Em nome de quem?
Discutia com alguém que insistia em alegar que a negação da ordenação de mulheres ao pastorado ou presbiterato das igrejas era uma determinação divina. A argumentação remetia a uma ordem de Deus para a criação que fora estabelecida “antes da Queda”, e, por isso, ainda fazia sentido que, hoje, a mulher “não exercesse autoridade”. O texto está lá em Timóteo, lido em suas minúcias, embora os versículos anteriores fiquem, misteriosamente, fora das considerações – uma vez que mulheres podem, ao menos, falar nas igrejas.
Eu tentava dizer que a Bíblia, tendo emergido de uma cultura machista e patriarcalista, era, ainda assim, bastante “progressista” quanto ao papel das mulheres (basta pensar no papel que elas exercem nos Evangelhos), e que os resquícios, bastante perceptíveis, de uma cultura machista e patriarcal tinham que ser julgados – e condenados – à luz do que o próprio princípio do Evangelho traz como boa nova, como novidade: em Cristo não há homem ou mulher, senhor ou escravo, gentio ou judeu, pois Cristo é tudo em todos. A pergunta do meu “oponente” foi significativa: se é assim, se é preciso separar o que é cultural do que é Palavra de Deus, então o que vai sobrar da Bíblia?
A conversa teve que ser interrompida por circunstâncias alheias, e por isso não pude dar minha resposta: o que sobra, subtraídos os condicionantes culturais prejudiciais à mensagem evangélica, é o que na verdade mais importa: o amor, a justiça, a fraternidade, a tolerância, a luta pela igualdade entre homens e mulheres, a vida em primeiro lugar...
Depois desse episódio fiquei a me perguntar: qual a grande dificuldade em se aceitar, por exemplo, a ordenação feminina? Ou melhor, em nome de quem se defende ardorosamente ideias arcaicas como a dessa rejeição? Em nome de Deus? Na verdade, defende-se ideias como essa porque elas são fruto das próprias convicções, ardorosamente defendidas como vindo diretamente de Deus. Podemos perguntar: que tipo de Deus se aferraria a concepções como essa?
O que vemos, então, é que os mais arraigados preconceitos, contra mulheres, homossexuais, tatuagens, brincos, estilos musicais, etc etc, são defendidos por homens que se acreditam donos de um mandato divino para exercer a separação entre o que Deus aprova e o que ele não aprova. A grande contradição é que não é difícil perceber o quanto tais atitudes se distanciam cada vez mais do amor, da tolerância, do acolhimento, da atenção realmente sincera para com a vida alheia. Daí que tais ações são motivadas por um ídolo, o ídolo dos próprios preconceitos e limitações.
Não é o caso de dizer que Deus “quer a ordenação das mulheres”. Seria muito infrutífero, e impróprio, ficar brigando para se adivinhar o que “Deus quer ou não quer”. Ele já nos deu o mandato: amem-se uns aos outros. Assim, a pergunta correta não é se Deus quer ou não a ordenação de mulheres, que os homossexuais sejam admitidos nas igrejas, que o dízimo seja mesmo de 10% para todas as pessoas etc. A pergunta correta é: em todas essas situações, qual decisão expressa mais verdadeiramente o amor? Qual escolha é a mais amorosa? Quem tem que responder a essas perguntas somos nós. Quem se refugia em versículos bíblicos para dizer, por exemplo, que Deus não quer a ordenação de mulheres, deveria dizer que o mesmo que ordenou o amor aos inimigos é o mesmo que ordenou a morte de mulheres e crianças.
Alguns dirão que é preciso pensar na “honra e glória de Deus”, tomar cuidado com o que é “abominável ao Senhor”. Concordo plenamente. Mas é preciso dizer que a honra e glória de Deus estão exclusivamente no amor, e onde ele se expressar. Abominação a Deus é a ausência da prática do amor, exclusivamente. Essas picuinhas dos cristãos, tradicionais ou não, remetendo a Deus seus preconceitos e suas discriminações é que desonra a Deus e é abominável a ele.




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