A terrível democracia doutrinária
Foi nesses termos que uma dessas revistinhas de Escola Dominical se expressou ao falar do que considera ser um dos grandes males da igreja atualmente. Na sua visão, permitir que cada pessoa tenha uma leitura própria das Escrituras é um perigo a ser combatido, uma prática a ser sanada em nome da preservação da verdade única e irrefutável, a verdade expressa nos símbolos de fé adotados por essa mesma igreja.
Alguém já disse que onde se queimam livros, em breve se queimarão homens. Todo o poder (não apenas eclesiástico) seja concedido a quem considera que a democracia possa ser algo terrível e não demorará para que a instauração do totalitarismo esteja em vias de se realizar. Totalitarismo, aliás, é o que defende quem nega a democracia: as pessoas não têm a permissão para o livre pensamento, não podem expressar o que de fato defendem suas consciências, não podem discordar do que já está estabelecido. Esse é o resultado de 500 anos de Reforma Protestante, erigida, dentre outros, sob o pilar do livre exame das Escrituras. Nem Sócrates pensaria em tal ironia.
A contramão da História não poderia ser mais evidente: num momento em que as minorias não se deixam mais esmagar pelo silêncio a elas imposto, em que países árabes antes fadados ao peso da mão de ditadores clamam por libertação, em que pobres saem às ruas para lutar até o sangue pela preservação de direitos básicos, momento em que, em suma, está cada mais difícil para que as desigualdades e opressões sejam mantidas como se fossem coisas naturais, os presbiterianos se reúnem aos domingos pela manhã e ouvem falar do quão terrível é a democracia (doutrinária). Coloco entre parênteses a especificidade dessa democracia porque a questão, conquanto possa inicialmente parecer somente doutrinária (e isso já não é pouco), na verdade se relaciona a qualquer tipo de democracia verdadeira. Difícil errar o lado que a igreja tomaria levando-se em consideração um hipotético prognóstico de instauração de uma nova ditadura militar no Brasil em nome da família, da moral e do combate à corrupção: ela a apoiaria sem qualquer hesitação.
Na base da condenação da democracia doutrinária está a condenação da livre expressão de ideias. A partir de autores como Habermas e Rorty, no entanto, percebemos que o que de melhor se pode almejar na atual situação histórica é que todos sejam livres para expressar suas opiniões e que acordos de boa convivência sejam feitos nessa base, sem coerções, sem ameaças. Ganha quem tiver o melhor argumento. Essa “utopia” poderia estar na base do estabelecimento do modo de ser das igrejas cristãs: espaços de livre pensamento em que as pessoas se associam ao qual considerarem melhor. Não aceita isso quem, (1) considera-se proprietário de uma verdade que os outros não possuem e não podem alcançar por si mesmos, (2) insiste em impor sobre os outros sua verdade, mormente considerando-a a única existente, (3) não acredita na capacidade dos demais, considerando-os como sempre carentes de um guia que impeça seus desvios. Um pastor que lança mão de uma lição medíocre como a dessa revistinha com que tive contato normalmente preencherá os três requisitos acima. Um quarto requisito ainda pode ser acrescentado como adendo: (4) esse pastor usará do poder de que dispõe para compensar sua pobreza intelectual e humana e poder, assim, exercer, sub-repticiamente, uma coerção que garanta a adesão dos fieis.
Certa vez, na igreja, expus um pensamento que contou com algumas prontas discordâncias por parte do auditório. Não os convenci com meus argumentos. Nenhuma crise, contudo, foi instalada. A amizade continuou a mesma. Sentamos e comemos à mesma mesa. Esse é o terror da democracia doutrinária?




Leia este blog no seu celular