos de atuação. Inclusive no da linguagem.



[1] POSSENTI, Sírio. “Teoria do discurso: um caso de múltiplas rupturas”. In: Introdução à lingüística – fundamentos epistemológicos. p. 359.

[2] Ibid.

Escrito por Leandro T. Almeida às 12:17:51
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Terça-feira , 30 de Junho de 2009


 

É proibido fumar!

 

            Não sou a favor de qualquer vício. Muito menos do cigarro. Toda a glamourização das propagandas do Free ou do Hollywood não resiste aos casos verídicos de câncer causados pelas substâncias tóxicas ingeridas no ato do fumo. Além do mais, o tabaco há muito tempo não é sinônimo de um raro prazer associado a um esporádico (e por isso prazeroso!) charuto com amigos, ao redor de uma mesa de xadrez... fuma-se para tentar vencer a ansiedade, fuma-se com pressa, fuma-se para exercer certo exibicionismo (os adolescentes que o digam).

            Mas isso não quer dizer que a intencionada lei de proibir o fumo em todos os lugares públicos (já houve quem mencionasse: até mesmo na rua!) deva ser defendida a qualquer custo. Sub-repticiamente, leis como essa estabelecem um padrão de normalidade, punindo, consequentemente, que não se enquadra nele.

            Os filósofos da escola de Frankfurt, notadamente Adorno e Horkheimer, no dificílimo Dialética do esclarecimento, já haviam alertado para os largos passos que damos, desde o Iluminismo, em direção a uma sociedade totalmente administrada, ou seja, uma em que o comportamento é de tal forma determinado, que não resta nada que seja humano, espontâneo, particular: tudo não passa de ações exemplares de uma racionalidade limitada e planejada. A proibição do cigarro segue na mesma trilha: comportamentos controlados, excrescências postas de lado, “anormais” enquadrados pela lei.

            A tendência, se aprofundada, é perigosa: quem estabelece o limite entre o normal e o patológico? O que é normal? O que é patológico? Legal? Ilegal? Tudo, ou melhor, todos os que forem postos na conta de “anormais”, “delinquentes”, “loucos”, ficam sujeitos à exclusão. Quem garante que um dia não serão postos nessa mesma conta os homossexuais, os obesos, os estrangeiros? Negros pobres já têm que provar que não são culpados, em inversão flagrante da máxima jurídica...

            Deveríamos caminhar rumo a uma sociedade mais tolerante, que reconhecesse cada vez mais o direito às diferenças. Isso não quer dizer que acho bom alguém fumando ao meu lado no shopping, por exemplo. Realmente não acho. Mas a atitude de não fumar deveria partir de uma consciência que atentasse para isso, para a qual contribui muito a educação, a vivência em um espírito republicano, o reconhecimento do direito ao ar menos poluído por parte do meu semelhante. Atitudes assim não se conseguem pelo baixar de uma lei. São conquistas que vêm com dificuldade, na base do diálogo, do acordo, da tolerância. Mas, quando alcançadas, produzem uma humanidade que a qualquer lei está vedado alcançar. Como bem disse o apóstolo Paulo, não se criou nenhuma lei que pudesse dar vida. A que proíbe o cigarro em lugares públicos não é exceção.

             

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 21:09:00
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Domingo , 21 de Junho de 2009


 

Uma fé “inabalável”

 

            Fenômeno curioso se vê no meio eclesiástico. Há muitas pessoas que alcançam um alto nível de estudos em alguma das áreas do conhecimento humano, sem que tão grande bagagem interfira uma linha sequer em suas opiniões religiosas.

            O caso é mais comum em áreas tecnológicas. Nessas, o fenômeno é, de certa forma, explicável. O conhecimento técnico se desvencilhou de tal maneira dos conhecimentos humanísticos, que a especialização é mesmo possível sem qualquer relação com as implicações integrais relativas ao ser humano envolvidas nesse mesmo conhecimento. Esse é o reclame da modernidade, homens e mulheres hábeis nas “técnicas”, sem muita densidade espiritual, sem muita vivência de questões humanas que tenham a ver com a forma como o “ser” está no mundo. Pululam, por isso, os médicos (cada vez mais especialistas em corpos, já em humanos...), advogados (que aprendem técnicas sem muita reflexão filosófica sobre o fundamento da justiça e do direito entre os homens), engenheiros, químicos, técnicos em informática etc, que expressam, não obstante todo o conhecimento adquirido nessas áreas, visões teológicas muito coladas ao senso comum, e se aproximam das metáforas bíblicas que falam dos que necessitam de leite por não suportar alimento sólido.

            Mas se dá o mesmo até entre aqueles que estudam alguma área humanista. São muitos os historiadores, geógrafos, literatos e até filósofos que sustentam uma visão teológica canhestra, em nada diferente da de muitos tecnólogos e das pessoas que têm um grau muito baixo de escolarização. Sem desvalorizar o conhecimento não formal (mesmo porque há pessoas não escolarizadas que, em sua simplicidade, captam de forma muito boa questões teológicas mais avançadas), seria de se esperar que o estudo aprofundado em áreas tão próximas da teologia resultasse em influências no modo de encarar as coisas que se relacionam à fé.

            Por que isso acontece? Não deve haver uma única razão. Mas uma delas é que as opiniões teológicas são tomadas como ídolos. Na perspectiva tillichiana, aquilo que é finito, ou relativo, foi tomado como infinito, ou absoluto. Não se observa, em relação às opiniões teológicas, o “princípio protestante”, e, aí, o que é convenção humana vira prescrição divina, e, por isso, imutável, inquestionável, indiscutível.

            O mal-estar é grande. Aqueles que, influenciados pelo conhecimento “secular”, aprendem a pensar, não encontram acolhida na igreja. Questionadores não são bem-vindos, e o olhar que recai sobre eles toma-os como negadores da fé e relativizadores da verdade. Os demais, a maioria, aferram-se ainda mais aos dogmas, e, quando se põem a ler algumas obras de teologia de autores “reformados” (Sproul, Lloyd-Jones, Nicodemus), a coisa degringola de vez. Utilizam a formação adquirida fora da igreja para exercer autoridade teológica na igreja. Viram chatos de primeira e posam de especialistas. A verdade, no entanto, é que não aprenderam a pensar.

            Fé inabalável é bom, quando não impede a disposição de permanentemente examinar-se, cônscia de sua própria historicidade e finitude. Quando não é assim, é sinônimo de que coisa não muito boa vem pela frente.      

                       

Escrito por Leandro T. Almeida às 12:03:39
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Terça-feira , 09 de Junho de 2009


 

Interferindo diretamente na política

 

            Fiquei pensando o que aconteceria se todas as igrejas evangélicas atuassem efetivamente na busca de melhorias das condições de vida em suas cidades. Se somos, como dizem, aproximadamente trinta por cento da população brasileira, teríamos algo em torno de 60 milhões de pessoas não-acomodadas, não-conformistas, críticas e interessadas com as condições de vida uns dos outros. Deixemos, no entanto, as quimeras de lado. As igrejas evangélicas enfatizam, mais que nunca, a benção individual e imediata, que se resume à cura das doenças e às condições para quitar o carnê das Casas Bahia no próximo mês...

            Mas, e se pelo menos as igrejas presbiterianas fizessem algo além da entrega de cestas básicas? Se somente as aproximadamente três mil IPB’s espalhadas pelo Brasil fizessem algo, isso poderia significar uma transformação  real na vida de muita gente. Mas fazer o que, pode perguntar o leitor em legítimo estado de dúvida. Dou uma sugestão, e espero que você acolha.

            Aqui em Cabreúva estamos iniciando um núcleo do Movimento Voto Consciente. Esse movimento tem a intenção de fiscalizar o trabalho (ou a falta dele...) da Câmara Municipal da cidade. Ele se encarregará de acompanhar todas as sessões da Câmara, registrar os projetos propostos, acompanhar a votação dos vereadores, conferir se realmente está havendo um trabalho de fiscalização das ações do Poder Executivo (uma das atribuições do Poder Legislativo). O Movimento pode se iniciar com apenas duas pessoas (um coordenador e um secretário), e deve se estender para atrair qualquer pessoa que estiver interessada em fiscalizar os vereadores. O site www.votoconsciente.org.br dá todas as diretrizes para a implantação de grupos locais. A cada ano, um balanço da atuação dos vereadores deverá ser divulgado. Para o caro leitor ter uma ideia, em Jundiaí-SP, 57% dos projetos no ano de 2008 destinaram-se a nomear logradouros e homenagear pessoas...

            Volto à questão: se todas as IPB’s encorajassem seus membros a participar de coisas assim, fizessem menos reunião de oração e mais de participação política, veriam que muitas das coisas que eles vivem pedindo a Deus deveriam cobrar dos políticos em quem votam...

            Veja se sua cidade já tem um núcleo. Se não for o caso, você é responsável por criar um.

               

                      

Escrito por Leandro T. Almeida às 15:13:24
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Quinta-feira , 28 de Maio de 2009


 

História e narrativa


            Não se acredita mais na neutralidade do discurso histórico. Foi-se o tempo em que a escrita da história era sinônimo da “realidade dos fatos”, como se estes estivessem apenas à espera de serem nomeados pelo historiador que se dispusesse a desenterrá-los dos escombros impostos pelo tempo. Toda narrativa histórica guarda uma grande semelhança com as narrativas literárias. Tanto em uma quanto em outra – e não apenas na segunda, como alguns ainda acreditam – há a necessidade de escolhas lexicais, encadeamento do narrado segundo algum propósito consciente, influência do estilo do autor e, também, preocupação estética.

            Ciente de todas essas questões, a historiadora Natalie Zemon-Davies escreveu um livro em que levou ao extremo as implicações literárias da escrita da história. Seu O retorno de Martin Guerre parece um romance. Mesmo a divisão dos capítulos é feita tendo por base a pretensão de criar suspense, como em um bom romance de aventura. Os fatos, calcados em arquivos policiais da França do século XVI, são organizados de forma a criar um enredo típico de um romance policial. É, contudo, um rigoroso trabalho historiográfico. Esse esforço proposital da historiadora tem como objetivo explicitar – talvez até exageradamente – o que alguns historiadores fazem questão de não reconhecer, ou seja, que a história não é mera narração de uma sucessão de fatos que não poderiam aparecer de outra forma. Esse tipo de história, praticado, por exemplo, por Julio Andrade Ferreira com sua História da Igreja Presbiteriana do Brasil, é mera encadeação de dados, nomes e datas, como se o historiador não fosse mais que mero compilador deles. Há nesse tipo de escrita uma aparência de neutralidade e linearidade. No entanto, por recusar empreender uma interpretação e uma composição criativa das fontes historiográficas, o resultado é uma narrativa maçante e inócua, que muito pouco oferece a quem realmente quer se inteirar do significado histórico da implantação da Igreja Presbiteriana no Brasil – para ficar no mesmo caso.

            Outro exemplo de trabalho historiográfico atento ao trabalho narrativo com as fontes é Proletários de casaca, de Fabiana Popinigis. Seu livro é uma investigação histórica muito “saborosa” sobre os caixeiros, essa ocupação tão freqüente nos romances do XIX. As investigações de Popinigis em jornais e arquivos policiais renderam um belo panorama das condições de trabalho no século retrasado. Proletários não é tão “literário” quanto Martin Guerre, mas oferece uma encadeação muito agradável dos dados disponíveis e, o que é mais importante, uma interpretação deles.

            A diferença para um romance histórico evidentemente existe, e não é pequena. O texto literário, por mais rigoroso que seja na reconstrução do passado, não precisa “passar recibo” de suas afirmações. Vermelho Brasil, de Jean Cristophe-Rufin, é uma boa pedida para quem deseja se inteirar da história de Villegaignon no Brasil, mas o leitor não pode reclamar diante de algum dado inventado ou sem comprovação histórica. Já o texto historiográfico, por mais literário que se nos apareça, tem a obrigação de apresentar provas do que diz, sob pena de perder toda sua credibilidade – nesse caso, restaria aos leitores saborear-se com a inventividade do escritor. Já é alguma coisa.  

Escrito por Leandro T. Almeida às 22:48:51
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Sexta-feira , 15 de Maio de 2009


Saudades do velho Rubem

 

            Só ficou indiferente a Rubem Alves o seminarista que, tendo travado contato com ele, se fechou em seu casulo para se proteger das “más influências”. Era impossível, nos primeiros meses do seminário, não se deixar levar pela sedução de novas ideias, mormente com “aroma” herético, que líamos em seus livros ou ouvíamos de sua própria boca.

            Cenas da vida, um de seus livros de crônicas, marcou-me profundamente, e foi mesmo um marco de uma mudança cada vez mais acentuada na própria forma de olhar para a vida como um todo. Cumpriu um papel importante, que certamente não cumpriria hoje, posto que propício para paladares pouco exigentes. Mas foi a porta de entrada para que eu conhecesse alguns dos melhores livros de teologia escritos por um autor brasileiro: Da esperança, Gestação do futuro, O suspiro dos oprimidos, O enigma da religião, Variações sobre a vida e a morte, Creio na ressurreição do corpo, Dogmatismo e Tolerância.

            Todos esses livros são produções do velho Rubem, que na verdade é o Rubem Alves da juventude, que estudou teologia em Princeton e voltou ao Brasil na efervescência dos anos 70. Essas obras fazem jus ao epíteto de “vulcão teológico” dado a Rubem pelo saudoso professor Joás Dias de Araújo. Todas elas, contudo, fazem parte de um passado que o próprio Rubem parece fazer questão de ignorar. Uma ou duas delas foram recentemente relançadas, mas não pela intenção de seu autor de torná-las conhecidas de um público que não pôde conhecê-las na época de seu lançamento, mas por editores que certamente viram nelas algum potencial comercial (não fosse isso, por que não reeditar todos os livros esgotados?).

            O Rubem de agora é bem diferente. Suas crônicas, responsáveis pelos lançamentos atuais, são até um passatempo agradável, mas atingem em cheio ao gosto de quem se contenta com pouco e não faz questão de repisar o mesmo chão vezes sem conta. E além de escrever sempre as mesmas coisas, o Rubem de agora repete exatamente as mesmas falas de sempre. Uma ou outra história engraçadinha, uma ou outra reflexão pitoresca, algumas citações das mesmas passagens dos mesmos autores. Nada além disso. Nada muito significativo. Nada que faça sombra ao pensador criativo e profundo dos escritos anteriores.

            Em Da esperança, ele escreveu que a esperança de tornar a vida humana mais humana deveria ser posta, em última instância, em Deus mesmo, porque até o mais ferrenho revolucionário poderia desistir da luta, por variados motivos. Vê-se aí o quilate de seu pensamento, posto que previu o que mais tarde seria realidade em sua própria trajetória intelectual.

            A saída é ficar mesmo com o velho Rubem, o Rubem da juventude. Suas obras de agora não deixarão qualquer saudade.  

Escrito por Leandro T. Almeida às 10:39:31
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Sexta-feira , 08 de Maio de 2009


 

De sola no bom senso

 

Imaginemos dois grandes estudiosos das Escrituras. Duas pessoas sãs. Duas pessoas bem-intencionadas. Duas pessoas honestas. Cada uma delas, no entanto, lê a Bíblia de uma forma. Uma delas afirma a necessidade da leitura literal do episódio de abertura do Mar Vermelho. A outra entende ser um relato com características literárias, para o qual pouco importa a factualidade do narrado. Das duas posições, uma será tomada como ortodoxia, outra como heterodoxia. Qual será o critério de decisão? Em última instância: será considerado ortodoxo o pensamento daquele que tiver mais poder. O outro, que dispõe de pouco poder, será considerado herege e estará condenado à proscrição, à marginalidade.

            Ainda que bastante simplista (dentre outras coisas, porque a leitura literal tem, a seu favor, não só o peso da tradição pré-moderna, mas também a aparência da naturalidade), a cena acima exemplifica o que acontece efetivamente na igreja. Um blog dos conservadores publicou posts sobre os famigerados “liberais”. As declarações dos “blogueiros” estão eivadas de declarações caricatas, sem prova ou sequer exemplo que dê solidez às suas declarações generalizantes. Fiz alguns recortes desses ditos para pequenos comentários (as palavras deles estão em negrito, meus comentários em itálico):

 

“[Os conservadores] devem manter relações fraternas com outros que igualmente prezam a Palavra de Deus e as verdades do Evangelho salvador de Cristo.

(...)

Se a ala liberal, então, realmente obtiver controle da Igreja, os cristãos evangélicos devem estar preparados para se retirarem, não importa o que isso for custar. Nosso Senhor morreu por nós e, com certeza, não devemos negá-Lo em favor dos homens”.

 

Isso é que é exemplo de relação fraterna! Fraternidade a quilômetros de distância, sem se sentar à mesma mesa, sem comunhão debaixo do mesmo teto. Realmente os conservadores entendem de fraternidade: ela significa tomar para si os efeitos benéficos da morte de Cristo e negá-los àqueles que pensam de forma diferente! Qual a diferença dessa prática com a dos fariseus que davam graças a Deus por não serem como os desprezíveis publicanos e pecadores? “Nosso senhor é propriedade exclusiva. Somos os únicos filhos de Abraão!”  

 

“Os liberais gostam de se apresentar como pessoas que não têm certeza de coisa alguma”.

 

Assim fica fácil: faço uma afirmação, não a comprovo com nenhum exemplo, nenhum trecho de qualquer livro dos “liberais”, mas lhes imputo tal opinião. A frase acima é caricatural ao extremo. Paul Tillich, Karl Barth, Rudolf Bultmann, Leonardo Boff, Julio Zabatiero etc, são todos considerados liberais. Seriam tão idiotas a ponto de escrever milhares de páginas para chegar à conclusão de que não têm certeza de coisa alguma? A Dogmática de Barth não proporia coisa alguma, bem como a Teologia Sistemática de Paul Tillich? Leonardo Boff teria o reconhecimento que tem no mundo porque teria ficado eternamente na impossibilidade de fazer qualquer afirmação? De quem estão falando os conservadores? Poderiam dar nome aos bois. Não são cheios de certezas?

 

“Concordo com os liberais que há muitas coisas no âmbito espiritual e teológico que permanecem em aberto e sobre as quais só é possível tecer conjecturas. Eu mesmo tenho muitas dúvidas”.

 

Afirmação meramente retórica. Pura mentira.

 

“Tenho dúvida se os liberais, quando assumem a cátedra em uma instituição de ensino teológico, tenham como objetivo contribuir humildemente para a formação teológica de seus alunos”.

 

Declaração séria, mas leviana pela falta de exemplos. Contudo, partindo desse pressuposto, entendo por que os conservadores rompem qualquer barreira ética e perseguem duramente, quando podem, aqueles que têm na conta de “liberais”.

 

“Tenho dúvidas ainda quanto ao motivo pelo qual os liberais insistem em ficar dentro das denominações evangélicas, além da sobrevivência financeira, é claro”.

 

Essa é uma boa questão: por que os não-conservadores não saem da IPB? Dentre outras coisas (financeiras também, sem dúvida, mas essa motivação não é exclusividade dos não-conservadores. Os não-liberais, tão cheios de certeza, ainda não arrumaram uma forma de viver sem dinheiro), porque a própria Confissão de Fé permite a relativização da força dos Concílios ao reconhecer “que erram e têm errado”. Ora, como denunciar o erro se os discordantes são obrigados a deixar a igreja? Aqui entra decisivamente a questão do poder: os conservadores têm ao seu lado o poder, não a verdade. Usam o poder que têm para calar os dissidentes (ameaçando com demissões, ostracismo etc). Os conservadores, tão zelosos da “Palavra de Deus”, não se dão conta da crítica bíblica ao poder, motivo pelo qual ele deveria ser exercido de forma o menos nociva possível, sempre a favor da promoção da vida, coisa que está muito longe de acontecer na mão dos conservadores.     

 

“Os semeadores da dúvida nunca deram realmente qualquer contribuição para o crescimento do Reino de Deus, para a plantação de mais igrejas, para a abertura de novos campos missionários, para a conversão de pecadores e para a reforma da sociedade”.

 

Afirmação besta, ridícula, insana. Nenhum dos conservadores da IPB se compara à luta pela vida de Dietrich Bonhoeffer (“liberal”), ao esforço ecológico de Leonardo Boff (“liberal”), ao trabalho intelectual árduo de Paul Tillich (“liberal”), à luta contra o liberalismo perpetrada por Karl Barth (“liberal”! ô burrice...), ao empreendimento de renovação da exegese bíblica empreendida por Julio Zabatiero (“liberal”). Os conservadores devem ter feito tudo o que o autor das linhas acima diz ter faltado aos liberais. Pena que ele não dê exemplos. Estava, não tenho dúvidas, concentrado demais na escrita de sua próxima obra teológica monumental, exemplo de argúcia intelectual e absolutamente relevante para a transformação da sociedade...

 

“Essas são minhas dúvidas quanto à eterna recusa dos liberais de afirmar alguma coisa com convicção. Não estou dizendo que podemos ter plena certeza de todas as coisas e que é possível ter uma explicação para tudo. Afirmar isso seria realmente arrogância e ignorância. Não estou negando a necessidade de termos uma mentalidade crítica e de submeter à análise todas as proposições e declarações na área de teologia”.

 

Afirmação meramente retórica. Pura mentira.

 

“Afinal, a fé não é de todos”.

 

A fé, claro, é nossa, não dessa raça maldita, dos liberais, heréticos merecedores da fogueira (ó, por que não mantiveram os mesmos métodos de antigamente?). Nós, conservadores, temos fé, os outros, ignorantes, relativistas, são incrédulos, passarão a eternidade no inferno. E meu próximo sermão será a respeito da crítica que Cristo dirigia aos fariseus, quando condenava sua ortodoxia incapaz de mostrar compaixão! 

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 10:55:42
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Quarta-feira , 29 de Abril de 2009


 

Três livros


            Antonio, de Beatriz Bracher, é uma narrativa muito bem construída, engenhosa. O protagonista, Teodoro, só se mostra na fala de outros narradores, um amigo, a mãe, e um amigo desta. Estes três desenvolvem a trama, cada um a partir de seu ponto de vista, em conversas com o filho de Teodoro, Benjamin (que espera um filho, cujo nome dá título ao livro). O relato mais dramático, sem dúvida, é o de Inês, que agora fala da cama de um hospital, onde se encontra entrevada por causa de um câncer, após ter vivido uma vida dividida entre a família e a carreira universitária. Todo o livro apresenta uma certa acidez ao narrar a vida de uma típica família classe média que, não obstante todas as condições materiais, não escapou das tragédias causadas pelas drogas, pela loucura, pela morte. Antonio é daqueles romances que se descortinam aos poucos aos olhos do leitor, mas talvez o melhor da leitura de romances assim seja mesmo o desafio de ir se apercebendo aos poucos do “quem é quem” na trama, e as relações que estabelecem entre si, embora, aparentemente, estejam desconectados, falando cada um de seu mundo. Ao sabor das narrativas modernas, ou pós-modernas, não há linearidade, ou completude, pelo contrário, deparamo-nos com fragmentação e cortes narrativos. É um bom exemplo do que significa escrever romances atualmente.

            O filho eterno, de Cristóvão Tezza, que é escritor da terra do amigo Josué (Lages), era um “comum” professor universitário até ganhar o prêmio Jabuti de melhor romance 2008, prêmio literário mais importante do Brasil. A partir daí pôde, coisa que poucos conseguem, viver apenas das Letras. Tezza escreve a história de um pai que se vê às voltas com o nascimento de um filho com síndrome de down. Esse romance nos mostra que somente o âmbito literário é o que permite dizer aquelas coisas que não diríamos em qualquer outro contexto. Seja escondendo-se atrás da ficção, da voz de um narrador, de uma trama inventada, a verdade é que Tezza revelou seus mais profundos desgostos, dramas, ódios e ternura. E digo Tezza porque ele, o “autor empírico”, teve mesmo um filho down. Essa é uma boa questão: a da fronteira entre o real e o ficcional. Ninguém pode se revoltar contra o autor do romance porque, em seu livro, escreveu que, em dado momento, consolou-se com o fato de saber que downs geralmente vivem poucos anos, e em breve todo seu drama estaria superado. Quem disse isso foi o narrador de um livro cujo autor é Tezza. Mas, por outro lado, é um narrador próximo demais de uma situação real que tem muita semelhança com a vida do autor. A grande ausência desse romance é a da mãe do menino, a quem se faz referência apenas de passagem. Tezza esteve em Salto-SP, antes de ganhar o Jabuti, para uma palestra na Biblioteca Municipal. Não pude vê-lo, nem perguntar o motivo dessa ausência. Agora que ganhou o prêmio, é de se esperar que não aparecerá por lá tão cedo novamente.

            Leite derramado, de Chico Buarque, já nasceu clássico. Não pelo enredo em si, que é bom, mas não brilhante (os dois livros acima empolgam muito mais, bem como Budapeste, do mesmo autor), mas pelas estratégias envolvidas em sua produção. O lançamento do quarto romance do compositor mais famoso do Brasil é um bom exemplo do que significam as estâncias de legitimação de uma obra. Assina a orelha Leyla Perrone-Moisés, professora da USP, autora de um livro que defende fortemente o valor imanente de algumas obras literárias, contra aquelas que não podem ser chamadas de clássicas, porque são ruins em si mesmas (Altas Literaturas é o nome do livro). Aliás, líamos a resenha de Perrone antes mesmo de poder comprar o romance. Na internet, na página da editora (a maior do Brasil), podíamos ver Chico lendo o primeiro capítulo de seu livro. Ainda nessa página, tínhamos contato com resenhas críticas provenientes de grandes nomes do cenário literário ou acadêmico, todas elogiando a obra. Havia um link exclusivo para o livro, que foi editado com duas capas, cabendo ao consumidor, perdão, leitor, escolher a que melhor lhe agradasse. Há, então, a junção de duas instâncias: a que legitima perante o público erudito (a academia), e perante o popular (editoras, livrarias). Em suma, é tarefa por demais árdua uma análise isenta de um livro que se sabe ser de Chico Buarque (certa vez, algumas das maiores editoras do Brasil avaliaram um livro cujo autor se passava por um ilustre desconhecido. Todas, unanimemente, rejeitaram o livro. Soube-se, depois, que era um romance desconhecido de Machado de Assis. Cada uma deu uma explicação para tentar explicar “a gafe”. Ou seja, não é a obra em si que é avaliada, mas também o nome do autor, sua escola literária, editora, posição política etc). Mas vale a pena ler o livro ao menos procurando essa isenção. Não há nada muito inovador: enredo fragmentado, narrativa entrecortada, o dito convivendo com o não-dito, presente e passado em convivência constante. Os que não estão acostumados com esse tipo de narrativa, acredito que não gostarão do livro. Ou talvez digam que gostaram, afinal, trata-se de um livro de Chico Buarque...

Escrito por Leandro T. Almeida às 16:09:39
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Sexta-feira , 24 de Abril de 2009


 

Conselho de amigo

 

Desista: o irmão fundamentalista ao lado,

se estivesse mesmo muito preocupado

em encontrar um melhor caminho à verdade,

algo, assim, que o aproximasse da realidade,

aceitaria de bom grado tuas opiniões,

e leria, sem receio, tuas indicações.

 

Sua busca, no entanto, vai além dos conceitos,

e para tanto, ele não larga os preconceitos;

não hesitará em, se preciso, te ofender,

alegando: “é só para me defender”.

Tua proposta de discussão a ele cansa,

pois ele não busca a verdade: busca segurança.

 

Suas opiniões não abandonará, nem por decreto:

para ele suas próprias idéias são como o concreto

(do chão onde pisa), o qual não se lhe pode tirar

pois, assim, como vai continuar a caminhar?

É melhor, na mão, um punhado de certezas

que a aventura do pensar, ladeada de incertezas.

 

E assim caminha nosso contendor,

não sem, é verdade, uma ponta de dor,

pois acaba por fazer, de suas relações e amizades

jogos de delações e iniqüidades.

Teme a chegada do próximo autor,

da pérola que lhe despertará o horror.

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 10:38:31
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Quinta-feira , 16 de Abril de 2009


 

O ato falho de Harold Bloom

 

 

            Harold Bloom é um famoso crítico literário da Universidade de Yale. É do mesmo time daqueles que, no Brasil, vivem a lamentar o sucesso de Paulo Coelho (mesmo sem ter lido uma linha sequer dos seus livros), a decadência do gosto literário e a nunca mais igualada qualidade dos autores da Geração de 40. É um grande conhecedor da literatura ocidental, sem dúvida, e escreve algumas coisas geniais sobre a Bíblia, embora sem muito método e sem muita comprovação, como a afirmação de que a fonte “J”, uma das que compõem o Pentateuco, foi, na verdade, obra de uma mulher.

            O crítico acredita, ainda, que a literatura enobrece o gênero humano. Não qualquer literatura, claro. A literatura que ele acredita poder ser escrita com “L”, assim, maiúsculo. Daí a choramingação diante das mudanças que experimentamos de forma cada vez mais acelerada:

 

“”Na verdade, estamos na Idade da Tela: os jovens crescem vidrados na tela da TV, na tela do computador, do cinema. Na Idade da Tela, as pessoas não leem de modo profundo e sério. E se não se lê profunda e seriamente, não se raciocina muito bem. O pensamento depende da memória e o que iremos lembrar se não lembrarmos o melhor do que foi escrito? Não sei quanto jovens no Brasil hoje leem Camus, quantos jovens italianos leem Dante, quantos jovens alemães leem Goethe ou quantos jovens aqui leem Walt Whitman. Acho que algo está ruindo. É todo esse horrível fenômeno ‘Harry Potter’, que não tem nada a ver com leitura. Parece que estamos resvalando para o barbarismo, e esse fenômeno é universal”.

 

            Ok, ok. Os tempos são outros, vivemos na barbárie, não lemos nada que preste, os jovens estão todos perdidos. Em parte concordo com tudo isso. Sobretudo depois de ter enfrentado a sala de aula. Mas não vejo solução onde Bloom a vê. Até porque, um leitor voraz de clássicos da melhor Literatura que existe, não poderia, jamais, negar, na prática, aquilo que, teoricamente, defende. É o caso do próprio Bloom:

 

- quem disse que, se não se lê de modo profundo e sério não se raciocina bem? FHC lia muito mais que Lula, que, aliás, não lê nada, mas, entre os dois, eu e a maioria da população prefere o segundo;

- Bloom mostra, ainda sobre a relação leitura/raciocínio, que não leu, ou leu e esqueceu, ou leu muito mal, nosso Paulo Freire. Se meu carro quebra no meio da estrada, longe de tudo, preferiria ter em minha companhia um mecânico, ainda que analfabeto, que um intelectual. O primeiro, muito provavelmente, me livraria da enrascada, o segundo, duvido muito.

- o pensamento depende da memória, diz o autor de O cânone ocidental (quem foi mesmo que estabeleceu o cânone?). Mas a memória falhou feio, porque Bloom esqueceu o nome de qualquer autor brasileiro. Lamenta que na Itália não leem Dante, na Alemanha não leem Goethe (aliás, muitos nazistas liam Goethe, e deu no que deu...), americanos não leem Walt Whitman e brasileiros não leem... Camus! O que houve com a memória de mr. Bloom, tão cultivada com “o melhor do que foi escrito”? Esqueceu-se que Camus era francês? Por que brasileiros teriam que ler Camus? Não se lembrou de Machado de Assis? Mas ele escreveu um livro em que colocou Machado entre os cem gênios da literatura de todos os tempos. Falhou a memória?

- Eu mesmo nunca li Harry Potter. Acho até que não gostaria. Mas daí a dizer que Harry Potter “nada tem a ver com leitura” é, no mínimo, risível. Aliás, o que esperava Bloom? Que adolescentes lessem, avidamente, Philip Roth? Mas qual o sabor de um livro como Homem comum para um adolescente? Por que os jovens têm que gostar de literatura do século XIX, assim, sem mais nem menos, porque “é bom e pronto”? Bom para quem, cára-pálida?

            Bloom, que tanto critica os “ressentidos”, acaba exercendo um papel muito próximo ao dos moralistas dos séculos XVIII e XIX, que criticavam o romance porque o gênero corrompia os costumes. A diferença é que Bloom critica o que, para ele, não entra no cânone. Mas suas palavras mostram que sua tese não tem lá muito fundamento. Ainda bem. Nada tão chato quanto ter que ser canônico. E ranzinza. 

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 07:29:04
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Quinta-feira , 09 de Abril de 2009


 

Ainda sobre A cabana

 

 

            Quando escrevi o post abaixo não tinha lido os comentários sobre o livro de Willian Young. Foi uma reflexão rápida, ao sabor de uma leitura que acabava de ser concluída. E que havia tido um efeito significativo sobre mim. Agora comento mais detidamente o livro, levando em consideração algumas opiniões emitidas sobre A cabana.

            Quanto às opiniões puritanas, embora ainda não tenha lido nenhuma, já ouvi de um amigo que foram unânimes em taxar o livro de “liberal”. O que dizer aos puritanos? Qualquer ideia, doutrina, reflexão teológica, sugestão de interpretação que fogem de sua estreitíssima fôrma é descartado. Não surpreende que não gostem do livro, assim como não gostam de nada que não tenha sido dito pelos puritanos do século XVII. Como disse no post anterior, o fato de os puritanos não gostarem do livro é uma referência para quem ainda não leu: provavelmente encontrará coisa boa ao fazer sua própria leitura. Não é possível argumentar com quem não respeita sua opinião e vai logo te encaixando em seu (do ouvinte) mundinho conceitual medíocre.

            Li algumas opiniões sobre o enredo, a história contada pelo livro. Ora, essa, podemos dizer, é simplória, banal. Não é esse aspecto que deve ser levado em consideração, porque o enredo, no caso de A cabana, é mero suporte para a discussão das ideias, simples prego que sustenta o quadro na parede. Houve quem criticasse o realismo meio capenga do livro, como quando o amigo de Mackenzie lhe empresta o jipe sem mostrar muita resistência diante dos propósitos que este tinha ao pegar o carro. Mas a obra não é realista, ela já faz conosco no início um pacto ficcional que exige a “suspensão da descrença”, que, se não for empreendida, impossibilita a continuação da leitura. Literariamente o livro é muito pobre, uma ficção bem “água-com açúcar”, mas não é essa sua preocupação. Mal comparando, é como um livrinho de Marcos Bagno, A língua de Eulália: literariamente é até constrangedor, de tão simplório, mas se presta bem à explicação dos fenômenos linguísticos do português (sugiro, aliás, para quem quer ver a língua de um modo diferente daquele que aparece na mídia).

            Quando mencionei a “teologia narrativa” de que A cabana é, acredito, um bom exemplar, é preciso lembrar que essa forma de fazer teologia não é nem um pouco nova, e seu melhor modelo são os próprios Evangelhos. Nenhum outro texto explica tão bem o que é “graça” quanto a narrativa do Filho Pródigo, em Lucas 15. Todos os evangelhos estão eivados de teologia, sem, no entanto, se prender a uma exposição conceitual mais densa como a das cartas paulinas, por exemplo. E garanto que podemos recontar a história do Filho Pródigo, ou do Bom Samaritano, mas não conseguimos descrever com detalhes o capítulo 15 de I Coríntios. Vê com maus olhos uma teologia narrativa quem acredita que as palavras estão coladas às coisas, e por isso são imutáveis. A realidade da presença e da ação de Deus na vida, no entanto, é algo que ultrapassa qualquer conceito; então, se para apreendê-la, uma narrativa exerce um melhor papel, é preciso dar-lhe primazia.

            Por fim, diria que a história de que o autor escreveu o livro para seus filhos, depois foi descoberto por alguém que quis lhe dar visibilidade etc, não passa, na minha opinião, de estratégia de editores bem espertos. Nada contra isso. O que acho mesmo é que há gente capaz de reflexão teológica mais profunda do que a apresentada no livro, a escrever juntamente com o autor. Questões como salvação universal (meio aos moldes de Andrés Torres Queiruga e, por que não, Jurgen Moltmann), ecumenismo, Trindade, realidade do Mal etc, aparecem de forma nem um pouco ingênua. Dentro dos limites que ele oferece (ficção amena, vocação para best-seller, desejoso de atingir um grande público não-especializado), acho que foram bem abordadas.

            Pronto. Agora acho que justifiquei um pouco melhor por que gostei do livro. Espero poder estar em sua companhia. 

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 15:58:09
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Domingo , 05 de Abril de 2009


 

Sobre A cabana

Para a Célia,

            pelo livro.        

 

 

            Há coisas demais no mundo para serem avaliadas, não damos conta de tudo. Um livro, por exemplo: são milhares de lançamentos anuais, e alguém que leia bastante lerá uns cinqüenta, sessenta livros por ano. Por isso, o critério bastante utilizado pelo professor Sírio Possenti[1] é interessante. Se, por exemplo, alguém como Jorge Bornhausen critica duramente alguma ação do governo, minha tendência, mesmo sem conhecer a causa, é a de aprovar a tal ação; se, um outro exemplo, gente como Tasso Jereissatti, Rodrigo Maia e Heráclito Fortes critica o Ministro Tarso Genro no caso Cesare Battisti, sou levado a acreditar que a insistência de Tarso em acolher o italiano foi correta. Os exemplos se multiplicam, e pode ser que depois, ao analisar a questão, mudemos de ideia. Mas, como disse, não podemos avaliar tudo, e esse acaba sendo um critério razoável.

            Todo esse intróito é para falar sobre um livro especificamente. Imagine que você ficasse sabendo do sucesso do livro A cabana. Sem tê-lo lido, você sabe, contudo, que os puritanos, em massa, execraram o livro. Pronto: você já tem um ótimo motivo para comprá-lo, e quase que com certeza, saber que está fazendo um grande negócio. E nesse caso o critério funciona perfeitamente. É um grande livro.

            Fiquei imaginando o impacto dessa história para os freqüentadores típicos das igrejas. Freqüentadores típicos das igrejas são religiosos típicos, ou seja, aquele tipo de gente que tem limites muito estreitos em matéria de fé ou teologia, e uma dificuldade gigantesca para aceitar mudanças de opinião. O que amenizou um pouco o impacto sobre mim foram duas coisas: a primeira uma intuição, ainda não de todo verbalizada, sobre as ideias defendidas no livro; a segunda, a nomeação dessa intuição pelos livros de Andrés Torres Queiruga, pensador brilhante, teólogo de primeira. Dessa forma, ao tomar contato com o livro de William Young, a sensação foi a de ver mais bem explicitada as intuições anteriores e as lições aprendidas com Queiruga. Mas, sobre quem não tinha qualquer tipo de “amenizador de impactos”, o efeito do livro pode ser grande. Algo como a libertação ou a ira desmedida contra o autor.

            Mas isso não quer dizer que o livro não tenha me impactado ou, até mesmo, emocionado. Penso que todos deveriam lê-lo nas igrejas (porque fora já estão lendo, e quem o lê fica, desconfio, com menos vontade de freqüentar uma igreja). É uma ficção aparentemente simples, mas que tem o mérito de tornar compreensível conceitos tratados de forma bem mais demorada e complexa nos livros de teologia. Claro que não se deve esperar de uma ficção destinada ao grande público uma discussão minuciosa das matérias teologais. Mas as questões estão todas lá, tratadas de forma absolutamente bela, sem apelar para o simplismo ou para as soluções fáceis. O autor tem muitas boas referências teológicas. Tudo está lá, mas de forma disfarçada, suavizada pela literariedade.

            Esse é outro traço importante de A cabana. O livro nos ajuda a pensar em uma teologia narrativa, algo de extrema importância para a necessária re-descrição da fé cristã. É preciso se dar conta de que os antigos conceitos falam muito pouco à mentalidade moderna. Que tipo de alteração conceitos como Soberania de Deus, Justificação pela Fé, Perseverança dos Santos, Eleição Incondicional etc, proporcionam à vida das pessoas? Que resposta eles dão à questão do mal ou do sofrimento, resposta que escape ao estoicismo e frieza que marcam uma fé descrita nesses termos? Qual a capacidade desses conceitos para explicar melhor o caráter do Amor Divino? Esses termos, que cumpriram um papel importante, hoje já não ampliam o Amor de Deus, pelo contrário, o limitam a um pequeno grupo de eleitos privilegiados (já reparou que os que defendem ardorosamente a doutrina da eleição incondicional nunca se excluem dela?).

            Falar aos ouvidos contemporâneos tem muito a ver com uma re-descrição da fé em termos literários. Contar novas histórias. Fazer teologia narrativa. E A cabana é um ótimo exemplo de como isso pode ser feito. Por isso, caro leitor, se você tiver poucas economias, guarde-as bem, acumule o que for necessário e compre, antes de qualquer outro livro, esse de que vimos falando. Você não vai se arrepender.



[1] Possenti é lingüista da Unicamp, e tem uma coluna no Terra que está entre aquelas que realmente valem a pena ser acessadas, ao contrário da maioria que existe por aí.

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 11:28:36
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Quarta-feira , 01 de Abril de 2009


A quimera da origem

 

            Acredito que o sucesso da doutrina do pecado original entre os protestantes – e sua invocação constante para a explicação de tudo o que somos e o que o mundo é hoje – tem a ver mais com o termo “original” que com o termo “pecado”. É que ao remontar às origens, pretensamente se chega ao nível último de razões e significados, obstrui-se a passagem para um “além disso”, esgotam-se as possibilidades interpretativas.

            Não é sobretudo nesse sentido que tem se dado o uso da doutrina entre nós? São muitos os sermões que se encaixam no lamento diante do atual estado de coisas fazendo uso da resignada afirmação: “não era para ser assim”. Na “origem” se encontra o mal, o descaminho, o erro incontornável. Diante da origem, que nos molda indelevelmente, cabe apenas a descrição que melhor defina seus contornos.

            E tão forte é a força da “origem” entre nós, como se a explicação que a ela recorresse fosse irrefutável, que poucos teólogos conseguiram vencer sua influência. Mesmo Paul Tillich, pensador refinadíssimo, não se desvencilhou da “explicação pela origem” e falou de uma “inocência sonhadora” vivida pelo homem antes da “Queda”. Mas quando se deu a “Queda”? Essa pergunta só faz sentido para quem lê literalmente a narrativa do Gênesis, prática pré-moderna e tributária de um sacrifício da razão que convida à desonestidade intelectual (a explicação que R.C. Sproul oferece a respeito do modo como “herdamos” a herança decaída de Adão chega a ser constrangedora).

            Poucos teólogos ousaram abandonar a explicação pela origem para dar lugar a uma leitura radicalmente contemporânea do “pecado original”. Dentre eles, Carlos Mesters (ainda que não tenha abandonado a expressão “pecado original”), Andrés Torres Queiruga[1] e Ricardo Gondim[2]. O movimento que fizeram é ousado e necessário. Buscar nossa atual condição em uma longínqua origem, a respeito da qual cada vez menos se pode falar nos antigos moldes da cosmovisão pré-moderna (que as igrejas insistem em defender ardorosamente) não passa de uma quimera, e pior, ela supostamente explica as barbáries da atualidade e “justifica” a possibilidade da presença de Deus no mundo.

            Michel Foucault contribui muito nesse sentido: “A história ensina também a rir das solenidades da origem (...) Gosta-se de acreditar que as coisas em seu início se encontravam em estado de perfeição; que elas saíram brilhantes das mãos do criador, ou na luz sem sombra da primeira manhã. A origem está sempre antes da queda, antes do corpo, antes do mundo e do tempo; ela está do lado dos deuses, e para narrá-la se canta sempre uma teogonia. Mas o começo histórico é baixo. Não no sentido de modesto ou de discreto como o passo da pomba, mas de derrisório, de irônico, próprio a desfazer todas as enfatuações”[3].

            Retroceder na história não traz a Verdade à tona. Pelo menos não essa, entidade extra-humana, forjada antes das convenções e criações próprias dos homens . O máximo que o olhar para o passado nos dá é uma proliferação de explicações para o nosso presente. Explicações sugeridas por aqueles que não tinham acesso à origem tanto quanto nós.

            No caso da narrativa de Gênesis, só nos cabe lê-la com os olhos no presente. Talvez como denúncia de uma situação, como bem sugeriu Carlos Mesters. Mas nunca como consolo resignado às angústias do presente. Em suma, não como descrição da origem.



[1] Conheci o autor recentemente, por indicação de meu irmão, Alex, e posso dizer que é um dos melhores autores com quem travei contato nos últimos 30 anos. Não pude deixar, também, de considerar um crime dos mais graves, do qual acuso todos os meus ex-professores, não tê-lo conhecido no Seminário.

[2] Que teve a ousadia e doçura de declarar que “precisamos da graça de Deus não porque somos pecadores, mas porque somos frágeis”.

[3] Foucault, Michel. Microfísica do poder, p. 18

Escrito por Leandro T. Almeida às 12:16:19
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Terça-feira , 24 de Março de 2009


Elogio da inconstância

 

            O título acima parece sugerir uma atitude irresponsável, leviana, uma justificativa para quem tem preguiça de perseguir algo mais duradouro, mais trabalhoso de se conseguir. Mas, na verdade, pode ser apenas o reconhecimento da grande complexidade que envolve a vida e suas tentativas de compreensão, daí a impossibilidade de um pensamento imutável, oniabrangente, linear.

            Kierkegaard dizia que Sócrates tinha o direito de dizer “só sei que nada sei”, expressão que soaria cínica nos lábios de um estudante de primário; da mesma forma, o elogio da inconstância seria impróprio para aqueles que nunca se dispuseram a refletir sobre sua própria presença no mundo, mas seria legítima para quem se angustiasse diante dessa tarefa, reconhecendo seus limites, que inclui sucessos e fracassos.

            Dizia a professora Jeanne-Marie Gagnebin que os grandes filósofos (falava ela especificamente de Marx) apresentam contradições em suas obras. A grandiosidade de seu pensamento comporta a existência dessas contradições, porque o que têm diante de si é exatamente algo complexo, que não pode se contentar com explicações simplistas, respostas prontas, raciocínios toscos.

            A marca da mediocridade é justamente o contentamento apressado, a concordância superficial com um sistema que se quer inteiro e sem frinchas, pretenso abarcador das aporias humanas. Tais medíocres não toleram abalos em seu sistema. E essa persistência na recusa de questionamentos passa por “solidez”, “sabedoria”, “firmeza”, “convicção”. É, na verdade, a outra face da covardia; o temor de ver o castelo de areia ruir, daí o apego insano às próprias formulações.

            Aquele que duvida, que relativiza a perenidade de seus próprios raciocínios, passa por “relativista”, “pós-moderno”, “incapaz de acreditar na verdade”. A sentença é muito imprópria. O que há, nesse segundo caso, é consciência da historicidade do conhecimento, das contradições inerentes à vida (e, portanto, as explicações a seu respeito não têm por que anulá-las), da impossibilidade de abarcar tudo em um sistema imutável (lembre-se que o grande Paul Tillich disse que sua Teologia Sistemática poderia bem ser reescrita a cada cinqüenta anos!).

            Quando, portanto, se faz o elogio da inconstância, não se defende nenhuma postura leviana, nem desapego à verdade, muito menos ausência de opiniões sólidas. Antes, quer-se reconhecer a superioridade dos filósofos, teólogos, historiadores etc, que permitem a presença da contradição, da aporia, da mutação de ideias dentro de seu próprio ato de pensar. Esses são os grandes pensadores. São corajosos. Os medrosos se fecham em sua imutabilidade. Não é à toa que falam apenas a seu restrito círculo. Aquele que insiste em lhes dar ouvidos. Porque também lhe falta coragem.          

Escrito por Leandro T. Almeida às 12:52:01
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Sábado , 14 de Março de 2009


 

Elogio da tolerância

 

            Aqueles cães malditos de Arquelau, romance de Isaias Pessoti, é envolto em erudição. A erudição de um autor versado em humanidades, conhecedor de autores clássicos gregos e latinos e com uma característica que “vaza” por cada página do romance: a indignação com a intolerância, aquela causada sobretudo em nome da defesa da fé.

            Eu já ia associar a erudição à tolerância, e pagar tributo à difundida ideia de que o estudo e a leitura produzem bondade, mas seria esse ledo engano. No romance, um misterioso cardeal, admirador de Eurípides, estudado, centenas de anos depois, por um grupo de pesquisadores italianos, sofre perseguição de bispos e papas cultos e versados, o que indica que nem sempre o estudo e a leitura produzem alargamento da tolerância (da mesma forma que não produziram nos nazistas que tinham obras de Goethe nas estantes de suas casas, como mostra Márcia Abreu em Cultura letrada: literatura e leitura).

            As razões da espúria, mas mais do que vivenciada associação entre erudição e intolerância (ou perversidade, ou espírito inquisitorial) podem ser muitas, mas uma delas certamente é das mais frequentes: as portas que o conhecimento abre ao poder. Lutercio, o cardeal do romance, é obrigado a disfarçar sua atuação porque ela ficaria na mira dos detentores do poder: esconder livros, camuflar traduções, dissimular influências. E assim se percebe o grave dano que produziu à cultura humanística toda uma “cultura de perseguição” e intolerância produzida pela Igreja Católica. Essa mesma cultura perversa que não compreende que, por mais que se tenha que manter tradições e opiniões muito bem estabelecidas, isso não pode se dar às custas da censura e do impedimento à expressão das vozes discordantes.

            Mas o cenário pode piorar: Lutercio, movido por um espírito apaixonado pelo conhecimento, vai além de seus superiores: mergulha nos escritos da Grécia Clássica, envolve-se com eles, identifica-se profundamente com o autor de Medeia, coisa que os demais não podem fazer, porque o poder exige a manutenção de sua liturgia, seu ritual de autores proibidos e livros interditados. E aqui acontece a tragédia em sua maior agudeza: o maior conhecedor é obrigado a sujeitar-se ao menor conhecedor, mas que é, para tranquilidade de seus pares, o detentor do poder (e talvez nenhum problema houvesse nessa sujeição, se a atitude do menor conhecedor fosse de tolerância e respeito às liberdades do maior conhecedor).

            Mas os pesquisadores que encontraram Lutercio nas entranhas de uma velha cidadezinha italiana resgataram sua trajetória de paixão pelo conhecimento e luta contra o obscurantismo, e isso numa época em que essa luta incorria em punições que atentavam não somente contra a moral, mas também contra a integridade física dos mais ousados. Daí, aliás, o título do romance, que faz referência à morte do ousado Eurípides na Grécia e de Lutercio na Itália, trucidados pelos dentes de raivosos cães, cujos donos exalavam não menor raiva diante das afrontas ao poder que possuíam.

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 22:47:22
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Quinta-feira , 05 de Março de 2009


 

Uma questão de honestidade (ou de inteligência?)

 

            Uma nova leitura da Bíblia, mais especializada, menos preconceituosa e preconcebida, é condição para uma renovação mais do que necessária entre as igrejas evangélicas. Veja-se que muitas das recentes inovações no campo eclesiológico estão fadadas à esterilidade, exatamente porque a estrutura visível é alterada, mas internamente percebe-se que o cerne continua o mesmo. O cerne é a mensagem, resultante do modo como a Bíblia é lida.

            E contribui para essa nova leitura (que tem que se renovar constantemente, o que não significa dizer sempre coisas diferentes, mas procurar, sim, descrições sempre melhores da atuação de Deus na vida, do que requer de nós etc) uma revisão profunda no conceito de revelação.

            Tal como está, convida à desonestidade e sacrifício intelectuais; justifica absurdos; não explica conflitos, tensões e variáveis perceptíveis no interior mesmo do mundo dos textos bíblicos; tampouco ajuda em uma leitura melhor. A ideia prevalecente, caricatural mas verdadeira, acredita que Deus inspirou o autor a dizer exatamente o que disse. Nada poderia ser de outra forma. Em muitos casos, escreveu o autor a respeito daquilo com que sequer sonhava (com se Isaías, por exemplo, tivesse escrito sobre Jesus de Nazaré, filho de Maria e José, mesmo sem ter a mínima possibilidade de saber se essa pessoa viria mesmo a existir).

            E a melhor forma de fazer isso, talvez a menos difícil (embora acredite que mudanças, nessa área, na cabeça da maioria, são impossíveis), seja mostrar a partir dos próprios textos bíblicos que eles mesmos são os primeiros a exigir uma leitura diferente da que vem sendo empreendida. Tome-se como exemplo II Samuel 11. O texto fala do assassinato que Davi tramou, o de Urias, para que complicasse um pouco menos sua vida depois de ter possuído a mulher de seu valente e honesto soldado. Já I Crônicas 20, até menciona a batalha aludida em II Samuel, mas cala-se solenemente a respeito do deslize de Davi.

            Mas sejamos honestos: a partir daquilo que aprendemos na própria Bíblia, a verdade não deve ser escondida, os oprimidos e injustiçados têm que ser defendidos, o mal não pode ficar encoberto. Mas foi exatamente o contrário de tudo isso que o autor de Crônicas escreveu! Na intenção de pintar uma imagem idealizada do rei, omite seus pecados, mantém Urias no esquecimento (um grande homem, segundo a descrição de Samuel) e, descaradamente, protege Davi de si mesmo. Tinha lá suas razões, é verdade, e a questão aqui não é essa. Mas o fato mostra a existência de discursos conflitantes em atuação (a partir disso é significativo pensar que o livro de Samuel tenha estado, originalmente, sob a rubrica de “Proféticos”, enquanto Crônicas sob a dos “Escritos”). O que quer que signifique, o conceito de revelação não anula a política, o conflito, os interesses que estão em jogo, todos eles, diga-se, humanos, demasiadamente humanos. Ou acreditaremos que o próprio Espírito Santo resolveu denunciar Davi em um texto e encobrir seu crime em outro? 

 

Escrito por Leandro T. Almeida às 09:24:06
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Sexta-feira , 20 de Fevereiro de 2009


Notas sobre um livro bom – III

 

 

            Um post anterior já tentou lançar uma réstia de luz na difícil questão do posicionamento da igreja frente aos pobres. Difícil, dentre outros motivos, porque parece que sempre estamos aquém de nossas tarefas, sobretudo se nos confrontamos com a radicalidade com que a Bíblia, notadamente o Evangelho de Lucas, se posiciona a favor dos despossuídos.

            Não vou me repetir, ainda acho razoáveis as propostas citadas anteriormente, mas trago um elemento a mais, dessa vez de André Comte-Sponville, com o que finalizo as reflexões inspiradas no Pequeno tratado das grandes virtudes. Diz ele:

 

“Pode-se pensar por exemplo, com Spinoza, que cabe ao Estado, não aos particulares, ocupar-se dos miseráveis; que, em consequência, contra a miséria, mais vale fazer política do que fazer caridade. Eu estaria de acordo. Ainda que desse tudo o que tenho, até tornar-me tão pobre quanto eles, em que isso alteraria a miséria, no fim das contas? Para problema social, solução social. [...] Isso não nos dispensa, por outro lado, de termos para com os pobres ou os excluídos uma atitude de proximidade fraterna, de respeito, de disponibilidade à ajuda, de simpatia, em suma de compaixão [...]”[1].

 

            As coisas aqui parecem em sua justa medida. E nos ajudam a pensar em uma necessidade urgente: a tradução da mensagem evangélica para os dias de hoje. Será a mesma coisa o dar esmolas no I século, do dar esmolas hoje, no século XXI? Não havia uma mínima rede de proteção social, centros de assistência, seguro-desemprego, políticas (ainda que precárias) de distribuição de renda. A esmola parecia fazer sentido, pois era a única forma de ajudar alguém totalmente desamparado. Esse desamparo total é mais difícil hoje. Além disso, não são poucos os que apontam os males advindos da esmola (uma criança que se acostume a ganhar dinheiro esmolando dificilmente largará a prática; isso sem contar que, provavelmente, há um adulto a explorar a fragilidade demonstrada em um rosto infantil...).

            Nada disso nos escusa, como bem diz Sponville, de tratar os mais pobres com respeito, dignidade, e mesmo compaixão. São atitudes contra-culturais, das quais a igreja deveria ser um exemplo, coisa que está longe de acontecer. Portanto, a tradução da mensagem do Evangelho para os nossos dias exige, acredito, opções políticas não conservadoras (ainda que as escolhas sejam cada vez mais difíceis), educação política da igreja, desvendamento dos mecanismos sociais de exclusão (em certo sentido, desnaturalizar aquelas práticas que aparentam ser naturais, quando são sociais). Uma outra forma de dizer tudo isso é concordar com a idéia de que um prefeito mais justo é mais eficaz contra a pobreza do que um cristão disposto a dar esmola (assim como o Lula, para os pobres, foi muito melhor que FHC [e, parece, também para os ricos, embora estes não se conformem com o fato de um torneiro mecânico nordestino ter “chegado lá”]).

            A tradução da mensagem do Evangelho não significa amenizá-lo ou diminuí-lo; trata-se de não sufocar o espírito por causa de um apego ingênuo à letra.



[1] Sponville, Pequeno Tratado... p. 128.

Escrito por Leandro T. Almeida às 22:33:43
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Sexta-feira , 13 de Fevereiro de 2009


Notas sobre um livro bom - II

 

            Alguns filósofos foram transformados em grife. Citá-los é como possuir um objeto de desejo, é ostentar um conhecimento que pretensamente encerra as discussões, é ser dono da palavra inspirada. Parece que aquilo que disseram simplesmente “é”, sem mais considerações. Isso acontece sobretudo entre jovens universitários que se deslumbram diante das primeiras críticas contra o capitalismo com as quais tomam contato, ou quando se dão conta de que o cristianismo não passaria de uma forma de consolo a pessoas fracas e de débil inteligência.

            Um destes filósofos é Nietzsche. É prestigioso citá-lo. Mesmo para discordar dele, como tão frequentemente ocorre nas igrejas. E, às vezes, por conta da carga simbólica associada ao filósofo alemão (crítico da moral cristã, meio louco, autor de um livro chamado O anticristo etc), esquece-se de lê-lo com mais minúcia, ou ocorre até mesmo que seu argumento prevaleça somente por ser seu.

            Li alguns livros de Nietzsche. Algumas críticas realmente são pertinentes, há considerações simplesmente fascinantes (como sua definição do “espírito livre”) e, inegavelmente, muita competência na investigação da “genealogia” da moral, sobretudo ocidental e cristã. É, sem dúvida, um pensador brilhante. Mas entre seus escritos há também muita bobagem. Muito preconceito, muita “aristocracia”, muitas idéias que se sustentam apenas para alguns poucos privilegiados (como aquela que diz que “não importa o que uma pessoa faça, se não tiver 16 horas do dia livre para si, é escravo”. Ora, para alguém que viveu grande parte da vida com uma pensão do governo é fácil dizer isso...). E muitas vezes algumas dessas bobagens andam na boca daqueles que acham “cult” citar o nome do filósofo, sem levar em consideração, em primeiro lugar, como deveria ser, a validade dos seus argumentos.

            Uma das críticas mais reproduzidas, dentre aquelas emitidas pelo filósofo alemão, é aquela lançada contra a moral cristã, sobretudo no que diz respeito ao incentivo à compaixão. Ser compassivo é ir contra “a energia do sentimento vital”. Não se deve ser misericordioso. É uma ação de fracos a favor de fracos. Nesse momento é que deveríamos perceber que bons argumentos valem mais que boas “grifes filosóficas”.

            Tratando da compaixão, Sponville[1] comenta a afirmação nietzscheana: “Nietzsche é divertido, querendo nos levar a repugná-la. Como se não a repugnássemos de antemão! Como se não fosse nosso desejo mais vivo, mais natural, mais espontâneo, nos livrarmos dela! Quem não se fartaria do seu próprio sofrimento? Quem não preferiria esquecer o dos outros, ou ser insensível a ele?” O tiro de misericórdia é bastante sarcástico: “De que adianta filosofar a marteladas[2], se é para nos acariciar assim, como o primeiro demagogo, no sentido do pêlo?”

            Argumento por argumento, o de Sponville é muito mais convincente. É, na verdade, brilhante: de que vale nos incentivar a não sermos misericordiosos se, por natureza, não o somos? Deveriam prevalecer, na vivência com as idéias, os melhores argumentos, os mais finos e precisos raciocínios, a consideração certeira, como essa, de Sponville, que, a meu ver, desestrutura a crítica nietzscheana contra a misericórdia. Mas nem sempre isso acontece. A autoridade do nome, para alguns “pensadores”, é mais forte que a autoridade do argumento. Certa vez perguntei a um professor como ele respondia à afirmativa de C.S. Lewis de que “se o homem fosse totalmente depravado não saberia que é totalmente depravado”. A resposta: “C.S. Lewis é filósofo, não teólogo”. Muito bem, mas o argumento continua vivo, não importa de onde venha. É verdade que os grandes filósofos não o são à toa. Mas isso não torna seus argumentos inquestionáveis. Para o bem da filosofia.



[1] No Pequeno tratado das grandes virtudes, p. 122.

[2] Referência a um dos livros de Nietzsche, Crepúsculo dos ídolos – ou como filosofar com o martelo.

Escrito por Leandro T. Almeida às 17:02:28
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